Encarnação do Demônio

(Brasil, 2008). De José Mojica Marins. Com Marins, Jece Valadão, Adriano Stuart, Milhem Cortaz. Fox. Projeção:1:85:1 91 min.



As tripas do Zé

E eis que estreou o mitológico Encarnação do Demôni. 40 anos em produção. O nosso The Other Side of the Wind, com a diferença – bem típica do cinema brasileiro – de que no lugar de não-finalizado, nossa versão era não filmada mesmo. Para um filme desse tamanho, alguns apontamentos no lugar de uma crítica:

-- Os fãs do José Mojica nunca lhe prestaram um grande favor ao tratar seus filmes de maneira quase litúrgica. Existem muitas maneiras de “limpar” este cinema e da mesma forma que muitos temiam pelos efeitos que o atual sistema de produção poderia ter sobre Encarnação, nosso olhar pode por vezes fazer ele mesmo este serviço sujo. O maravilhamento que as imagens de Mojica causam surge lado a lado com o que o seu cinema tem de torto e é sempre bom lembrar disso. Portanto que fique claro, trata-se de um filme memorável, mas muito longe do perfeito.

-- Não deixa de ser um timing curioso que faz Encarnação do Demônio chegar até nós em 2008. Uma das muitas características fascinantes dos filmes do Mojica foi sempre a facilidade com que ele mapeia e se conecta com as pulsões mais conservadoras da nossa sociedade. Como estamos num dos nossos fluxos mais excessivos de conservadorismo, é uma boa hora para o Zé voltar a nos assombrar. O roteiro foi atualizado, mas a sua lógica permaneceu intacta. É a natureza cíclica da nossa sociedade destilada à perfeição.

-- O desafio que Mojica, e de certa forma o produtor/montador Paulo Sacramento e o co-roteirista Dennison Ramalho, precisava lidar é uma questão de imagem. O temor e fascinação que a figura de Zé do Caixão projetava nos anos 60 se tornaram uma impossibilidade. Justamente porque Zé do Caixão causava horror menos pelos atos de violência que realizava e mais pela sua própria imagem. Dentro da lógica dos filmes, Zé, o pagão, era tão vital para causar pavor no espectador quanto Zé, o torturador de mulheres. Com o tempo, porém, a imagem do personagem por outras mídias se transformou na figura cult e espécie de símbolo/patrono da podreira cultural de todo o tipo. Goste-se ou não, o estrago já estava feito e a prova da grande inteligência de Mojica e seus comparsas é que eles sabem que não podem ignorá-lo.

-- A operação praticada por Encarnação do Demônio é simples: pegar o valor da iconografia que sempre foi importante para a figura Zé do Caixão e transformar seus termos, mas ao mesmo tempo a levar ainda mais para o centro da narrativa. Tudo no filme gira em torno do ícone. A começar por um Zé do Caixão muito mais sedutor, capaz de trazer consigo um séqüito de admiradores e de encontrar belas mulheres mais do que dispostas a carregar seu filho. Não deixa de ser uma bela metáfora para a carreira do próprio Mojica: o Zé do Caixão de Encarnação é pop, mas é ainda mais marginal. Antes, sua profissão e sua figura imponente lhe garantiam uma posição de algum destaque na comunidade, agora está escondido num barraco.

-- Como sempre nos filmes de Mojica, as atuações variam muito da grandeza de Helena Ignez e Débora Muniz aos seguidores constrangedores do Zé. Mas Jece Valadão, Adriano Stuart e Milhem Cortaz são brilhantes como o trio de algozes de Josefel Zanatas. Graças a eles há um elemento novo em Encarnação: podemos não estar diante do melhor filme de Mojica, mas é o primeiro em que as cenas mais simples, que existem exclusivamente para mover as maquinações da trama, são por vezes memoráveis.

-- A escolha de Valadão certamente não foi acidental. Um ícone de outro cinema popular dos anos 60 e cuja reputação hoje é ainda mais marginalizada que a de Mojica. O confronto deles nunca toma conta do filme como deveria – em parte porque a morte de Valadão infelizmente rouba de Encarnação um pouco da sua coerência narrativa e temática -, mas paira sobre ele assombrando-o da mesma maneira que Zé é assombrado pelos fantasmas de suas vítimas.

-- Esta subtrama não deixa de ser bem indicativa de como o cinema de Mojica funciona: superficialmente é bastante óbvia e um tanto mão pesada, mas há algo de estranhamente prazeroso nas imagens dos fantasmas preto e branco que lhes dão toda uma força especial e elas somam neste painel geral de um Mojica muito consciente tanto do seu passado quanto do seu legado.

-- Graças aos fantasmas de Zé, Mojica recria o final de Esta Noite Encrnarei no Teu Cadáver. Como peça de resistência estética é um momento político como poucos. Justifica por si só o filme.

-- Há uma ênfase maior na violência física em Encarnação. Os mais apressados foram rápidos em apontar uma suposta influência de sucessos de horror recentes como as séries O Albergue e Jogos Mortais. É preciso, porém, apontar que não há necessariamente uma grande novidade nas cenas de tortura bastante explícitas presentes aqui. O cineasta sempre teve uma queda por estas situações, que afinal ajudam a realçar os jogos de poder que tanto lhe fascinam. O terceiro episódio de O Estranho Mundo de Zé do Caixão, em especial, é uma sessão de tortura que em nada deve ao novo filme.

-- Se há alguma concessão ao horror moderno, ela chega mais pela influência do co-roteirista e assistente de direção Ramalho, um grande cultor de gore contemporâneo, como seus curtas e a seção de filmes de horror do Festival Internacional de Curtas de São Paulo, curada por ele, bem atestam.

-- Ponto que talvez fira algumas sensibilidades autoristas: a troca de colaboradores de Rubens Lucchetti por Ramalho levou Mojica do lisérgico ao visceral.

-- Falando em Lucchetti, a única cena supostamente pouco alterada do roteiro original – a visita de Zé ao purgatório – nos lembra que podemos ter muitos cineastas mais elegantes do que Mojica, mas nenhum tão hábil em criar uma seqüência de impacto a partir de imaginativas soluções visuais.

-- Efeito curioso do intervalo entre os filmes: se antes a busca pelo filho perfeito existia principalmente como um gancho dramático para mover o personagem, ela agora parece tomar conta do próprio cineasta. O filme todo parece exalar a necessidade de continuar o sangue.

-- Agora, querem a evidência de que este é um filme especial? Ela não demora a chegar, basta checar a primeira seqüência onde o diretor da prisão vai liberar o Zé. O recorte da luz do José Roberto Eliezer, a forma que a câmera acompanha o personagem, a presença de cena de Luis Mello – um dos nossos atores mais maneiristas, pela primeira vez bem usado num produto audiovisual – e por fim a apresentação de Zé do Caixão. Trata-se de um mergulho no inferno de uma simplicidade terrível. Uma idéia de inferno palpável como raras vezes encontramos. Não surpreende. O cinema de Mojica é feito com tripas de verdade. Seu sangue está ali impresso na película. Não é com muita freqüência que podemos dizer isso.

Filipe Furtado

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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