O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro

(Brasil,1969). De Glauber Rocha. Com Maurício do Vale, Hugo Carvana, Othon Bastos, Odete Lara. Versatil. Formato de Tela: 1.66:1. 97 min.



O lançamento em DVD da versão restaurada de O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro é a recompensa de um empenho impressionante, de que o filme é absolutamente merecedor. O material original havia se perdido num incêndio, e a solução encontrada foi montar um quebra-cabeça internacional, com as imagens de uma cópia francesa – o que explica as legendas em francês sempre que há música cantada – e o som de uma cópia localizada em Cuba. A maior parte do som, porque a reconstrução dos diálogos, por exemplo, contou com trechos obtidos de fontes diversas – até uma cópia pirata da Internet contribuiu para o resultado final.

A excelência do trabalho de restauração permite que as novas gerações de espectadores do cinema brasileiro tenham acesso a um filme de Glauber Rocha em toda a sua explosão de cores, justificando sua associação com o tropicalismo, a composição elaborada de seus quadros, a estridência e o silêncio confluindo tanto no que se ouve quanto no que se vê. E tudo isso com uma qualidade de imagem das mais atuais, como se o filme fosse produzido hoje. Feito hercúleo, detalhista e brilhante dos profissionais da Cinemateca Brasileira.

Mas o filme, nota-se, não é de hoje. O Dragão é do fim dos anos 60, um tempo em que “uma obra prima surgia no cinema a cada três ou quatro dias”, na afirmação de Martin Scorcese, para quem o filme de Glauber conseguiu superar seus notáveis contemporâneos – a saber, o americano é um entusiasta ardoroso do cineasta baiano, exibe seus filmes para as equipes com que trabalha e chegou a gravar as músicas regionais de O Dragão para ouvir no rádio do carro.

O que impressionou Scorcese especialmente neste filme foi um cinema maior, ultramoderno e, ao mesmo tempo, baseado nos westerns tradicionais, expressionista e também simbólico, minucioso e operístico. Um cinema inigualável, embora tantos tenham querido fazer filmes do modo como Glauber fazia, sem seu talento delirante, jogando a peixeira nas mãos dos detratores do Cinema Novo.

A trama se encaixa no arquétipo de filme engajado segundo a fórmula glauberiana: a de um filme preocupado com as questões de seu tempo. Antonio das Mortes (Maurício do Valle), personagem egresso de Deus e O Diabo na Terra do Sol, segue sua promessa de não deixar nenhum cangaceiro vivo. Mas o encontro com uma menina-santa lhe abre os olhos, e ele se descobre instrumento dos poderosos contra o povo oprimido e injustiçado. E muda de lado, para azar de um latifundiário cego (Jofre Soares) e seus jagunços. Com Antonio, luta um professor embriagado (Othon Bastos), homem de idéias que, até então, nunca pegara em arma – perfil em que se reconhece o revolucionário poeta de Jardel Filho em Terra em Transe.

O fato de O Dragão ser um western estilizado, repleto de teatralidade nas situações, não esconde a mensagem política. Pelo contrário, ela fica ainda mais evidente. Mas é questionável se, saindo do cinema, alguém haveria de levantar bandeira contra a repressão e a injustiça social. O certo é que teria motivo bastante para falar em revolução estética.

O que primeiro se nota é que a fotografia de Affonso Beato trabalha aqui com os extremos da saturação de cores, provocando o contraste entre os brancos do agreste e o roxo gritante do vestido de Odete Lara – comentário visual do deslocamento de uma mulher atraente e bem cuidada entre os rústicos do sertão – e os vermelhos vivos que se espalham na tela, nas roupas de São Jorge, do latifundiário, nos corpos ensangüentados. A química entre a fotografia de Beato e a direção de arte de Hélio Eichbauer faz o pano de fundo expressionista para a composição barroca de Glauber Rocha, em que cada quadro explora o máximo de ornatos, trabalhando a perspectiva entre seus elementos, o equilíbrio – e o desequilíbrio – no movimento dos corpos, a sucessão entre as músicas de cantadores de feira e a modernidade da trilha vertiginosa e fragmentada. O plano-seqüência reproduz as possibilidades do teatro na criação de focos de atenção que não cabem no quadro – e nisto talvez se note uma influência de Glauber no cinema de Scorcese. A montagem alterna seqüências no limite da duração com cenas rápidas e sem linearidade.

Com este mosaico de ousadias, o diretor faz uma composição colidente e grandiosa, um cinema que ri alto como as peças de Zé Celso, um cinema imenso, poético e perigoso, que faz com que a linguagem cinematográfica, aqui grafada por um revolucionário de seu léxico, seja a própria mensagem que o gênio de Glauber achou por bem passar adiante.

Alexandre Carvalho dos Santos

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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