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Dia 01/04:

Cinema:

300, de Zack Snyder
Atirador, de Antoine Fuqua
A Leste de Bucareste, de Corneliu Porumboiu

Dia 16/03:

Cinema:

Letra e Música, de Marc Lawrence
Ponte para Terabítia, de Gabor Csupo
Sonhos com Xangai, de Wang Xiaoshuai

DVD:

Idlewild - Malandros Acima da Lei, de Bryan Barber
Museu de Cera, de André De Toth

Dia 01/03:

Cinema

Dreamgirls, de Bill Condon + outros filmes de Condon
Venus, Roger Michell
Turistas, de John Stockwell

DVD

Piratas do Caribe: O Baú da Morte, de Gore Verbinski

Dia 15/02:

Cinema

Déjà Vu, de Tony Scott
Uma Noite no Museu, de Shawn Levy
O Último Rei da Escócia, de Kevin MacDonald

DVD

Brasília 18%, de Nelson Pereira dos Santos

 

 

 
Déjà Vu

(EUA, 2006), De Tony Scott. Com Denzel Washington, Val Kilmer, James Caviezel. Buena Vista. Projeção: 2.35:1. 128min.


Partindo de uma premissa um tanto estrambólica, que nos mostra um aparato tecnológico estilo Google Earth, de posse do governo americano, que permite acompanhar o cotidiano de qualquer pessoa com câmeras que atravessam paredes, Déjà Vu nos mostra o jogo de gato e rato por duas dimensões de tempo, no que pode muito bem ser o melhor filme de Tony Scott até aqui. Temos um atentado terrorista em Nova Orleans, um detetive local e um vilão metido a guru. Temos também um intervalo de quatro dias entre uma dimensão temporal e outra, e a canção “Don't Worry Baby”, dos Beach Boys, amarrando as pontas de maneira interessante, ainda que forçada - afinal, teríamos que acreditar que a canção de 1964 toca a todo momento nas rádios americanas, mas isso é uma outra história. O que torna o filme notável é justamente sua capacidade de tornar crível o portal que se abre no tempo, e suas conseqüências para os personagens. Não temos aqui a montagem ultra acelerada de Domino , que nem era um filme desprezível como muitos falaram. Déjà Vu se aproxima muito mais de uma montagem classica do que qualquer outro filme recente de Scott. E com essa aparência mais dentro dos conformes, Scott pode comer pelas beiradas, e realizar uma pertinente reflexão sobre a falta de privacidade do mundo moderno, mesmo que o filme esteja todo envolto num aspecto comercial de thriller. Ainda assim, se quisermos ignorar as possibilidades reflexivas, o que Scott nos dá é diversão de primeira linha.

Sérgio Alpendre

 

 
 
Uma Noite no Museu

NIGHT AT THE MUSEUM.
(EUA, 2006), De Shawn Levy. Com Ben Stiller, Robin Williams, Owen Wilson e Carla Gugino. Fox. Projeção: 1.85:1. 108min.


Teddy Roosevelt ganha vida às noites, assim como tudo que existe dentro do Museu de História Natural, graças a uma placa de um faraó, cobiçada por velhinhos tornados joviais por influência dela. Mas Teddy (aliás, Robin Williams) se torna conselheiro vocacional do novo guarda noturno (aliás, Ben Stiller) ao se deparar com os efeitos da tal placa. Acontece que esse novo guarda tem um filho de sua ex-mulher, e esse filho sempre se depara com a absoluta falta de jogo de cintura de seu pai. Veremos, então, a velha e batida história da superação e do reforço de valores, com a galera rediviva do museu se tornando grupo de apoio para que o guarda supere os obstáculos de seu trabalho e se firme como um herói aos olhos de seu filho, enquanto todo o museu passa a celebrar as noites de vivência, geralmente ao som de um bom hit dançante.

O que faz a graça de Uma Noite no Museu é seu trabalho num registro puramente infantil, sem que isso fique evidente. Shawn Levy consegue, apesar de suas limitações, fazer com que o filme escape da armadilha de se tornar uma simples brincadeira de criança, escrava das fórmulas do entretenimento mais piegas que Hollywood tanto gosta. De fato, os elementos que dão contorno à fórmula estão todos lá: música triunfalista (cortesia do ramelento Alan Silvestre), construção de personagens cheia de chavões psicanalíticos, antagonistas que se tornam parceiros, até mesmo um novo marido almofadinha para a ex-mulher existe no filme. Mas com tanta coisa lutando contra, é de se admirar a capacidade de Levy em fazer do filme uma agradável matinê.

Sérgio Alpendre

 
 

O Último Rei da Escócia

THE LAST KING OF SCOTLAND.
(Inglaterra, 2006), De Kevin MacDonald. Com Forest Whitaker, James McAvoy, Gillian Anderson. Fox. Projeção: 2.35:1. 121min.


Com uma introdução muito simples e afobada, acompanhamos o jovem que se forma em medicina, a indisposição com o pai, e um desejo de se aventurar. Ele sorteia um lugar para ir, e o sorteado é Uganda. Lá conhece o ditador Idi Amin, que o contrata como médico particular. O doutor escocês cai nas graças do ditador, mas começa a se questionar até que ponto sua simples ajuda não seria também uma conivência com os hábitos sanguinários do regime. Até esse questionamento, o que acompanhamos é uma confirmação do que Idi Amin fala a ele minutos depois: ele só estava ali atrás de transas exóticas e aventura, pouco importando o Ugandês sofredor, ou as implicações políticas de um regime ditatorial. Nada errado se o filme apenas se centrasse em sua vontade de se aventuirar num primeiro momento, e em se defender depois. Mas a carga que um ator como Forest Whitaker dá ao papel de Idi Amin, acaba pedindo mais inteligência no diálogo entre os dois, e na disposição do médico em “fazer a cabeça” do ditador. Mas aí esbarramos em outro problema: tudo foi baseado numa história verídica, e aí não temos muito como fugir da ingenuidade e da falta de malemolência do personagem. Resta acompanhar uma direção neo-acadêmica, como manda os preceitos do Dogma, e uma trilha afro-rock que não deixa de ser interessante, mas que não alivia a barra que é assistir ao filme.

Sérgio Alpendre

 
 
 
Brasília 18%

(Brasil, 2006), De Nelson Pereira dos Santos. Com Carlos Alberto Riccelli, Malu Mader, Karine Carvalho, Othon Bastos e Carlos Vereza. Columbia. Projeção: 1.85:1. 104min.


O massacre exercido sobre Brasilia 18% a época do lançamento do filme em nossos cinemas permanece incompreensível. Não por se tratar de “um filme de Nelson Pereira dos Santos”, - até porque Nelson já errou a mão uma ou duas vezes no passado -, mas porque dentro do universo “fictício mas nem tanto” que costura, o cineasta extrai um clima bastante eficaz sobre os bastidores do poder na nossa capital federal.

Talvez a má recepção seja justamente por Nelson ter feito um filme anti-realista sobre o assunto. Estão lá vários elementos reconheciveis, mas eles terminam embaralhados pelo tom de cinema fantastico imposto pelo cineasta. É um filme antes de mais nada sobre um grande mal estar, uma paisagem familiar e ao mesmo tempo irreconhecível, e não deixa de ser um grande achado de Brasilia 18% que o estranhamento experimentado pelo personagem de Carlos Alberto Riccelli seja extendido também ao espectador (algo reforçado pela idéia de dar nomes de figuras literárias aos personagens do filme).

O grande achado de Nelson Pereira dos Santos aqui é justamente promover um choque entre um pesadelo alucinatório e os rostos e gestos das figuras de poder. O jornal das oito desemboca num filme de terror à David Lynch. E é neste sentido que o cineasta faz excelente uso do seu palco, seja do clima local (a idéia da secura da região como metáfora para sua corrupção generalizada é ótima), seja no uso da paisagem para reforçar este clima de pesadelo. Trata-se de um dos trabalhos mais bem elaborados esteticamente do cineasta, e um dos mais incisivos também.

Filipe Furtado

 
 
 

Dreamgirls

DREAMGIRLS. (EUA, 2006), De Bill Condon. Com Jamie Foxx, Beyoncé Knowles, Eddie Murphy, Danny Glover, Jennifer Hudson. Paramount. Projeção: 2.35:1. 131min


Há algo de errado com Dreamgirls. É um filme claramente desconjuntado, apressado demais, que não explora suas possibilidades políticas nem a chance de realizar um tratado sobre a música negra em sua época de ouro e os desdobramentos que ela teve dos anos 70 para cá. Um filme que deixa o inevitável sabor de incompletude, de insuficiência de abordagem e dramaturgia. A montagem de Virginia Katz, que montou os filmes anteriores de Condon e o recente O Mestre das Armas, de Ronny Yu, não ajuda muito, com sua afobação scorseseana, que pouco se detém num dos trunfos do filme: Jennifer Hudson. Também a música, supostamente composta para homenagear a época das girl groups, e, disfarçadamente, as Supremes de Diana Ross, se mostra extremamente frágil, com os momentos dignos ficando muito aquém do que a Motown produzia na época.

Mas, por mais que esses problemas se imponham de forma irreversível, é difícil descartar um filme que tenha Eddie Murphy e Beyoncé Knowles em estado de graça, além da já citada Jennifer Hudson, que é, sim, um fenômeno de atuação e cantoria. As atuações desse trio surpreendem, menos por suas capacidades musicais do que pela possibilidade de encerrar em suas personas toda uma gama de eventos que mesmo a correria dos planos não consegue abalar.

Se Bill Condon parece perdido diante do material que tem em mãos, esses atores dão um sabor único ao que poderia ser um grande filme. Beyoncé parece esquecer que é uma atual diva da música pop e se arrisca a encher de emoção sua interpretação. Eddie Murphy faz muito bem o papel do problemático e irreverente cantor que insiste que todas as suas idéias foram imitadas depois, sem o devido crédito a ele. Trata-se de um personagem tragicômico, que encanta na mesma medida em que se esvai diante de nossos olhos. Sua última apresentação, coroada com o fim de um relacionamento extra-conjugal com uma das Dreams, é um momento filmado com elegância, em que a montagem não atrapalha as possibilidades dramáticas. E, por fim, a majestosa Jennifer Hudson, atrevida e complexada em doses equivalentes, que assiste de uma posição incômoda, a ascenção da banda que ela havia ajudado a alavancar com seu vozeirão. É justamente na hora em que ela é jogada para escanteio que o filme ameaça entrar na interessante discussão sobre o que seria palatável na música feita por negros para as platéias brancas.

Porque Dreamgirls é também o retrato de um império construído com o sujar de mãos. Não se penetra num mercado branquelo e fechado sem que algumas almas sejam compradas, parece dizer o filme. Jamie Foxx, um tanto sem jeito no papel, contribui, porém, com a ambiguidade que cerca seu personagem. Sua atuação é um misto de segurança e inconformismo capitalista, que contribui para o jeitão esquizofrênico de um filme torto, mas que não deve ser desprezado.

Sérgio Alpendre

Outros filmes de Bill Condon

Sister Sister (1987)

Ótima emulação de algumas preocupações estéticas de Brian De Palma, em um filme muito mais maneirista do que tudo que Condon realizou depois. Um delicioso peixe fora d'água em sua filmografia

Assassinatos por Escrito (Murder 101, 1991)

Belo filme feito para a TV a cabo, que mostra Pierce Brosnan numa envolvente história de assassinato e transferência de culpa. O clima conseguido pelo diretor é angustiante.

Deuses e Monstros (Gods and Monsters, 1998)

James Whale, grande diretor que teve o auge nos anos 30, tem, na pele de Ian McKellen, uma tocante interpretação de seus últimos dias de vida.

Kinsey (2004)

Talvez seja o filme que melhor ilustre a capacidade de Condon na direção de atores, com Liam Neeson e Laura Linney em atuações perfeitas, em uma trama que quase se implode pelo excesso de reverência, e pelo medo de ir fundo nas apostas polêmicas do pesquisador/sexólogo.

(S. A.)

 
 
 

Venus

(Inglaterra, 2006). De Roger Michell. Com Peter O'Toole, Jodie Whitaker, Leslie Phillips, Richard Griffiths, Vanessa Redgrave. 95 min. Projeção: 1.85:1. Europa.


Os filmes de Roger Michell hoje representam quase sozinhos uma espécie tradicional do cinema inglês: agradável, respeitável, bem atuado, em suma, um cinema de tradição de qualidade para salas "de arte”, em que o cinema inglês, desde os tempos das parcerias Noel Coward/David Lean, se especializou. O que diferencia Michell de outros cineastas que seguem esta linha é a maneira eficaz com que ele se estabelece neste registro. Não há em seus filmes a má consciência devido a ocasional falta de personalidade que, por vezes, encontramos nos filmes de um Stephen Frears ou Neil Jordan. Há em seus filmes, antes de mais nada, um desejo de se instalar e potencializar a ficção. O maior elogio que se pode fazer a Michell – e Venus é exemplar nisso – é que por mais frágil que seu material ocasionalmente seja, o resultado final é sempre melhor do que uma descrição do filme possa sugerir.

Venus é todo construido a partir da figura de Peter O'Toole, bastante consciente da sua posição de provável último veículo de uma lenda do cinema local. Michell faz uso de todas os recursos inevitáveis para destacar que não estamos diante de uma figura qualquer (o maravilhamento do filme perante O'Toole corresponde a metade da atuação dele). Em seus momentos mais fracos, Venus parece um tanto engessado entre este tributo e o esquematismo do roteiro de Hanif Kureishi. O'Toole interpreta um veterano ator não muito diferente dele mesmo que no fim da vida se vê reduzido a interpretar “cadáveres” (o que é ironico, considerando que poucos filmes do fim de carreira de O'Toole ressaltam isto tanto como Venus, onde por vezes, o filme ameaça cair numa vampirização da fragilidade do ator), que no fim da vida se apaixona pela jovem sobrinha de um amigo. O andamento imposto por Michell e Kureishi ao material seria algo habilidoso se um tanto pesado e óbvio, não fosse o achado de transformar Venus num filme sobre a carne, de desdobrar a fascinação dramatúrgica do velho sobre a jovem, na fascinação do filme sobre o corpo frágil de O'Toole. A função desta relação camera/corpo redimensiona o que poderia ser só mais do mesmo sobre o desejo e as dificuldades da terceira idade. Em uma operação simples, o toque de Michell se reafirma e Venus encontra seu espaço.

Filipe Furtado

 
 
 

Turistas

(EUA, 2006). De John Stockwell. Com Josh Duhamel, Melissa George, Olivia Wilde, Desmond Askew, Beau Garret, Max Brown, Agles Steib, Miguel Lunardi. Projeção: 2.35:1. 95min.


É inevitável passar pela polêmica gerada em solo brasileiro em torno deste filme, não mais que um exercício comum de gênero. O que há de realmente preconceituoso em Turistas? No filme, um bando de turistas de vários lugares do mundo, ao serem atraídos por uma praia deserta que parece ser um paraíso, são pegos num golpe de um médico-vilão que lhes amputa os orgãos. E aí está a questão: é tudo um problema de um vilão - quem estende esse pequeno e velho conto da pequena comunidade liderada por um vilão louco (apesar do discurso político) para proporções de Brasil como um todo somos nós, os olhos. O próprio filme atenta positivamente no fim, com os personagens sendo salvos em duas ocasiões por brasileiros. Não que faltem defeitos ao filme, amontoado de cenas desnecessárias que em diversos momentos parece não ter o menor interesse por aquilo que está mostrando. Stockwell, artesão com forte interesse nas cenas aquáticas (vide todos os seus últimos filmes), não tem muita intimidade com o gênero, embora tente emular algumas imagens que se aproximem do imaginário dos filmes de terror (como os filmes de canibais e os terrores rurais). Mas isto não altera sua falta de tato, tempo e senso - talento para isso ele nunca teve, e adentrando o terreno do sombrio, ele realiza um filme muito mais próximo da ação que do horror. Sobram ainda deformações visuais, filtros, ondulações na imagem... O que o salva da total mediocridade é uma relação interessante com os personagens, que passa longe de um desprezo ou um apreço desmedido; são apenas acompanhados em seu percurso, rumo ao meio do mato. Pena que o caminho que eles percorram não seja dos mais interessantes.

Guilherme Martins

 
 
 

Piratas do Caribe - O Baú da Morte

PIRATES OF THE CARIBBEAN: DEAD MAN'S CHEST. (EUA, 2006). De Gore Verbinski. Com Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Jonathan Price, Bill Nighy. Disney. Formato de tela: 2.35:1. 150 min.


Como várias outras continuações, O Baú da Morte pega a franquia Piratas do Caribe e trabalha-a no sentido de amplificar seus elementos. Assim, fantasia, humor, ação e efeitos especiais são todos utilizados em dobro neste segundo episódio da série. O resultado é um filme todo over, que cansa pelo excesso. Nem Johnny Depp evita o enfado, o filme parece existir apenas para provocar a adrenalina da molecada, indo até o limite aceitável pela Disney no quesito violência. A cena mais forte, de um olho sendo arrancado, acontece logo no começo, mas logo descobrimos ser um olho de vidro. O Baú da Morte é todo assim: uma sucessão de climaxes em potencial que se revelam meras bombinhas na sucessão de imagens. Há uma recompensa para se ver o filme até o final. Depois de mais de duas horas de duração, o desejo entre a personagem de Keira e o de Depp sai do subtexto e invade o primeiro plano, numa cena realmente notável, que vem depois de tanta abobrinha espalhafatosa. Notável principalmente pelo desempenho dessa atriz em ascenção, Keira Knightley, que já havia brilhado em Orgulho e Preconceito. Logo depois, obrigado a enfrentar o polvo gigante chamado Kraken, Depp empunha sua espada como o Sigfried dos Nibelungos, em um momento épico e muito bem decupado. Por essas duas cenas, é de se lamentar que o filme não tenha conseguido alçar vôos semelhantes durante todos os longos minutos anteriores.

Sérgio Alpendre

 
 
 

Sonhos com Xangai

QING HONG . (China, 2005), De Wang Xiaoshuai. Com Yuanyuan Gao, Bin Li, Yan Tang. Imagem. Projeção: 1.85:1. 123min


Há cerca de quatro anos, assisti a um filme medíocre chamado Bicicletas de Pequim, um dramalhão piegas e dirigido sem o menor senso do ridículo, o que em alguns casos é até bom, mas que fazia o filme soar como uma britadeira num velório de tão desencontrado no tom. Como perdi o filme do meio, Drifters, exibido na Mostra SP de 2004, fico imaginando que caminho percorreu o diretor Wang para chegar a este coeso e maduro Sonhos com Xangai. A impressão é que o diretor se cercou do melhor cinema oriental que pôde ver nos últimos anos, em especial o de Jia Zhang-ke – já que o filme se assemelha a um genérico de Plataforma – e se dedicou a moldar esse drama familiar, como tem sido tão alardeado, com planos elegantes e um belo tratamento sonoro, com música acontecendo muito em segundo plano, como reflexo da doutrina radiofônica de Mao, e barulhos de tiros, sugerindo execuções dos inúmeros “inimigos” do regime. Mas talvez seja leviandade chamar de genérico de Plataforma. O filme de Jia Zhang-ke, uma unanimidade crítica no Brasil, pretendia ser um painel da desilusão comunista na China, retratando a falta de perspectivas da juventude do final dos anos 60 aos 80. Sonhos com Xangai centra-se nos anos 80, quando as famílias que haviam sido obrigadas a sair dos centros urbanos nos anos 60 para indústrias de terceira linha no interior já estavam desencantadas, e pretendiam dar condições melhores a seus filhos. O filme acompanha a descoberta do amor de uma jovem, sua amizade com uma garota de criação mais liberal, sua dificuldade em entender o rigor educacional do pai. Apesar de cair em alguns clichês de filmes orientais para agradar o público de festivais, o filme chega a emocionar em alguns momentos – especialmente na bela seqüência de baile, que mostra a disco music chegando tardiamente no local; seguida de uma cena em que o rebelde do baile acompanha a exibição de um filme em uma praça pública tendo a amiga da protagonista na garupa de sua bicicleta - e tem um belo crescendo nos minutos finais, graças à bela interpretação de Gao Yuanyuan como a protagonista, numa cena em que fica no ar se ela ouviu ou não o pronunciamento fatídico que acabava de ocorrer. É um momento brilhante, que parece sugerir que o diretor Wang Xiaoshiang foi muito bem sucedido em seu curso intensivo de como fazer cinema para o grande público.

Sérgio Alpendre

 
 
 

Letra e Música

MUSIC AND LYRICS. (EUA, 2007), De Marc Lawrence. Com Hugh Grant, Drew Barrymore, Kristen Johnson, Campbell Scott, Brad Garrett, Haley Bennet. Warner. Projeção: 1.85:1. 104min


No universo em que trabalha Marc Lawrence neste Letra e Música, o que vale é a imagem e sua instalação no tempo. Um tempo - como o representado magistralmente em sua abertura, nos apresentando ao mundo em que viveu o personagem de Grant - seja qual ele for. Sua representação da indústria pop não busca o que há de melhor ou pior, ou nem mesmo uma totalização. Seu interesse está em quem vive ela, em captar uma certa angústia em torno desta imagem. É um filme 100% dedicado aos atores, pois são eles que dão os rumos da decupagem de Lawrence. Hugh Grant, ator de carisma raro, carrega o filme sem maiores dificuldades, num momento especial de representação, pois é de seu personagem que vem a construção mais direta do universo pop que o diretor registra. Hollywood não dispõe de muitas atrizes talentosas como Drew Barrymore, e mesmo que sua parte do filme seja a menos forte, ela toca com igual carisma. Um filme longe do brilhante, até mesmo porque não há nada que Lawrence execute com maior entusiasmo, seu trabalho é às vezes muito comportado, mas acerta na maioria dos momentos. Se são poucos os momentos grandes como o começo, são raros os deslizes. Bonito de sua forma, captando com algum carinho e habilidade o espirito da música pop que procura, fica apenas um gosto de que quem sabe, este material não pudesse ter rendido um grande filme. Mas a acomodação não chega a atrapalhar.

Guilherme Martins

 
 

Ponte para Terabítia

BRIDGE TO TERABITHIA . (EUA, 2007), De Gabor Csupo. Com Josh Hutcherson, Anna Sophia Robb, Zooey Deschanel, Robert Patrick, Bailee Madison. Imagem. Projeção: 1.85:1. 95min


Logo de cara somos apresentados ao protagonista: um menino (Jesse) que, naquele momento, está se preparando para uma importantíssima competição no colégio. Dificuldades não faltam; seu tênis virou lixo e para ele sobrou um tênis usado da irmã. Na tentativa de tornar o calçado um pouco menos feminino, ele pinta de preto as listras rosas que ali estavam. Esse ato dá uma boa idéia do que veremos dali pra frente: um filme sobre a linda capacidade que as crianças têm de conviver com situações adversas, sobre como a imaginação infantil pode nos levar aos lugares mais inalcançáveis.

Bom, Jesse consegue correr muito bem, mas é vencido por Leslie, sua nova colega de sala. O que para ele parecia o fim de um sonho torna-se o total oposto; com essa nova amizade que surge, os dois começam a enfrentar juntos as batalhas diárias da convivência entre adolescentes e criam um novo mundo. E a questão aqui está muito longe de ser de alienação, porque não é simplesmente usar o sonho e a imaginação como fuga dos problemas “reais”; mas sim, usar toda esse criatividade para tornar os problemas menores e, em alguns casos, até divertidos. A Terabítia que Jesse e Leslie passam a freqüentar todas as tardes não é uma utopia da perfeição; é um mundo encantado sim, mas repleto de problemas a serem superados.

Mas Jesse perde Leslie. Por um momento o filme se afunda numa tristeza enorme, valorizando de forma muito bonita o sofrimento daquele menino – destaque pra cena em que Jesse dá um soco num colega de sala e a professora chama-o pra uma conversa; parece que virá uma repreensão, mas não. A professora conversa sobre o sofrimento da perda de alguém amado e diz que é uma coisa que não passa, mas a gente aprende a conviver com essa dor.

Culpado por ter “traído” a amiga saindo com a professora de música (uma deslumbrante e charmosíssima Zooey Deschanel) sem convida-la exatamente no dia de sua morte, Jesse por um momento parece prestes a desistir de sonhar.

Mas Jesse percebe que o sonho e a imaginação são a sua realidade, que Terabítia é tão real quanto a sua cidade natal; que, assim como a arte, a imaginação é realidade como fantasia e que isso está longe de ser algo sem importância. E ele não só mantém a imaginação viva como apresenta Terabítia pra sua irmã (interpretação encantadora da pequena Bailee Madison), e com isso passando pra frente o que ele e Leslie construíram e, de alguma forma, mantendo a amiga viva entre eles.

Francisco Guarnieri

 
 
 

Idlewild - Malandros Acima da Lei

IDLEWILD. (EUA, 2006), De Bryan Barber. Com André 3000, Big Boi, Paula Patton, Terence Howard, Ving Rhames. Universal. Formato de tela: 2.35:1. 121min


Idlewild será eternamente mais conhecido como o filme do OutKast, e o maior elogio que consigo pensar para ele é que espelha a música do duo, para o bem e para o mal, a perfeição. É uma musica da era da depressão, com Big Boi como um pequeno gangster que herda uma casa noturna e André 3000 como um compositor que ganha a vida trabalhando com cadáveres numa funerária. O diretor/roteirista Bryan Barber dirigiu diversos clipes do OutKast e sabe muito bem o que faz sua música funcionar, mesmo que nem sempre encontre as melhores soluções para encena-la na tela.

O que não funciona em Idlewild é similar ao que não funciona no album do OutKast de mesmo nome ou mesmo no excelente Speakerboxxx/The Love Below, a separação de Big Boi e André 3000 que raramente dividem a mesma cena, apesar de interpretarem melhores amigos, e a maneira como André 3000, o mais carismático e mais experiente como ator dos dois, fica preso ao personagem mais complicado e menos expressivo, de maneira bastante semelhante ao gosto que desenvolveu para experimentação com resultados irregulares enquanto o parceiro segura a onda com hip hop mais básico nos discos recentes. Aqui, Big Boi estrela um filme de gangster, enquanto André 3000 esta num musical romântico e a maneira como estes dois filmes colidem é as vezes fascinante, outras vezes irritante.

O que torna Idlewild um belo, se esquizofrênico, filme é sua atenção ao detalhe e a música. Trata-se de um filme que consegue usar seus diversos anacronismos para melhor nos instalar no seu espaço, um filme que tem uma profunda compreensão (e desejo) pelo passado. O interesse de André 3000 sobre evolução de música negra americana e como o hip hop se encaixa nela traz grandes dividendos aqui. A primeira vista pode-se questionar a idéia de um musical hip hop passado em 1935, mas após assistirmos a Idlewild é fácil reconhecer como a operação sendo realizada aqui devolve as canções do OutKast a musica negra de raiz. Em outras palavras, a compreensão de Idlewild sobre a história da musica negra americana reforça o quão corrupto Dreamgirls afinal de contas é. É impossível negar a Idlewild suas imperfeições, problemas de ritmo e mise-en-scène, mas há uma contagiante loucura aqui, um desejo de acertar as contas com passado e sua música e de apresentar tudo no mais ambicioso e insano musical possível que torna o filme irresistível.

Filipe Furtado

 
 
 

Museu de Cera

HOUSE OF WAX. (EUA, 1953), De André De Toth. Com Vincent Price, Phylis Kirk, Carolyn Jones, Frank Lovejoy. Warner. Projeção: 1.37:1. 95min


Nos anos 50, uma série de filmes em terceira dimensão tentavam combater a concorrência televisiva que só aumentava. Museu de Cera foi o encontro entre essa mania e um dos mais atuantes cineastas do período, o húngaro André De Toth, diretor de vários faroestes, inclusive uma série deles com o ator Randolph Scott, feitos mais ou menos na mesma época da série que o mesmo ator fez com Budd Boetticher. O filme fez grande sucesso, mas pode ser muito bem apreciado mesmo sem os efeitos. Vincent Price faz o tipo que o tornou famoso, o artista idealista que se transforma num ensandecido assassino. Sua interpretação é um dos grandes trunfos do filme, mas não devemos menosprezar a direção evidente de De Toth. Torna-se mais evidente à medida que explora as possibilidades do 3-D. Ainda que o diretor enxergasse apenas com um olho, sendo, portanto, impossibilitado de perceber o efeito, as cenas criadas por ele dão um sabor estranho ao filme, sabor que resiste ainda hoje. É particularmente marcante a profusão de objetos arremessados em direção à câmera, sobretudo com o entertainer que chama as pessoas na rua para conhecerem o museu. É um pequeno show à parte, que a câmera de De Toth capta, graças também a uma decupagem perfeita. As cenas de perseguição merecem destaque, claro, já que De Toth era especialista em cenas de ação, desde a época que trabalhou na Inglaterra com os irmãos Zoltan e Alexander Korda (também húngaros), como diretor de segunda unidade em Mowgli, o Menino Lobo, de 1942. Mas o que realmente encanta no filme é a capacidade de retratar a criação artística como um trabalho muito próximo à divindade, mesmo quando executado por um criminoso.

Sérgio Alpendre

 
 
 

300

(EUA, 2007), De Zack Snyder. Com Gerard Butler, Rodrigo Santoro, Lena Headey, Dominic West.. Warner. Projeção: 2.35:1.. 117min


O ridículo. Existe uma banda chamada Manowar, que se diz propagadora do “verdadeiro metal”, e prega a morte do “falso metal”. Os músicos se vestem como guerreiros medievais, com espadas em punho, sungas rudimentares e peitos besuntados de óleo. São a quintessência do ridículo em letras, idéias, conceitos por trás dos discos, e, principalmente, no visual e nos gestos que exibem em shows e fotos. Mas não há como negar que a banda tem certo magnetismo, que atrai justamente por não se levar a sério (bem, alguns adolescentes levam bem a sério, mas isso é outra história). O fato é que ver homens clamando por honra e morte nobre em guerra sempre é algo que se aproxima do risível.

O exagero. A prática de esticar ao máximo alguns signos que costumam invadir as telas de cinema de tempos em tempos, de explorar os limites do que eles podem significar, e de suas implicações dentro de uma narrativa, geralmente se torna cada vez mais interessante conforme se arrisca no limite do tolerável, com seu esgarçamento sendo visível, mas sempre a poucos milímetros de ser realmente tocado. Quando esse exagero é tão forte que ultrapassa os limites durante muitos momentos, fazendo um entra e sai da redoma do aceitável, existe sempre a possibilidade de termos reações extremadas, e até contraditórias. Sabemos que aquilo que estamos vendo é exagerado ao extremo, mas de alguma forma somos atraídos àquilo.

300, o segundo filme de Zack Snyder, parece se interessar por extrapolar os dois conceitos acima, criando entre ele e o espectador uma relação muito clara e sincera de procura por aceitação ou recusa total. Trata-se de mais um filme que parece dizer com todas as letras 'ame-me, ou deixe-me'. E, como sempre em casos assim, o que ele acaba atraindo é justamente reações mistas, que não se identificam facilmente, fazendo com que os amantes do filme tenham diversas ressalvas, e seus odiadores, mesmo que não reconheçam, se sintam atraídos por algo que eles mesmos não sabem explicar. Do ódio que nutrem pelo filme parece brotar uma admiração que eles insistem em não tentar entender. Porque tudo no filme é tão insuportável em sua aparente ambiguidade estética - que ao mesmo tempo é comoventemente rasa, deslumbradamente assumida, e, por isso, não tão ambígua assim – que o sentimento de recusar por completo se torna mais forte.

Mas o que 300 nos oferece? Duas horas de experiências visuais, aproximações cromáticas com as pinturas de Joseph William Turner (o avô do abstracionismo), noções de honra e força guerreira que fãs de Manowar aprenderam com o “verdadeiro heavy metal”, e, acima de tudo, um desejo de conversar com os excessos do cinema, de se entregar ao que pode ligar o cinema a outros meios de expressão. Nem vou entrar na discussão de sua feitura, com infinidades de efeitos digitais, que me parece deslocada, pois o que vemos na tela é, afinal, o que importa. Também não vou me alongar no aspecto político, pois o filme tem sido confundido como peça de propaganda da doutrina Bush, simplesmente por fazer do exército de monstros persas o vilão; mas é fácil perceber que quando se contrapõe uma minoria guerreira que protagoniza o filme, contra um império tirânico como o de Xerxes, os sinais se invertem, e na verdade pode-se pensar em Pérsia como Estados Unidos, e em esparta como Iraque, ou qualquer outro país que Bush considera uma ameaça.

Por que não ficar com as imagens hipnotizantes, e, em certos momentos, apenas ridículas do filme? Por que não se deixar embalar por suas batalhas e pela violência gráfica? 300 tem muitos momentos ruins, em especial os que mostram o rei espartano Leônidas pedindo conselho aos sábios da montanha e a uma ridícula aparição do oráculo (uma mulher nua, coberta por um pano de seda, se contorcendo, por meio de CGI, na tela. Ou mesmo a caracterização drag queen de Xerxes, que parece ter saído de uma das bandas de “falso metal” que os caras do Manowar insistiam em combater. Motivos para se atacar o filme não faltam. Mas, com isso, podemos perder a oportunidade de apreciar o que ele traz de bom. Não é comum podermos ver no cinema uma obra que se entrega de coração ao ridículo e ao farsesco, tendo como principal arma o exagero.

Sérgio Alpendre

 
 
 

A Leste de Bucareste

A FOST SAU N-A FOST?. (Romênia, 2006), De Corneliu Porumboiu. Com Mircea Andreescu, Teodor Corban, Ion Sapdaru. Pandora. Projeção: 1.66:1. 89min


A Leste de Bucareste é um filme tosco. Não entendam o comentário como algo negativo, porque a força do filme emana justamente da sua pobreza. Corneliu Porumboiu não é o mais hábil dos diretores, mas encontrou aqui um veículo muito eficiente para tratar da Romênia pós-comunismo. A Leste de Bucareste é uma comédia apocalíptica sobre um país que foi do pior ao pior. Sua aparência tosca é seu elemento mais direto e honesto. No seu centro, uma longa seqüência em que, no meio do mais pobre programa de televisão, um professor de história mitômano (Sapdaru), um velho rabugento (Andreescu, um verdadeiro ator de cinema mudo e grande arma secreta do filme) e os espectadores discutem se houve ou não uma revolução no país. Por baixo da aparência de esquete do Saturday Night Live está em jogo todo um descontentamento com os rumos da história romena desde então. É verdade, que nem tudo funciona e a primeira parte do filme, em especial, tem vários altos e baixos com muitas cenas frágeis no seu humor “esperto”. Mas quando o filme finalmente coloca seus três personagens principais em frente à TV, A Leste de Bucareste se impõe.

Filipe Furtado

 
 
 

Atirador

SHOOTER. (EUA, 2007), De Antoine Fuqua. Com Mark Wahlberg, Michael Peña, Danny Glover, Elias Koteas, Kate Mara. Paramount. Projeção: 2.35:1. 124min


Eis um paradoxo. Antoine Fuqua, caso raro de cineasta de gênero em atividade no cinema americano contemporâneo, tem uma busca constante em sua carreira pelo contrabando, uma razão mais "séria" que ditasse seus filmes de ação. Foi assim em filmes mediocres como Lágrimas do Sol ou em seu filme mais popular, Dia de Treinamento, onde não se sabe o que é pior: sua aparência de peça publicitária de esquerda, ou a incompetência da realização em si. Atirador se encaixa em todas estas descrições. É um filme de ação, é abertamente de esquerda, mas diverge num ponto importantíssimo: é filmado com uma crença não vista antes em sua obra. Fuqua está mais seco, deixa de lado as firulas que marcavam sua obra. Os giros abstratos ficam pelo caminho logo no começo, assumindo no filme - sem medo de correr riscos - um tom mais pesado, de paranóia total. Se antes era marcante em sua obra aquele discurso esquerdista como mea culpa pelos filmes de apelo popular, Atirador põe esta noção em xeque, pois se assume guerrilheiro, por vezes extremamente reacionário. Ele segue passo a passo a loucura de Mark Wahlberg em cena, em uma guerra por justiça pelas próprias mãos, uma noção que vai se modificando em meio ao filme, onde a justiça não parece mais justiça e sim mera vingança. É um filme que mistura estas noções, de forma não esclarecida, o que torna o processo de assisti-lo ainda mais interesssante. Wahlberg brilha nesse clima de paranóia, retomando também um clima de filmes de ação dos anos 80, num filme que certamente é mais do que o óbvio.

Guilherme Martins

 
 
     
 
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