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DVD - Entreatos/Peões
 

 

Entreatos

(Brasil, 2004), De João Moreira Salles. Videofilmes. Formato de Tela: Fullscreen. 117min.


Peões

(Brasil, 2004), De Eduardo Coutinho. Videofilmes. Formato de Tela: Fullscreen. 86min.

 

Para começo de conversa, convém separar Peões de Eduardo Coutinho e Entreatos de João Moreira Salles do grosso da produção de cinema-documentário no Brasil: hoje, “documentário brasileiro” é um sub-gênero que se legitima pelo seu caráter de “serviço”. É barato e com uma clara contraproposta social que é a de informar, educar e apoiar causas nobres, como se assim, justificasse o gasto de dinheiro público. Peões e Entreatos não podem ser enquadrados na mesma lógica, sobretudo porque são realmente projetos de cinema, de rigor formal e com propostas estéticas muito bem urdidas. Hoje em dia, é raro ver, não só documentários, mas filmes brasileiros que buscam se relacionar de modo tão direto com a história quanto Peões e Entreatos, e, sobretudo, defender posturas estéticas tão fortes. Ambos têm um vínculo estreito com o episódio “Luis Inácio Lula da Silva” na nossa história recente.

A câmera de João Moreira Salles entra no olho do furacão e acompanha o então candidato do PT à Presidência da República. Candidato que vinha de três candidaturas derrotadas e no caso, em 2002, tinha larga vantagem contra o adversário José Serra. O objetivo do diretor é buscar o personagem Lula entre os atos oficiais da candidatura de 2002, daí o nome Entreatos, que,
se parece um princípio ilusório de atingir a verdade do personagem ao buscar uma dimensão mais íntima (no barbeiro, nos bastidores dos debates, na casa do candidato em São Bernardo
do Campo, nas conversas com os companheiros de partido), consegue tirar dessa mesma opção de registro sua força e seu grande trunfo, porque a performance de Lula não tenta ocultar
que tudo ali é feito para a câmera do diretor. Lula se transformou num grande personagem de cinema, autoconsciente de sua imagem e co-criador do próprio mito. Não importa a João Moreira Salles se a figura do presidente é uma imagem que simboliza valores positivos e autênticos ou se tudo não passa de mais um episódio de mero populismo latino-americano. Seu objetivo é o exame dessa imagem, que antes nos era conhecida quase que exclusivamente por intermédio de
imagens de arquivo do sindicalista, do marketing político das campanhas e das entrevistas concedidas à TV.

Se Entreatos é um exame das imagens, Peões é uma investigação. Peões tem uma operação estética muito mais sofisticada, o que resulta num dos melhores trabalhos de Eduardo Coutinho. A procura é pelas figuras anônimas que participaram das greves e testemunharam de perto a ascensão de Lula como líder da classe trabalhadora. Durante a busca de alguns personagens, o cineasta recorre à imagens do passado: fotos das greves, assim como documentários realizados na época das greves do sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo, entre 1978 e 1980. Nos depoimentos,
nos gestos, na rememoração por meio das conversas, dos videos e das fotografias, se estabelece uma tensão entre as imagens do passado e do presente. Lula é uma eminência parda, menos como personagemsímbolo e mais como uma referência na qual convergem as histórias dos entrevistados como trabalhadores relativamente anônimos que participaram ativamente daquele momento. Relativamente porque, no início de Peões, em uma reunião com os ex-companheiros de Lula, a equipe de Coutinho coloca videos das greves para que estes identifiquem conhecidos e lhe dêem nomes. Como Coutinho sempre se interessou mais por indivíduos do que pela idéia de “povo”, “massa” ou “classe”, ele recorre a imagens da história oficial para tirar delas histórias particulares. O cineasta sabe que uma imagem não é somente o que se vê dela, mas que inevitavelmente ela se multiplica para muitas outras. O que interessa, absolutamente, são os detalhes. Guardadas as devidas diferenças, essa investigação não é lá muito diferente do que a que Dario Argento realiza
em Prelúdio para Matar e que Brian DePalma faz em Olhos de Serpente. Todos eles fazem uma cartografia das imagens.

Tanto Peões quanto Entreatos não são filmes de homenagem ou revisão, não pretendem só registrar ou interferir na história, a proposta é antes de tudo entender o mundo que há por meio das brechas da história oficial.

Francis Vogner dos Reis

 
     
 
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