Cinema - Cultura - Comportamento
Por Leonardo Luiz Ferreira
Foto: Álvaro Riveros
O cineasta israelense Eran Riklis esteve no Brasil para lançar Lemon Tree, vencedor do prêmio do público na mostra Panorama no Festival de Berlim, no 12º Festival de Cinema Judaico e também divulgar a estréia de seu filme, logo em seguida, no circuito nacional. Na entrevista exclusiva, ele afirma a sua ligação com um cinema de bandeiras políticas e que espera promover uma reflexão na platéia.
Revista Paisà: Lemon Tree reserva bastante semelhança estrutural e temática com A Noiva Síria, seu longa anterior. Quando surgiu a idéia para o projeto?
Eran Riklis: A pergunta será respondida através de duas vias: depois de A Noiva Síria resolvi que faria um outro filme em que a atriz Hiam Abbass seria a protagonista. Ela é uma presença forte em cena e mesmo em A Noiva Síria , onde não é a protagonista, ela sobressai. Mas é um filme de elenco. Eu pensei também que tinha dito tudo a respeito do Oriente Médio. Porém, cheguei a constatação de que ainda havia o que falar. Era importante abordar a questão da Palestina. Os filmes têm sim muitas semelhanças, mas em Lemon Tree vou além. O roteiro é baseado em uma história real e ambos abordam o mesmo tema político espinhoso. Na questão cinematográfica, A Noiva Síria é mais clássico.
O filme versa sobre a resistência em que limoeiros representam um microcosmo da relação problemática entre a Palestina e Israel. Você pensa cinema exclusivamente como uma ferramenta para a reflexão?
Sim. Nós sabemos que o cinema não muda o mundo, mas faz com que as pessoas reflitam sobre suas vidas ao redor. Em geral, os indivíduos não discutem sobre alternativas de mudanças. Se Lemon Tree tem um papel é de mostrar a situação difícil e levar o espectador a uma reflexão. Eu gostaria que todos passassem a ver algo diferente a partir do longa. É fácil fazer filmes políticos e passar em festivais. Eu uso ferramentas de comunicação para que todos entendam o lado humano da história.
Há uma repetição de atores nos dois filmes. Fale sobre o processo de direção de elenco e sua relação com os atores.
Os atores são o elemento mais importante do filme. Se a face na tela de um ator não funciona, então, não se tem um filme, pois nunca o cinema conseguirá cativar o público. Normalmente, demoro a fazer as escolhas porque acho o processo vital de uma produção cinematográfica. Tento misturar dois meses de ensaio e trazer os atores para o papel – encontrar o link de cada um. Estou sempre aberto para discussão e, por isso, formo boas relações com os atores. O cinema é a arte da flexibilidade. Um bom casting pode mudar a execução do roteiro. Tudo pode mudar no set, mas desde que se mantenha o conceito vivo.
A Noiva Síria trabalha mais com cores vivas e a paleta de cores em Lemon Tree é mais cinzenta e terrosa. Como foi o trabalho de direção de fotografia?
O conceito visual foi simples: a idéia era não ter nada entre a câmera e o ator. A câmera mantém-se fisicamente próxima ao elenco e isso possibilita o espectador entrar na narrativa. Mantenho o ponto de vista de cada personagem, sem nada exagerado ou com muitos movimentos. Deve-se respeitar os personagens; dar espaço para eles. A câmera está lá a todo o momento e permite que a face do ator fale. Para o uso de cores, a situação é básica: quando se lida com a questão árabe não se pode cair no exotismo. Através dos limoeiros já teria cor suficiente. Mas, com certeza, a atmosfera mais cinzenta é porque a imagem carrega a minha tristeza com relação aos conflitos.
Por que ocorre a incisão de luz no momento do beijo entre Salma e Ziad, seu advogado?
O filme é bem realista e essa sempre foi a minha proposta. Mas quis colocar um momento fora disso: o par central pode ser algo diferente, mas não é. É um momento mágico entre eles em que me filio ao cinema indiano e árabe. É uma homenagem ao passado e ao cinema clássico. Uma seqüência puramente cinematográfica.
Qual é seu propósito como diretor de cinema?
Estou procurando a verdade simples. Há sempre uma verdade que as pessoas não vêem. Eu tenho o dever de mostrar uma história. Hoje não existe mais o cinema político tão relacionado a diversos cineastas, como Costa-Gavras. Vivemos em um mundo político: tudo afeta a sua vida. Estamos fechados. Tento trazer a realidade para a tela e não me sinto nenhum bravo por causa disso.
Como avalia o momento da cinematografia israelense?
É uma indústria crescente e que está indo cada vez melhor. Todo festival grande no mundo hoje tem um filme israelense presente na seleção, às vezes, até mais de um. Os filmes estão sendo comprados para distribuição em países diversos, como o caso do Brasil, que no momento exibe o meu filme e A Banda. Nós temos boas histórias, atores e diretores. E descobrimos o caminho das co-produções, sobretudo com a França, que viabilizam os projetos. O lance é aproveitar o momento e continuar produzindo.
Apesar de uma ligeira mudança, no Brasil chegam poucos títulos israelenses e, normalmente, têm temáticas parecidas (guerra e política). Não há receio de se tornar repetitivo?
A razão é simples: Israel é assim. A vida lá é dessa forma e não há como ignorar isso. As pessoas têm interesse em saber mais sobre nossa cultura. Mas claro que os diretores fazem abordagens distintas, até mesmo, de gênero. Guerra, religião e política fazem parte do país. Duas outras cinematografias, China e Irã, também têm temas que se repetem em diversas obras.
Quais são suas principais referências?
A maior inspiração para meus filmes, sem dúvida, é o cinema de Jean Renoir, em especial, o seu approach humanista. Ele demonstra valores bonitos. Não sigo o estilo, mas adoro o trabalho de Bertolucci, Mike Leigh e Ken Loach: realista e sócio-político. Eu nunca saí de nenhum filme na minha vida; há sempre algo a se observar. Do cinema italiano retirei a habilidade de misturar tragédia e comédia. Aprecio também a estética do cinema asiático. E, claro, acho Roman Polanski, John Huston e Billy Wilder grandes narradores. Eles sabem contar uma história e isso é o que me norteia.Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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