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2007 e suas caras
Ruy Gardnier nos revela o que de melhor ouviu no ano

2006 teve para mim uma cara e um contorno preciso: foi o ano do suntuoso tour de force de Ys , segundo disco e afirmação suprema do talento de Joanna Newsom, harpista e cantora da costa oeste americana. Associado ao também majestoso segundo disco dos Espers, o ano acenava para uma renovação do folk que já vinha se esboçando em figuras como Devendra Banhart, mas agora começava a caminhar por lugares ainda indesbravados. Por outro lado, 2006 foi também o momento em que o dubstep saiu de seus guetos londrinos e mostrou-se para o mundo como um gênero eletrônico francamente desafiador e inovativo através dos discos de estréia do Kode9 e principalmente do Burial.

Se 2007 tem uma cara, não é a dessa segmentação. O disco mais unânime do ano, Kala , revela uma M.I.A. (ou Maya, cantora nascida no Sri Lanka e criada na Inglaterra) como verdadeira militante por todos os segmentos oprimidos do globo, e traduz isso musicalmente colocando na mesma panela funk carioca, percussão africana, música indiana, hip-hop, e expandindo a cultura do copy-paste do sample musical (“Straight To Hell” do Clash em “Paper Planes” especialmente) para a citação explícita das letras (“Where Is My Mind” dos Pixies em “$20”, “Road Runner” dos Modern Lovers em “Bamboo Banger”), como se a música do passado desse mãos às músicas do presente e todos convergissem finalmente no elogio do levante dos no-money boyz do mundo inteiro contra o poder instituído. Desde os anos da Gang of Four não se via um agit-prop tão veemente e delicioso, mas a grandessíssima sacada de Kala é que o disco faz mais que isso: ele traduz em termos de música esse clamor pela união mundial dos excluídos e libertários em nome de uma alterglobalização. E assim coloca a mistura de gêneros mais uma vez na pauta do dia.

De uma maneira mais intimista e indie, Panda Bear (ou Noah LENNOX, do grupo Animal Collective) também uniu mundos apartados de continentes e tradições diferentes, apropriando-se de procedimentos da música concreta para criar loops delirantes que servem de acompanhamento para canções que, pelas melodias vocais, pelas composições e pelas variações de andamento, bebem diretamente em Beach Boys fase “Heroes and Villains”. Person Pitch , outra quase unanimidade do ano, também criou sua forma de equacionar o abraço ao passado para a construção de um som do futuro, e “Good Girl/Carrots” talvez seja o exemplo mais claro da busca de Panda Bear por sua sonoridade.

Ainda é cedo para saber se 2007 vai entrar para a história como tendo dado algum clássico absoluto. Meus discos preferidos, além de Kala , são Load Blown , do trio noise Black Dice, e o disco epônimo do paulistano Hurtmold (junto com o ep de três músicas lançado por Joanna Newsom agora com banda, a Ys Street Band). Um pouco abaixo, o segundo álbum do Burial, Untrue ; o primeiro disco do sueco Axel Willner, ou The Field, From Here We Go Sublime ; Pilgrimage , terceiro e imponente disco do incrível duo Om; Burning Off Impureties , do grupo americano Grails, entre post rock e folk instrumental; Night Falls Over Kortedala , do cantor e compositor sueco de pop barroco Jens Lekman; Ulual Yyy , absurdo e enigmático terceiro disco da cantora finlandesa Islaja; além do já citado Person Pitch , os dois tremendos discos lançados no ano pelo guitarrista Sir Richard Bishop, ex-membro do Sun City Girls: While My Guitar Violently Bleeds (mais radical) e Polytheistic Fragments (mais enternecedor).

Dentre os mais badalados, alguns belos discos, ainda que falhos ou redundantes por momentos: Volta de Björk, tentando reanimar seu público com uma guinada mais pop, mas ainda assim soando personalíssima e vanguardista; e In Rainbows do Radiohead, volta a um terreno que o grupo controla definitivamente, e se o mergulho ousado no desconhecido de Hail To the Thief acaba fazendo falta, sem dúvida o disco guarda belas e complexas pérolas entre suas canções. E ainda tem o caso The Tuss, que todos dizem ser Richard D. James (mais conhecido como AFX ou Aphex Twin), mas a identidade permanece misteriosa (ainda que os ouvidos reconheçam facilmente). Em todo caso, o disco Rushup Edge é excelente.

Dentro dos gêneros, nada muito brusco. Algumas vezes, terreno morno, como no hip-hop, em que, apesar de sólidos discos no front alternativo (El-P, Aesop Rock) e no mainstream (Jay-Z, Kanye West), passando pela mixtape (Lil Wayne), todos fizeram exatamente o que se esperava deles. Exceção: Timbaland, que entregou algumas pérolas e muita porcaria num disco que pretendia englobar todos os gêneros e acabou provando a tese oposta. Em todo caso, um ano que dá faixas matadoras como “None Shall Pass” do Aesop Rock, “Give It To Me” de Timbaland com Nelly Furtado & Justin Timberlake e “Roc Boys” de Jay-Z está longe de merecer o desprezo.

No front do rock instrumental, a novidade do ano foi o Battles, capitaneado pelo ex-baterista do Helmet, John Steiner, e por Ian Williams, ex-Don Caballero. O primeiro disco da banda, Mirrored , alcança altos momentos em faixas como “Atlas” ou “Tonto”, enérgicas e poderosas o suficiente para lembrar King Crimson por volta de 1973. Mas, pessoalmente, nesse terreno, o ano foi do Hurtmold, que fez seu disco mais focado e preciso, alternando com desenvoltura melodias simples e belas com momentos de ruído e indeterminação jazzística, como na matadora “Olvécio e Bica”.

No terreno do pop/rock convencional, confesso que nada me impressionou, definitivamente. “Umbrella” poderia ser alguma coisa não fosse o terrível rap de Jay-Z – pequena miss sunshine NÃO!!! – no começo e o gritinho vulgar no final do bridge. Ah, claro, e o número de repetições do refrão. Já defendi Rihanna em “Pon de Replay” e “S.O.S.”, mas a música do ano – ao menos em quantidade de execução mundial – para mim não vai além de mediana. Ofereço em troca “Overpowered”, single do disco homônimo de Róisín Murphy, que trabalha repetitivamente com um delicioso sintetizador acid que parece saído dos Analords de Aphex Twin e o usa como combustível pop para acompanhar uma letra docemente boboca sobre paixão explicada em termos científicos. Fora o Radiohead, no rock alternativo o único grupo que impressionou foi o Liars, que mais uma vez se reinventa, dentro do mesmo padrão percussivo e carregado do som da banda. Pra mim, “Plaster Casts of Everything” é o hino-rock do ano.

Na eletrônica, novamente o burburinho foi para o dubstep. Vários singles de destaque, algumas ligeiras decepções na passagem ao álbum, e algumas faixas irretocáveis. Novos nomes, Peverelist, Cotti, duas belas coletâneas, Box of Dub 1 e 2, o set de Kode9 no Sónar (que funciona como uma compilação das melhores faixas do ano, quase), e a beleza que são o single de “Skeng”, de The Bug, e os discos Untrue do Burial e Soundboy Punishments dos artistas da gravadora Skull Disco, Appleblim e Shackleton. Já no eixo dos 4/4 do techno, Ricardo Villallobos fez um disco de inéditas travestido de disco-coletânea para o selo da Fabric e ainda lançou meia dúzia de remixes finíssimos, entre os quais o remix de “Blood On My Hands”, de Shackleton, se destaca. Mas o que mais chamou a atenção foi o disco From Here We Go Sublime , do sueco The Field, além de alguns remixes lindos feitos ao longo do ano, “Fall From a Height” dos Honeydrips e “Tonto” do Battles. A fórmula é simples, repetitiva, mas certeira e incrivelmente elegante, criteriosa e por vezes incrivelmente original, como em “Over the Ice”.

No folk, o ep Joanna Newsom & the Ys Street Band , apesar da pouca extensão e por só conter uma inédita (as duas outras são novos arranjos para músicas de discos anteriores), leva o destaque absoluto. Marissa Ladler figura em segundo lugar, com seu Songs III e a coletânea de outtakes Ivy and the Clovers , que contém a mágica – e sabe-se lá por quê rejeitada – “Conjuring Spirit Worlds”. Vale notar que é Greg Weeks, dos Espers, que produz a faixa, assim como o disco de carreira da cantora. Weeks também é responsável pelo belo Valerie Project, grupo de músicos que toca e reinterpreta a trilha sonora de um pouco conhecido filme do cinema novo tcheco dos anos 60/70, Valerie and Her Week of Wonders, de Jaromil Jires. Novidade no folk esse ano? Alela Diane. Devendra Banhart? Disco com altos e baixos, alguns momentos empolgantes, entre eles “Rosa”, dueto com o brasileiro Rodrigo Amarante. De música africana, o genial Konono no. 1 lançou um disco ao vivo, Live at Couleur Café , mas as graças de 2007 vão para Tinariwen e seu disco Aman Iman , e especialmente para a faixa “Matadjem Yinmixan”.

Sumariamente, foram algumas das principais emoções pessoais vividas ao longo de 2007, e o fato de que vários desses se apresentaram recentemente no Brasil no ano passado (Kode9, The Field, Battles, Joanna Newsom, Björk) ou há pouco tempo (Jens Lekman, Black Dice, M.I.A., Konono no. 1), além de alguns que se apresentaram esse ano mesmo sem disco novo (caso de Anthony, com belíssimo show no Tim Festival), revela um excelente tino da parte de produtores para trazer alguns artistas que, mesmo pouco conhecidos, são aqueles que produzem a música mais interessante de uma época. Mesmo porque os novos nomes conviveram muito bem com grandes shows de veteranos: Devo, Lee Scratch Perry, Motörhead. Que em 2008 venham os que sobraram, e muito mais…

 

 
     
 
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