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(Noite de Estréia)

Cinco vezes Cassavetes

Quando começou a filmar Sombras (Shadows, de 1959), John Cassavetes era um jovem ator de carreira ascendente. A escolha por abandonar o certo para dirigir um filme experimental de orçamento mínimo, com atores amadores, câmera 16 milímetros e rodado em locação nas ruas de Nova Iorque foi, portanto, uma dupla ousadia.

O resultado é um abalo sísmico no sistema de estúdios, que inaugura um novo capítulo no cinema americano. Se antes havia os iconoclastas (cineastas que batiam de frente com os produtores em favor de sua visão), os contrabandistas (os que burlavam as regras de maneira sub-reptícia) e os filmes B em que quase tudo valia, a partir de Cassavetes e Sombras haveria também o cinema independente.

Para gerações de espectadores, Cassavetes é, portanto, o mito fundador do cinema independente, cineasta do qual muito ouviu-se falar mas pouquíssimo havia-se para ver. Seus filmes, infelizmente, são quase todos inéditos no Brasil. A pequena mostra que o Cinesesc abriga de 9 a 15 de fevereiro é, portanto, ocasião rara e imperdível de se descobrir a obra de um dos diretores fundamentais do cinema americano dentro ou fora dos estúdios.

Começando por Sombras, serão exibidas cinco obras-primas realizadas sob a notável estirpe de Cassavetes, cineasta moderno por excelência: realismo, invenção, observação social, catarse e a liberdade de filmar reunidos na melhor onda dos cinemas novos dos anos 60. Estão programados ainda Faces (68), Uma Mulher sob Influência (74), A Morte de um Bookmaker Chinês (versão de 78) e Noite de Estréia (77).


(Faces)

Se hoje o termo independente está um tanto desgastado (mesmos as grandes corporações possuem produtoras menores), a quase 50 anos, no entanto, era o símbolo de uma estética nova, uma verdadeira abertura à modernidade. Em 59, Sombras era, de fato, um dado novo incontornável. Visto hoje, o filme continua enorme, mas talvez pareça um rascunho para vôos mais altos, estratosféricos, que Cassavetes estava por realizar.

Em todo caso, o cotidiano dos três jovens irmãos negros e seus amigos tem diversos momentos e qualidades notáveis: a beleza das andanças pelas ruas e bares, a cena da ida ao museu. Sem falar na leveza das imagens, os closes, os gestos, a textura das coisas. Convém não esquecer, também, a magnífica trilha sonora executada de improviso por Charles Mingus e o saxofonista Shafi Hadi.

Mas se Sombras é um ponto-de-partida avançado, ao mesmo tempo é fonte de alguns mal-entendidos sobre o cinema de Cassavetes: o de um improviso total dos atores sendo talvez o maior de todos. O equívoco foi reforçado pelos créditos finais, que descreviam o filme como “uma improvisação dos atores”. No caso, imprimiu-se a lenda.

De fato, a Cassavetes interessa sobretudo apreender a parte humana que escapa ao cálculo. Seu cinema parece um tatear constantemente em busca do filme a ser realizado. Mas seus filmes são, ao mesmo tempo, intensivamente ensaiados, preparados.

Faces, por exemplo, consumiu seis meses entre ensaios e filmagens, com 125 horas de material filmado para 130 minutos de filme. Repetição e experimentação são, portanto, dois dados cruciais do sistema Cassavetes de fazer um cinema na corda bamba, fundado sobre o risco de captar o instante presente para não perder a potência natural das coisas.

Como diria o crítico Thierry Jousse, em seu belo livro sobre o diretor: “Nada é deixado ao acaso e, no entanto, tudo parece nascer da febre da filmagem”. A questão está, desta maneira, em jamais impor sua vontade para provocar uma realidade.

O cinema de Cassavetes é, portanto, fundado sobre a força do indeterminado, da instabilidade da narrativa, da impossibilidade de fixar demasiado as coisas: o assassinato em A Morte de um Bookmaker Chinês é exemplar neste sentido. Há um roteiro do crime muito bem fixado, mas a cada instante (por motivos diversos) a cena se desestabiliza, toma um rumo diferente. De modo que as coisas se reorganizam mais a frente com variantes inesperadas.

Da mesma maneira, Cassavetes nunca escreve o desfecho do roteiro: a eventualidade, o acidente, são elementos fundamentais de criação. A expressão godardiana “un film en train de se faire” (algo como um filme que está por se fazer) talvez nunca tenha encontrado um exemplo tão vivo quanto aqui. Não é uma oposição entre roteiro e filmagem, mas a constatação de que o primeiro só se realizará efetivamente, com toda sua energia, no segundo momento.

Para isto, era fundamental a confiança em sua equipe, a autonomia do grupo de atores fiéis (sua esposa e musa Gena Rowlands, Ben Gazzara, Seymour Cassel) com quem trabalhava. É com eles que o diretor fará emergir a riqueza de detalhes, o excesso de beleza e generosidade em seus filmes.

É uma relação instável esta, sem dúvida. Mas ao mesmo tempo é um dado central para compreender seus filmes. Não por acaso este é o tema de um de seus maiores filmes, Noite de Estréia . Aqui vemos toda a diferença entre Cassavetes e o método do Actor's Studio: não se trata de abusar da psicologia, mas antes de suscitar desejos, afetos. Em outras palavras: o trabalho do ator tido como expressão de fluxos de amor (não por acaso, nome de outro de seus grandes filmes, infelizmente fora da mostra).

E o amor, para Cassavetes, deve (só pode) ser filmada de maneira apaixonada: pelas pessoas, pelo cinema, pelo trabalho. Apaixonada quer dizer, com freqüência, fora das regras. Certa dose de insanidade é, portanto, mais do que desejável, é necessária. A Mabel de Uma Mulher sob Influência (que entra em cartaz no próprio Cinesesc logo após a mostra) é a expressão máxima deste amor louco, selvagem: ela ama demais, a ponto de não ser compreendida. É preciso amar também o cinema de Cassavetes.

Juliano Tosi

 

 
     
 
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