Cinema - Cultura - Comportamento
WANTED. (EUA,2008). De
Timur Bekmambetov. Com James McAvoy, Morgan Freeman, Angelina Jolie. Formato de Tela: 2.35:1. 110 min.
Indo direto ao ponto, O Procurado é sobre inconformismo. Wesley (James McAvoy) é um jovem deprimido que leva a vida no piloto automático, ignorando as frustrações do dia-a-dia. Frustrações na forma de caricaturas grotescas de um escritório sem vida, uma chefe tirana, uma namorada insatisfeita e um amigo sacana. Nosso herói despreza seu cotidiano, mas, como talvez boa parte do público deste filme, não tem ânimo para confrontá-lo.
Isso muda quando ele é convidado a entrar numa sociedade secreta de assassinos, já que herdou habilidades fantásticas do pai desaparecido. Com o lema “mate um, salve milhares”, o grupinho recebe seus alvos do próprio Destino (o conceito, e não o personagem de HQ). Com armas e treinamento especial, o protagonista – entre um e outro obstáculo – finalmente se revolta contra sua vida ordinária.
Entretanto, que ninguém pense em O Procurado como algum tipo de ficção política libertária. O problema não é que a forma como o personagem principal se rebela é impossível na vida real e sim de que ela é desprovida de contexto e conseqüências dentro do filme. Como os assassinatos cometidos por Wesley “salvam milhares” é algo que jamais é explicado ou mostrado. Na verdade, durante boa parte do tempo, o filme parece mesmo pregar a obediência cega a uma autoridade superior – embora uma revelação no terço final felizmente ponha essa idéia em cheque.
Seja como for, é evidente que as implicações políticas de O Procurado eram preocupações menores para o diretor Timur Bekmambetov e os roteiristas Michael Brandt, Derek Haas e Chris Morgan. A meta mais evidente deles é saciar todas as fantasias do espectador – de violência, principalmente. As sexuais nem tanto, pois não há nenhuma cena de sexo com Angelina Jolie que, no filme, tem a consistência dramática de uma boneca erótica inflável.
Talvez não haja nada de errado em ter esse objetivo, mas Bekmambetov nem se esforça em esconder que O Procurado repete com pouca inspiração procedimentos estéticos e dramáticos de três cults nerd: Matrix, Clube da Luta e Star Wars (no caso do último, a repulsa/fascínio pela figura paterna). Em alguns momentos O Procurado até flerta com a possibilidade de ser uma ironia com essas produções e seus derivados, mas nunca há uma entrega completa. No fim das contas, se o discurso inconformado de Wesley no desfecho do filme soa tolo (ou oportunista) é porque O Procurado em nenhum momento deixou de ser submisso e obediente a um tipo de cinema contemporâneo fútil e inofensivo.
Bruno Amato Reame
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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