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O Padre e a Moça
(Brasil, 1965). De Joaquim Pedro de Andrade. Com Paulo José, Helena Ignez. Projeção: 1.66:1. 90min.

Foi Glauber Rocha quem deve ter dado o melhor dos diagnósticos a respeito de
O Padre e a Moça , longa de estréia do carioca Joaquim Pedro de Andrade.
Disse ele: "somente o público poderá julgar O Padre e a Moça munido da
inocência; nenhum crítico ou intelectual, ninguém de uma platéia de elite
poderá julgá-lo se não estiver munido das mesmas informações de Joaquim
Pedro: da 'cultura mineira', do drumonianismo que hoje é um dado, do cinema
como estrutura e linguagem".

Quase impossível desmentir o diretor/crítico. Mais de 40 anos depois de seu
lançamento, O Padre e a Moça ainda nos soa um filme dificilmente
palpável, constantemente foragido de quaisquer pensamentos racionais a seu
respeito e insistentemente fascinante na ânsia em não se fazer entender
enquanto obra crente de sua posição/existência como obra fílmica. As imagens
de Joaquim Pedro parecem flanar por si mesmas, expelir sensações e omitir
explicações, exibir atmosferas e ignorar crescentes dramáticos. Cada plano
de O Padre a Moça carrega uma infinidade de outros planos, porque sempre
nos fazem pensar no que veio antes e no que virá a seguir. É um tipo de
cinema moderno que encanta pela capacidade de siderar sem fazer qualquer
tipo de força, de provocar choques e perturbações pelo simples ato de
mostrar.

Obviamente houve um controle absoluto de Joaquim Pedro em cada fotograma de
filme. É um trabalho que esbraveja a vontade de seu realizador em expor uma
crise, em expor-se como criador e transmitir seus sentimentos perante o
espectador. O próprio diretor explicou na época do lançamento (em texto
reproduzido no encarte do DVD) que O Padre e a Moça era mesmo um filme
de crise. "Fui ficando cada vez mais sensível, ou atraído, por uma espécie
de verdade nuclear na linguagem do cinema, nos assuntos tratados. Não queria
perfumaria, nem falsas verdades, nem efeitos fáceis, nem nada disso. Fui
chutando isso tudo pra córner."

A estética exibida em O Padre a Moça muitas vezes emula o ascetismo de
Robert Bresson, mas há fortes diferenciais entre ambos. Enquanto o francês
usava a secura de suas imagens para tentar chegar a algum tipo de comoção
via sofrimento e castigo divino, Joaquim Pedro não aparenta querer arrancar
nenhuma piedade ou compreensão da situação de seus protagonistas - o padre
recém-chegado a uma pequena cidade de Minas e uma jovem com quem ele se
envolve. Importa muito mais os caminhos compreendidos entre a apresentação
do padre à comunidade e sua posterior fuga ao final, após a hostilização
dessa mesma comunidade que o acolhera. É um filme de trajetória, de tráfego
de corpos. Até por isso o personagem interpretado por Paulo José parece
estar sempre em movimento, ou pelo menos sempre se deslocando a algum ponto
ou buscando resolver (e entender) conflitos.

São nas suas andanças pelas montanhas mineiras que se dará o grande embate
entre homem e natureza. A certa altura a ação de O Padre e a Moça se
deslocará junto com o personagem para áreas desérticas, onde terra e folha
formarão a paisagem que servirá de ilustração para o dilema do padre. No seu
encalço está a moça (Helena Ignez, tilintando de beleza e expressão), que o
tenta como se fosse o demônio no deserto ao lado de Jesus. O amor entre os
dois no chão é a imagem perfeita da conjugação entre carne (os corpos) e
instinto (a terra) e a definição para o padre entre o compromisso com a
Igreja (o racionalismo exposto pela perfeição das montanhas) e a libertação
de seus desejos (a fuga para a gruta cheia de caminhos tortuosos e
perigosos).

Por mais que tentemos encontrar em O Padre e a Moça tantos significados
e tantas evocações, o que mais interessa a Joaquim Pedro é filmar corpos
ansiosos por saírem de seus estados naturais e se comportarem como a
natureza parece lhes exigir. Sem firulas, sem grandes emoções expostas pela
linguagem, sem floreios além do que o preto-e-branco em cena é capaz de
anunciar. Na singeleza como exibe figuras tão tragicamente encaminhadas por
suas escolhas pessoais, Joaquim Pedro de Andrade atinge o grandioso diante
dos nossos olhos.

Marcelo Miranda

 
     
 
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