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Não Estou Lá
I'M NOT THERE . (EUA, 2007). De Todd Haynes. Com Heath Ledger, Richard Gere, Cate Blanchett. Projeção: 2.35:1. 135min.

por Ruy Gardnier

Não Estou Lá é um filme sobre Bob Dylan. Ou melhor: é, não sendo. Porque, primeiramente, qualquer filme de Todd Haynes é uma apropriação de um personagem, de um tema, de um gênero cinematográfico (ou tudo isso ao mesmo tempo), para dar conformidade a uma idéia à qual tudo na estrutura se integra. Karen Carpenter em Superstar é menos Karen Carpenter do que uma idéia sobre pressão familiar e doença daí decorrente; O melodrama americano dos anos 50 em Longe do Paraíso é a maneira de radiografar mudança social e perfilar comportamentos marginais. A Salvo é a história de duas loucuras a partir de dois dogmas, um da normalidade, outro de uma suposta sociedade alternativa ainda mais histérica e controladora do que a norma estabelecida. E assim por diante. Dentro desse espírito, Não Estou Lá só é sobre Bob Dylan à medida que ele participe de uma radical idéia de liberdade, uma liberdade que contenha em si mesma uma necessidade eterna de reinvenção, de instabilidade. “As pessoas estão sempre falando de liberdade. Mas é claro que, quanto mais se acosstuma a viver de uma certa forma, menos isso parece liberdade.”, diz o personagem rockstar baseado no Dylan eletrificado e polêmico do período 65-66, interpretado por Cate Blanchett. E é essa idéia inapoderável de liberdade que está no coração da construção do filme. E é a maneira como Todd Haynes transforma essa idéia em forma expressiva, dramática e plástica, que faz de Não Estou Lá um dos melhores filmes de nosa época.

Há um signo-Dylan pairando o tempo inteiro pelas seis histórias que transcorrem paralelas ao longo da projeção. O filme faz um minucioso trabalho de referência exaustiva a tudo que pudesse ser imitado da carreira de Dylan e do período coberto, a partir de capas de disco, apresentações ao vivo, reportagens, entrevistas coletivas, filmes-chave da época ( de Fellini), jogos de palavra (a tarântula que aparece faz referência ao título do burroughsiano livro lançado por Dylan), etc. Ao mesmo tempo, quando o filme chega a seu momento final e vemos, em alta granulação, a imagem de costas daquele homem tocando gaita, entregue a si mesmo, em seu elemento, nos damos conta que, por mais que o signo se fatore ad infinitum elencando modalidades, reconstruções, facetas, lá está ele, ao final, solto, sem carregar nenhum dos pesos, fazendo as notas da gaita flutuarem como se ele não estivesse envolvido em nada daquilo que vimos anteriormente, como uma entidade lendária ou metafísica que zela apenas pela abertura ao tempo e às reconfigurações que ele pode ocasionar.

Nesse sentido, é claro que a escolha de seis diferentes atores para representar o mesmo/não o mesmo personagem desempenha um papel determinante na construção do filme – e entre esses atores uma criança negra, uma mulher, etc. Mas é também crucial lembrar que mesmo dentro de cada fragmento há uma flutuação de identidades, há sempre uma atribuição problemática ou mentirosa, em todo caso jamais simples, de nomeação. Atribuir nomes, rótulos, é inscrever e circunscrever um signo, é determinar sua área de atuação, e, portanto, prendê-lo. O mesmo pode ser dito das entrevistas, que ocupam uma boa parte do filme: as respostas, evasivas, brincalhonas, corrosivas e hostis também são utilizadas por Haynes como forma de recusar a nomeação, a determinação de um discurso pela obrigação a responder perguntas mal formuladas, ou formuladas de forma a apenas redundar em platitudes (Dylan bergsoniano). A todas as soluções estacionárias, Haynes-Dylan responde restituindo o sentido ao movimento e no movimento, tendo sua verdade apenas como aquilo que está em devir. Como proposta filosófico-existencial, não é nada de novo, mas com a veemência e exuberância que é colocado na tela, assume beleza e dimensão políticas impressionantes. Enquanto todos parecem prontos a estabelecer circuitos identitários como forma de afirmação (à esquerda e à direita), Haynes joga com as compartimentações e pergunta: “Identidade, pra que serve?”.

É claro que esse feroz elogio do fugaz só poderia funcionar através de uma mise en scène sensual, fluida, e tanto no uso das cores quanto no preto-e-branco a imagem convida o olho a passear e se embevecer por ela. Biopics tendem a ser objetivos e sanguessugas, mas Não Estou Lá vai pelo princípio oposto, e parece advogar em cada instância de sua realização uma relação de afetividade lúdica com o espectador, seja pelas referências sarapintadas ao longo da projeção, seja pela manutenção dos mistérios do(s) personagem(ns), que nos obriga a mais seguir o protagonista do que entender a lógica de causalidade que o faz (ou o obriga a) comportar-se de tal ou tal forma. Mas o que garante a excelência e a coerência conceitual do filme é a montagem que, partindo de um princípio de plena circulação (das identidades, das idéias, dos sons), expõe em paralelo suas histórias sem que nenhuma seja a chave de decifração ou evocação da outra, e todas respondam ritmicamente à idéia de velocidade que o título promete: “I'm not there” implica uma certa rapidez existencial de jamais deixar-se instalar na justa distância, na contemplação plácida, e o mínimo a dizer é que a montagem se ocupa em sempre provocar uma excitação sensorial que, associada ao uso da cor e à utilização das músicas na trilha, realiza materialmente toda a verdade do conceito de partida, e de quebra conjuga espetáculo – pois é disso que se trata – com posicionamento diante da vida.

Construir um personagem, um tema como uma figura : fazer dela um centro de abstração para colocar outra coisa em questão, sem no entanto deixar de levar seu protagonista-tema a sério. Cineasta do conceito, Todd Haynes talvez seja hoje o cineasta que melhor consegue alternar entre os regimes sensível e abstrato, fazendo politicamente seu cinema e, por caminhos improváveis, reavivando as preocupações brechtianas de incorporar adesão e pensamento à obra de arte. Não Estou Lá testemunha a maturidade desse procedimento e da arte de seu cineasta.

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Bob Dylan: pura imagem e som 

por Marcelo Miranda  

Mais do que a propalada escolha de seis atores para interpretar o mítico Bob Dylan em fases distintas da sua vida, Não Estou Lá impressiona por, ao mesmo tempo em que varia o protagonista, varia tão ou mais intensamente o seu próprio caminhar. Em pouco mais de duas horas, o longa de Todd Haynes incorpora em si dezenas, ou centenas, de outros tipos de filmes. E mesmo quando termina, existe a sensação de que ele seria passível de durar mais umas três horas. Porque Haynes, em vez de querer mostrar ou apresentar Dylan ao espectador, implode qualquer expectativa e qualquer noção de narratividade e lógica de drama crescente para expor de forma frenética as complexidades do personagem, como se estivesse viajando ao lado dele nas suas diversas personalidades.

Há um misto de documentário, encenação, ficção, jogos de tempo, variação de cores, mudança de tons e ritmos, música, silêncio, delírio, planos longos, planos curtos e uma infinidade de outros artifícios. Não Estou Lá parece enquadrar todo tipo de cinema já feito e, mesmo assim, fazer-se genuíno e particular dentro do universo que retrata. As figuras referentes a Bob Dylan (nunca o nome do músico é pronunciado no filme, aliás) movem-se como num grande transe de imagens e sons, de diálogos e canções, indo e vindo não simplesmente por épocas distintas, mas por verdadeiras realidades diferentes. Os vários atores estão em vários mundos vivendo e testemunhando vários conflitos sobre suas várias facetas. Vários, vários, vários - não por outro motivo, o filme é assumidamente inspirado nas "várias vidas de Bob Dylan", como constam nos letreiros iniciais. "Eu aceito o caos. Só não sei se ele me aceita", diz uma das encarnações do cantor, aparentemente falando do próprio filme, o que soa oportuno dentro daquele emaranhado quase sempre estonteante que nos aparece diante dos olhos.

O caldeirão de referências que assombra a cada corte e a cada novo enquadramento, sempre tirando o tapete do espectador por não compactuar com qualquer noção de previsibilidade, guarda muitas semelhanças com o que faziam gigantes como Jean-Luc Godard e Orson Welles. Do primeiro, Haynes absorve o início de carreira (especialmente trabalhos como Acossado , Uma Mulher é uma Mulher e Viver a Vida ) na implosão de gêneros que, revirados em sua origem, renascem como algo novo – no caso de Não Estou Lá , a grande "vítima" no processo é a famigerada cinebiografia, tão encaretada por filmes recentes como Ray e Johnny e June .

De Welles, o diretor capta a mistura de linguagens, utilizada, assim como em Cidadão Kane e Grilhões do Passado , para esvaziar qualquer sentido simbólico do protagonista e transformá-lo, essencialmente, num personagem de cinema – que, justamente por nos soar tão verdadeiro e espontâneo dentro da tela, reflete fortíssima carga de realismo. Há grande diferença entre um filme que tenta ser realista de outro que busca captar o real. No paroxismo de artificialidades e trapaças infinitas de Não Estou Lá , emana um sentido de verdade profunda apenas possível dentro de uma arte como o cinema, por lidar com as incontáveis possibilidades da imagem de acordo com as vontades do realizador.  

A presença de atores de características tão diferentes como Richard Gere, Heath Ledger, Christian Bale, Marcus Carl Franklin, Ben Whishaw e Cate Blanchett reforça a noção de variações mil tratadas pelo filme. Cada um deles imprime jeito próprio de lidar com o personagem, e a mágica está em o filme nos fazer crer (e ele consegue) que todos estão interpretando a mesma pessoa – por mais que as diferenças sejam gritantes. Blanchett destaca-se por Haynes explorar nela uma androginia até então desconhecida, mas que, no filme, reflete à perfeição aquele momento específico de desilusão e cobrança pelo qual passa sua faceta-Dylan. A atriz deixa de ser a mulher que conhecemos de outros trabalhos para se transformar em outra das instigantes imagens que povoam o filme.

E ainda que pensemos para além do que representam essas imagens em Não Estou Lá , é de Bob Dylan que se está falando o tempo todo. Todd Haynes faz um experimento cinematográfico dos mais complexos e elaborados sem jamais deixar de se referir ao seu anti-herói. Nunca o cinema suplanta a vida no filme de Haynes. A grande vitória do diretor, portanto, é fazer transpor essa vida para dentro do cinema sem render-se a ela. Coisa de mestre, e Todd Haynes só não recebe tal alcunha agora porque ainda deve ter muitas surpresas reservadas a nós na sua ainda incipiente carreira.

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The Old, Weird America, ou Todd Haynes na nossa república invisível do imaginário

Por Filipe Furtado

A música carregava uma aura de familiaridade, de tradições orais, e um profundo sentimento de auto-reconhecimento, de reconhecimento do ser – do cantor? do ouvinte? – que era tanto histórico como sui generis. A música era engraçada e reconfortante, ao mesmo tempo estranha e algo incompleta. Saída de algum desarranjo entre arte e tempo, a música parecia ao mesmo tempo transparente e inexplicável. (...) Ouvidas como algo completo – como uma história, apesar ou por causa da sua coleção de peças faltando, gravações incompletas, cronologias confusas de composições e performances – as basement tapes começam a soar como um mapa; mas se elas são um mapa, que pais, que mina perdida, esta em seu centro? Elas começam a soar como um experimento natural ou um laboratório: um laboratório onde, por alguns meses, certas fundações da linguagem cultural americana foram recuperadas e reinventadas. – Greil Marcus, Invisible Republic

O consenso critico falou: I'm Not There é o melhor filme de Todd Haynes, uma obra-prima, somos todos convocados a escolher nosso Dylan favorito (quase invariavelmente Cate Blanchett). No julgamento rápido do universo crítico contemporâneo, I'm Not There não é um filme, mas objeto para rápida decodificação e mais rápido consumo: Christian Bale é o Freewheelin' Bob Dylan – e também o Dylan cristão, algum fanático completa -; Cate Blanchett é o Dylan elétrico a fumar maconha com os Beatles num pastiche felliniano/godardiano sem fim; Heath Ledger é o Dylan divorciado/despedaçado, do porre anos 70 de Blood on the Tracks , o resto é um tanto esquisito mas se reconhece um jovem proto-Bob Dylan aqui, uma citação a Peckinpah ali. Os jornalistas sacam suas cópias de No Direction Home, de Scorsese, e tratam de se inteirar de todas as releituras da vida de Dylan que Haynes oferece. Nesse grande evento crítico, I'm Not There é o filme que acabou calado, seu percurso completado antes de começar, o que articula nas suas imagens é desarticulado pela desleitura crítica. É impressionante: elogia-se Haynes por criar uma biografia original, e segue-se na frase seguinte a normalizá-la.

Cabe a pergunta: se I'm Not There é um grande filme – e eu acredito que seja – que grande filme seria? Não uma obra-prima perfeita, para começo de conversa. A despeito de toda a sua imaginação, o filme não é imune a uma certa aspereza formal de seu cineasta, especialmente nas seqüências do falso documentário sobre Jack Rollins (Bale), uma grande sacada conceitual, mas que para além de anular seu intérprete mais expressivo junto com seu personagem emoldurado na pretensa não ficção - Bale só nasce para o filme quando Jack reencarna como pastor – é um grande desarranjo engasgado a nos lembrar de uma certa grosseria na forma como Haynes apresenta seus conceitos. Menciono o falso documentário justamente porque é um típico conceito do cineasta e Haynes é sobretudo isso, um cineasta de grandes idéias, e o jogral de avatares-Dylan do filme é o grande conceito de Haynes, aquele momento eureka que cineastas que vivem de idéias adorariam encontrar. Não surpreende que não se precise experienciar I'm Not There para discursar sobre ele, seu conceito é tão atrativo, ao mesmo tempo uma jogada fácil de assimilar e que joga o filme numa estratosfera muito diferente da habitual, que seu estatuto de filme-evento já nasceu assegurado. Mas permanece um impasse: como flutuar por todos este avatares-Dylan que o conceito de Haynes nos oferece? Haynes é por temperamento um dos nossos mais cerebrais cineastas, mas se engana quem ignora a importância de intuição para o trabalho dele, sobretudo neste I'm Not There , que é um filme de vocação exploratória. Muito do que Haynes faz é certamente planejado, mas os choques de idéias que o filme causa nos levam para bem longe da racionalidade excessiva que à primeira vista seu estatuto de filme-conceito/evento sugerem.

Mesmo assim, a resposta mais comum parece mesmo a de pegar o mural de Haynes e transcrevê-lo dentro da obra de Dylan. Logo, não surpreende o refrão “você tem que conhecer Dylan para compreender o filme” que foi usado à exaustão. Mas precisamos mesmo? Sim, é verdade que os iniciados aproveitaram muito mais pequenos detalhes que Haynes usa como pano de fundo, mas o excesso de informação sobre Dylan também detrata da experiência do filme, já que Dylan é ao mesmo tempo o elemento mais importante e o menos de tudo que Haynes está construindo. Pessoalmente, as seqüências que menos me envolvem são justamente as com Jude Quinn (Blanchett), porque nelas Todd Haynes está lidando com o momento mais excessivamente documentado da carreira de Dylan e o excesso de informação que possuo termina sendo um muro diante do que transcorre na tela. Talvez o grande achado destas cenas dentro da paisagem geral do filme seja justamente o de serem o único momento em que ele nos permita uma conexão com “Dylan” sem uma mediação direta, já que mesmo as mais naturalistas seqüências com Robbie Clark (Ledger) tem que lidar com ele ser um Dylan codificado. Mais ainda do que a atuação de Blanchett, é esta imersão direta num Dylan que todos conhecemos que atrai nestas seqüências, cujas imagens surgem por vezes como reconstrução do Don't Look Back de Pennebaker (e por extensão o documentário de Scorsese) ou como pastiche do filme de arte europeu dos anos 60.

I'm Not There é sobretudo um filme sobre a república invisível de nosso imaginário coletivo onde a obra de Dylan se impregnou (o que torna sua recepção crítica previsível, mas tão interessante). Haynes deu sorte de contar com todo catálogo de Bob Dylan a disposição. Como já notado, muito do impacto emocional do filme, para além do seu conceito, brota das canções que lança mão. Menos observado é que Haynes faça uso tão livre de covers de Dylan quanto dos originais, como a nos lembrar que a obra em questão é muito maior que seu autor. Os créditos do filme dizem que ele é baseado “nas vidas e obra de Bob Dylan”, mas é na segunda que o filme encontra sua razão de ser e é ela que trazemos conosco. Dylan o artista é antes de mais nada uma ponte, uma brecha que permite a I'm Not There mergulhar, o filme me parece muito mais preocupado com outras questões: os anos 60 e o nosso olhar sobre eles, as múltiplas articulações entre arte e política, a capacidade da cultura em geral (e a americana em especial) de se articular com, mas sobreviver a, seu tempo, o que estas canções diziam a época e como isto se articula com nosso consumo delas hoje. Não surpreende que num filme de lógica tão centrífuga seus momentos mais inventivos estejam justamente à margem.

Porque I'm Not There vai de fascinante biografia-conceito para genuína obra-prima quando se move do centro da releitura da vida do músico para as margens do mito Dylan representados pelas figuras de Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin), um trovador negro adolescente cortando os EUA, e Billy (Richard Gere), um criminoso do velho oeste americano. Aqui encontramos a obra de risco, de invenção, o filme que segue rumo ao inesperado. Haynes no seu melhor momento intuitivo, bem distante do mestre de semiótica que por vezes domina seu filme, mas lançando mão de todo o arcabouço intelectual que lhe pertence para tatear todo um ideário cultural americano e como ele foi redisponibilizado à Haynes por Dylan em determinado momento dos anos 60. Pouco a ver com o primeiro Dylan a imitar seus mestres ou com a mera homenagem a Peckinpah que os decodificadores mais apressados logo encontraram. Aqui o cineasta abre um dialogo rico de mão dupla com o trabalho que o crítico inglês Greil Marcus desenvolveu a partir da obra de Dylan, em especial no seu livro Invisible Republic que extrapola uma série de considerações sócio-especulativas a partir do conteúdo das gravações que Dylan realizou com The Band, que ficaram conhecidas como The Basement Tapes (e cujo conteúdo é ouvido de forma generosa ao longo do filme, a começar por sua obscura canção título).

Quando Billy faz sua longa cavalgada até a cidade de Riddle ou Woody tem suas aventuras pelo interior dos EUA, Todd Haynes alcança algo que ele vem buscando desde que transformou Karen Carpenter em uma boneca barbie em Superstar : como uma ponte cultural ganha corpo. Ali está toda uma tradição americana, sobretudo oral, que cavalga junto a Billy ou o violão de Woody, e Haynes, ao basicamente se mostrar receptivo à textura desses momentos, à maneira como a luz reflete sobre os atores ou como Richard Gere comanda seu cavalo, retira desses momentos do seu deslocamento histórico e os devolve ao nosso imaginário. A estranha velha América do mito cultural, o músico popular dos anos 60 e o cinema contemporâneo renascem como o mesmo movimento de trem. Toda uma experiência de contemplação cultural ressurge escrita na imagem e de uma cavalgada retiramos uma passagem muito mais ampla e rica do que os decodificadores da grande imprensa sugerem; pois I'm Not There tem de sobra aquilo que falta à maior parte dos seus interlocutores, a disposição de parar, respirar e observar as conexões que simplesmente se formam diante de nosso rico imaginário cultural.

 

 
     
 
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