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Dia 13/06:
Cinema Zodíaco, de David Fincher
Escola do Riso, de Mamoru Hosi
Não Por Acaso, de Philippe Barcinski
Caparaó, de Flávio Frederico
Piratas do Caribe, de Gore Verbinski
Princesas, de Fernando León de Aranoa
Dia 23/05:
Cinema
Homem-Aranha 3, de Sam Raimi
Eu me Chamo Elizabeth, de Jean-Pierre Améris
Um Crime de Mestre, de Gregory Hoblit
Dia 03/05:
Cinema
Vermelho como o Céu, de Cristiano Bortone
Inferno, de Danis Tanovic
DVD
A Grande Ilusão, de Steve Zaillan Dia 17/04 Cinema
Viúva Rica Solteira Não Fica, de José Fonseca e Costa
A Estranha Perfeita, de James Foley
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Zodíaco
ZODIAC. (EUA, 2007). De David Fincher. Com
Jake Gyllenhall, Mark Rufallo, Robert Downey Jr., Anthony Edwards, Elias Koteas.
Warner. Projeção: 2.35:1. 158min.
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David Fincher é um cineasta materialista. Seu cinema é um cinema do visível, mesmo que por vezes se assemelhe a uma atualização do mesmo em forma de catalogo de objetos de cena (Seven, Clube da Luta). O que fascina neste Zodíaco, e o põe bem à parte da obra anterior do seu autor, é justamente ser um filme materialista sobre a dúvida. A autópsia de um caso em aberto que por mais minuciosa que se revele não tem como transformar seu amplo universo de informações numa certeza.
Zodíaco é um trabalho extremamente ambicioso e bem construído, mas nesse sentido uma discussão sobre o filme não tem como não começar pelo excepcional trabalho da fotografia de Harris Savides. Zodíaco foi filmado em HD e, ainda mais do que Miami Vice ano passado, abre uma série de novas possibilidades para o formato. O que a parceria Fincher/Savides constrói é antes de mais nada é capacidade de nos dar uma noite concreta como nenhum filme antes havia apresentado. Do cinema de Nicholas Ray a Miami Vice sempre existiu a paixão por uma idéia da noite, o que Fincher e Savides fazem é torna-la visível, apresentá-la com uma nitidez desconhecida. Zodíaco está geralmente no seu melhor quando atraído para os espaços menos iluminados, mesmo uma seqüência frágil como a visita de Jake Gyllenhall ao porão de um suspeito (que assim como a maior parte das cenas metalingüísticas do filme sofrem de um excesso de retórica superelaborada) é tornada vivida pela definição que Savides retira daquele espaço banal de filmes de suspense/horror. Fincher e Savides reafirmam que se a película é insubstituível, o HD tem uma capacidade de definição para baixa intensidade de luz única. Ainda assim, estaríamos falando simplesmente de um triunfo técnico se a textura extraída por Savides não se encaixasse tão bem no plano teórico em que Fincher passeia. Zodíaco é todo sobre os limites do processo de tornar concreto o invisível e Savides leva esta idéia ao limite manifestando até na textura da imagem do filme.
Há várias maneiras com que David Fincher opera para além da fotografia de Savides. Poderíamos falar da precisão da estrutura em três atos do filme - o primeiro filtrando o impacto do serial killer na mídia, o segundo nos apresentando a eficiência burocrática da investigação policial e apenas na parte final, quando Gyllenhall começa a sua investigação privada, um ponto de vista mais humano; e a partir daí as diferentes maneiras que estas três instituições encaram a investigação. Ou dos pequenos elementos que, apenas jogados, acabam tendo uma força de retrato bastante expressiva como a maneira que somos apresentados as dificuldades que a policia enfrenta para fazer a informação circular entre os múltiplos departamentos (e Fincher surpreendentemente se revela com um inesperado e exemplar controle de tempo). Ou ainda a maneira com que Fincher segue sua proposta ao limite, por exemplo, ao mostrar os assassinatos para os quais haviam relatos de testemunhas ou do taxista, apenas as poucas informações disponíveis (sua rota, como ele foi executado)
É no seu paradoxo principal, porém, que o filme melhor se articula. Cena a cena, o cineasta acumula um sem número de informações, controla cada detalhe, mas quanto mais o filme avança, quanto mais conexões ele estabelece, quanto mais Fincher se dedica a expor os fatos, menos sentido o filme genuinamente produz para além da certeza da sua inexatidão. Não surpreende que o filme esteja no seu menos confortável quando Fincher brinca de fazer um filme sobre filmes de serial killer; este tipo de construção metalingüística é necessariamente abstrata, e Zodíaco está no seu melhor quanto mais se distancia do abstrato. Há uma exceção: a seqüência final, aparentemente uma concessão que garante alguma certeza ao espectador; a única vítima que viu o serial killer finalmente tem chance de identificá-lo e aponta para a foto do principal suspeito,o policial responsável pergunta se numa escala de 0 a 10 quão certo ele está e a vitima responde com um 8. Enfim, uma quase certeza, mas ainda uma pequena margem para a dúvida. Zodíaco é produto de um cineasta com tendência a sobrecarregar cada cena, de controlar excessivamente cada plano, que encontrou aqui seu assunto perfeito. Um filme materialista sobre as incertezas do mundo, um belíssimo paradoxo e um quase grande filme.
Filipe Furtado |
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Escola do Riso
Warai no Daigaku. (Japão, 2004). De Mamoru Hosi. Com
Com Kôji Yakusho, Goro Inagaki. FIlmes do Estação. Projeção: 1.85:1. 121min.
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Quis o destino que o excelente ator Kôji Yakusho - que já esteve em circuito brasileiro com a obra-prima Eureka, de Shinji Aoyama, e é ator fetiche do melhor diretor japonês dos últimos dez anos, Kiyoshi Kurosawa voltasse aos nossos círculos comerciais com uma comédia menor, ainda que bem simpática. Escola do Riso, de início, surpreende pela economia de cenários quase todo o filme se passa na sala do censor. É justamente Yakusho que faz esse censor, e é graças a ele, à sua habilidade de se tornar cômico dentro de um registro mais sisudo, que o filme merece ser visto. A interação que surge entre censor e censurado é o grande trunfo do filme, mesmo que possa ser adivinhada desde o início. É essa interação que faz com que as situações nunca sejam repetitivas, pois somos convidados a acompanhar seu crescimento, a maneira como um se torna extremamente ligado ao outro. De sobra, dá para notar algumas implicações interessantes sobre o exercício da livre expressão e dos artifícios que podem ou não levar o espectador às risadas. Pena que o filme seja um pouco pobre na montagem, picotando algumas possibilidades cômicas com planos que nada acrescentam, a não ser uma outra dimensão espacial que empobrece diante da do plano geral. Alguns enquadramentos, entretanto, obedecem a um rigor que se exige de tramas claramente kafkianas, com a luz que vem de fora sendo um importante elemento opressor.
Sérgio Alpendre |
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Não por Acaso
(Brasil, 2007). De Philippe Barcinski. Com
Leonardo Medeiros, Rodrigo Santoro, Letícia Sabatella. Fox. Projeção: 1.85:1. 90min.
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Quando Philippe Barcinski surgiu com seus curtas era difícil negar-lhe o talento para a composição do quadro, assim como era na experiência final difícil ter grande interesse pelos seus filmes. Barcinski de certa forma parecia ter se especializado numa espécie de filmes: aquela em que as imagens perfeitamente construídas soavam melhor quando reproduzidas em fotos na imprensa do que quando posta em movimento dentro dos próprios filmes. O excesso de controle que o cineasta exerce sobre o quadro tendendo a drenar toda a energia das cenas. Não Por Acaso, o primeiro longa de Barcinski, tem a mesma tendência ao excesso de elaboração e controle de seus trabalhos anteriores (assim como o hábito de transformá-la em tema do próprio filme), a diferença que torna este longa bem mais eficaz do que os trabalhos anteriores do diretor, é que, ao colocar as suas preocupações formalistas dentro de um recorte dramatúrgico mais convencional, ele encontrou espaço para o filme respirar.
Não Por Acaso então surge como verdadeiro filme aberração: aquele que demonstra como um limite na liberdade de um cineasta pode por vezes servir como abertura para seu processo criativo. Cena por cena, podemos ver um Barcinski que combina o esforço de produzir um filme narrativo que ao menos atenda a suas obsessões formais e desse encontro retira um raro equilíbrio. Barcinski nem sempre é confortável no formato (as elipses do filme sugerem menos uma sofisticação narrativa e mais um temor de lidar com a dramatização de certos eventos), mas o filme respira como nenhum dos trabalhos anteriores de Barcinski. Sua parceria com Leonardo Medeiros, em especial, encontra o tom exato para cada seqüência. A atenção para geometria que sempre se destacou nos trabalhos inteiros é revista e ampliada num uso dos mais inteligentes do espaço cênico nas internas, mas com mais força nas externas, onde a ambiência paulistana é capturada com uma textura que raramente vemos nos filmes passados na cidade. Barcinski, ao abrir mão de alguns elementos mais radicais de seus filmes anteriores, fez não uma diluição ou um filme de compromisso, mas encontrou um equilíbrio que finalmente põe o seu talento para bom uso.
Filipe Furtado |
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Caparaó
(Brasil, 2006). De Flávio Frederico. Kinoscópio Cinematogtráfica. Projeção: 1.85:1. 77min.
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Caparaó foi o vencedor do É Tudo Verdade de 2006, o que não diz tanto sobre sua qualidade técnica (afinal, vemos muitos abacaxis ganhando prêmios por aí), mas muito de seu apelo popular. O filme, que só agora estréia no circuito brasileiro ainda assim em circuito limitado (será que nunca iremos melhorar essa distribuição?) tem uma edição esperta que privilegia o questionamento, que se faz sentir especialmente durante um depoimento que sugere uma possível negociação, reiterada por um outro depoimento interessante. Também aparecem depoimentos dos opressores e de habitantes do local, que estranhavam a presença repentina de muitos jovens barbudos e cabeludos e denunciavam que algo de estranho poderia estar acontecendo ali. De fato, é o tipo de documentário em que todos os envolvidos parecem ter razão, e isso diz muito da intenção de Frederico em dar voz e entender todos os lados rebeldes radicais ou circunstanciais, policiais truculentos ou apenas simplórios, habitantes da região. Com o auxílio de uma eficiente trilha sonora, o filme consegue, por vezes, tirar o máximo de uma estrutura sempre batida que alterna entrevistas com cenas de arquivo e reconstituições de acontecimentos usando atores. É de se lamentar apenas o artifício besta de colocar legendas durante as falas do rapaz fanho. Por que não deixar que tentemos entender o que ele fala por sua própria entonação, seus erros gramaticais, suas pausas características de pessoas simples? Um pequeno tropeço que não abala a forte estrutura que Frederico sustenta.
Sérgio Alpendre |
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Piratas do Caribe - No fim do mundo
PIRATES OF THE CARIBBEAN - AT THE END OF THE WORLD. (EUA, 2007). De Gore Verbinski. Com
Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Geoffrey Rush.
Buena Vista. Projeção: 2.35:1. 167min.
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Ao final de Baú da Morte, segundo filme da trilogia Piratas do Caribe, capitão Barbossa (Geoffrey Rush) surge ressuscitado dos mortos. Essa ressurreição mal é explicada neste No Fim do Mundo, mas quem se importa? A trilogia funciona melhor quando evita construir uma lógica interna repleta de explicações, típica de franquias como Harry Potter e Senhor dos Anéis. As melhores gags de No Fim do Mundo esvaziam qualquer pretensão dramática da história. Por isso, entre momentos supostamente de vida e morte, há piadas cafajestes como Barbossa e Sparrow comparando o tamanho de suas lunetas. Também é um cinema parque de diversões, cuja graça está em como os personagens interagem com os cenários bizarros que encontram. Nesse sentido, há cenas incríveis como um navio atravessando um deserto empurrado por caranguejos; ou quando uma tripulação corre de um lado a outro num navio para virá-lo de cabeça pra baixo no mar. Contudo, No Fim do Mundo nem sempre segue esse humor irresponsável. Infelizmente, há sim a pretensão de criar uma mitologia, com Calypso e Davy Jones, os personagens mais maçantes porque explicados e previsíveis. Também cansa o humor espertinho das infinitas trapaças dos heróis que soterra as piadas mais bobas (por isso, ótimas). Felizmente a irresponsabilidade predomina na conclusão de No Fim do Mundo, porque nada é concluído. A trilogia termina como começou: Sparrow perseguindo Barbossa; Will sem concretizar seu amor por Elizabeth. São heróis que desenvolvem uma trajetória infinita, sem alcançar uma saída, a morte (nos três filmes a vida eterna é uma maldição). Claro, fica a possibilidade de um quarto filme. Mas os criadores da trilogia também estão pedindo que o público tenha o mesmo espírito de aventura interminável de seus heróis. Talvez isso explique o sucesso milionário de Piratas do Caribe.
Bruno Amato Reame |
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Princesas
(Espanha, 2005). De Fernando León de Aranoa. Com
Candela Peña, Micaela Nevárez, Mariana Cordero. Art House Movies. Projeção: 1.85:1 (digital). 109min.
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Antes, um aviso. Os que, como eu, não gostam das projeções digitais irão se surpreender com a qualidade da cópia deste filme. Talvez tenha sido a primeira exibição digital de um filme pensado para ser exibido em película que não tenha me feito pensar que seria melhor ver o filme numa tela de computador, onde as cores fossem mais nítidas e não sofressem com o tamanho da tela. Felizmente, a cópia de Princesas que está sendo exibida no Arteplex não atrapalha a fruição do filme. Espero que onde o filme estiver aconteça a mesma coisa. Aranoa havia me agradado nos anos 90 com um filme deliciosamente surreal: Família, que infelizmente nunca pude rever. Depois me desencantou com o demagógico e constrangedor Segunda-feira ao Sol, em que personagens eram humilhados não só por outros como pelo diretor, e suas chantagens emocionais. Agora, com Princesas, Aranoa parecia estar num caminho mais fácil de trilhar, o da compaixão por excluídos, vítimas da sociedade e do preconceito, blá blá blá. E o pendor de Aranoa para a demagogia fala sempre mais alto, em cada cara de dó da protagonista que se condói das prostitutas que, ao contrário dela, não se saem tão bem nos percalços da profissão; em cada atitude humanista dela; em cada toque ameaçador de seu celular tamanha burrice a impedia de deixar o celular longe enquanto ela estava com familiares, ou com um pretendente que pouco sabe sobre ela. O celular, por sinal, toca irritantemente o filme inteiro, como se fosse o principal inimigo da aceitação dessas moças na sociedade. Poderia ser uma interessante alegoria sobre a necessidade que certas pessoas têm de ficar o tempo todo disponíveis para o toque do celular, ou de como um instrumento importante do trabalho elas precisam ser localizadas quando colocam anúncios nos jornais se transforma em pedra no caminho do saudável convívio social. Mas não, o filme pretende apenas mostrar o cotidiano cheio de preconceitos das prostitutas vitimizadas sendo que, sem o celular, a maior parte dos problemas delas não existiria. Daí já vem a principal limitação do filme: como simpatizar com um personagem que deliberadamente coloca obstáculos para si, e depois fica remoendo pelo azar de ter sido atrapalhada por esses obstáculos. Como se não bastasse, a segunda personagem, pela qual a protagonista e o diretor sentem compaixão, em determinado momento pega AIDS - sem que o nome da doença apareça (um pequeno acerto)- e vai se vingar do homem que abusava dela com falsas promessas, transando com ele sem preservativos. Uau...Charles Bronson se vingava por conta própria nos filmes da série Desejo de Matar e era chamado, com razão, de fascista; no cinema de Aranoa, uma pessoa passa uma doença letal a outra deliberadamente, e ainda é tratada como tadinha dela - santa injustiçada, redentora das oprimidas... Ah, a catarse sublimada com sutileza e elegância. Realmente, é difícil de defender.
Sérgio Alpendre |
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Homem-Aranha 3
SPIDERMAN 3. (EUA, 2007). De Sam Raimi. Com Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Thomas Haden Church, Topher Grace. Columbia. Projeção: 2.35:1. 140min.
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Com este terceiro filme, a série abandona o desejo de existir simplesmente como um filme e abraça de vez a estrutura picaresca que marca o blockbuster contemporâneo. Os dois primeiros Homem-Aranha se diferenciavam da concorrência justamente por manterem um pé no chão e uma paciência com velhas questões de narrativa e personagem que o formato vem progressivamente abandonando. Neste sentido, o diferencial da série desaparece aqui, substituído apenas por mais um exercício de quanto mais melhor do grande espetáculo hollywoodiano.
Nada é mais decepcionante neste Homem-Aranha 3 do que a maneira como o filme abandona o uso de Nova York como parte estética vital do seu projeto cinematográfico. A cidade ainda é importante em termos narrativos - e a subtrama sobre a cidade adorar o Homem-Aranha e a reação dele a esta nova posição é uma das melhores idéias do filme -, mas a paciência do filme para desenvolvê-la como espaço cênico praticamente desapareceu (e de certo não é coincidência que a melhor cena do filme é a primeira entre Aranha e Harry, justamente o momento em que o filme parece mais ligado às suas locações).
O que resta é o mais do mesmo. Sem alguém como Michael Chabon (que co-escreveu o filme anterior e em retrospecto provavelmente merece muito do crédito por quão emocionalmente efetivo ele era) envolvido no projeto, todo o arco que envolve a corrupção do Aranha soa artificial e sem força. No final, há alguns bons momentos e idéias com potencial, mas falta algo que garanta alguma unidade e o filme como um todo termina por se assemelhar a outro exemplar de muito barulho por quase nada que marca estas produções.
Filipe Furtado
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Eu me Chamo Elizabeth
JE M'APPELLE ELISABETH . (França, 2006). De Jean-Pierre Améris. Com Alba Gaïa Kraghede Bellugi, Stephaine Freiss, Maria de Medeiros, Yolande Moreau. Pandora. Projeção: 1.85:1. 90min.
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Salvo falha na memória, este é o primeiro filme de Améris a ter distribuição comercial no Brasil depois de Más Companhias, o belo e pouco visto retrato da adolescência na França campestre. Aqui, estamos novamente nesse cenário bucólico, em um filme que tende a passar despercebido, ou até ser subestimado pelos cinéfilos acostumados a tanta pasmaceira vinda do cinema comercial europeu. Eu me Chamo Elizabeth é de outra cepa. Um filme que tende a ser bobo de tão simplório, mas que termina por comover pela dosagem certa de cenas tocantes e tempos mortos. Elizabeth era Betty, menina que encontra um louquinho fugitivo do sanatório que o pai dela comanda. Ela o esconde num depósito de materiais do casarão da família, e inicia com ele uma relação muito sincera de afeto e identificação. Nada de novo, a não ser a sensibilidade incomum de Améris para captar fragmentos da pré-adolescência. O filme segue leve e fluido, sem sobressaltos, a não ser para a menina Betty, que aprende a não acreditar nos preconceitos dos adultos. Os loucos são necessariamente perigosos? O próprio pai avisa que o fugitivo não oferece perigo, no entanto, quando vê que a filha está nas mãos dele, a apreensão é inevitável. O que vemos é a doçura dessa fase da vida traduzida com imagens singelas, que poderiam sugerir um filme preguiçoso, acomodado, mas no caso apenas realçam os sentimentos dos personagens, sem maiores truques para impulsioná-los. Suave e simpatico como uma balada folk.
Sérgio Alpendre |
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Um Crime de Mestre
FRACTURE. (EUA, 2007). De Gregory Hoblit. Com Ryan Gosling, Anthoyn Hopkins, Rosamund Pike, David Strathairn. PlayArte. Projeção: 2.35:1. 112min.
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Hoblit é um diretor com certo talento para o artesanato, conforme já havia nos mostrado em Possuídos, ainda seu melhor trabalho. O que falta a ele parece ser uma maior confiança no material que tem em mãos. Vejamos o caso de Um Crime de Mestre. É um filme que tinha tudo para repetir a fórmula recente de tramas que se apoiam em viradas absurdas de roteiro para manipular e entreter o espectador, ao mesmo tempo em que parece chamá-lo de, no mínimo, desatento. Esse perigo ele consegue evitar, centrando-se eficientemente na dinâmica que Hopkins impõe à trama, uma dinâmica classuda e visceral, pois ele não tem freios morais que impeçam seus crimes, ou mesmo falta de vergonha para zombar de juízes e promotores. Vemos, então, a arte de um ator que geralmente é mal aproveitado exibindo sua persona cinematográfica a favor do filme. Temos ainda Ryan Gosling, que ainda não tem persona cinematográfica construída - e seus diferentes personagens tendem a impedir que ele venha a ter algum dia (o que não é necessariamente negativo). Ele contribui para que o filme tenha suas duas forças em perfeita comunhão. O cara do bem, meio arrogante, que pretende trabalhar para uma empresa que só quer saber de dinheiro, e para isso é capaz de defender os seres mais abjetos do mundo, mas que se prende a um caso público, em que ele deve representar o povo contra um assassino passional. Um ricaço que, no entanto, é vendido pelo filme como um poço de emoções que se transforma num réu frio e arrogante, porque, claro, é Anthony Hopkins. Hoblit trabalha muito bem com a persona e com a ausência de persona, juntando os fios num duelo entre o que já é e o que quer ser, que apenas se enfraquece por prometer muito mais do que seu enredo cumpre. Não se trata de exigir soluções extraordinárias, no estilo a que estamos bem habituados a ver no cinema dos últimos tempos, mas de querer que o desfecho se harmonize com tudo de complexo que a narrativa ameaçava trilhar. Ficamos só na ameaça, e temos que ver, no final, o crime de mestre falhar por uma burrice absurda, algo que não se esperava de um personagem tão bem arquitetado em imagens por Hoblit e Hopkins.
Sérgio Alpendre |
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Vermelho como o Céu
ROSSO COMO IL CIELO. (Itálial, 2006). De Cristiano Bortone. Com Luca Capriotti, Francesca Maturanza, Paolo Sassanelli, Simone Gulli. California. Projeção: 1.85:1. 96min.
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Um menino sofre um acidente que o torna praticamente cego. Ele é mandado para uma escola especial para meninos com deficiência visual, e lá tenta superar o trauma. Em linhas simples, Bortone nos entrega o melodrama, sem muitas invencionices ou firulas. Vemos na tela o drama do menino e a maneira de sobreviver, via criatividade e imaginação. O sonho como um escape. Há duas metáforas que se insinuam sem tomar de assalto o filme, o que as torna mais forte, pois é percebida aos poucos, conforme nos envolvemos com a história. Uma delas diz respeito aos borrões que o menino passa a ver, que se confundem com uma imagem de cinema fora de foco. O diretor cria belas cenas com essa metáfora, em especial a que mostra o menino olhando pela janela, mas não enxerga que seus pais acenam para ele, se despedindo como borrões em sua retina. A câmera vai fechando na visão da janela, que não é a visão subjetiva do menino, mas acompanha a capacidade visual dele e só nos mostra borrões. Há o contracampo dos pais, claro, porque o espectador precisava ter certeza de que eles estavam ali, mas essa preocupação didática não estraga a beleza da cena, pelo contrário, apenas acentua a sutileza da composição visual do filme, que se utiliza, durante toda sua primeira hora, da imagem desfocada de fundo, provocando borrões brilhantes de imensa beleza, circundando os personagens que interagem com o menino. Outra metáfora se dá conforme percebemos que o universo de imagens que o menino carrega dentro de si equivale ao universo de imagens que o cinema pode nos dar. O sonho tornado real nas imagens de cinema se equivalem à imaginação do menino que se torna real porque ele as vivencia. É bem verdade que ele enxergava perfeitamente antes do acidente, então tem a memória como forte aliada de sua imaginação. Mesmo assim, é de se destacar a habilidade de Bortone em inserir essa metáfora com tal leveza que mal nos damos conta dela. Na segunda parte do filme, é adotada também uma postura mais edificante, mais reducionista, mas a mão de Bertone consegue evitar que se descambe para o sentimentalismo, para o piegas, principalmente porque evita a chantagem emocional. Acompanhamos reações emocionadas com uma trilha sonora discreta, que não força a empatia. Sentimos com os personagens na mesma medida que eles, conforme nos identificamos com o trauma do protagonista. Sim, todos nós podemos imaginar o que é perder a visão de uma hora pra outra, logo, é natural que esse sentimento passe por nós em alguns momentos. O que Bortone faz é deixar que esses sentimentos não nos peguem à força, mas se instalem naturalmente. Assim, o filme flui agradável como uma brisa de primavera.
Sérgio Alpendre
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O Inferno
L'ENFER. (França, Itália, Bélgica, Japão, 2005). De Danis Tanovic. Com Emmanuelle Béart, Karin Viard, Marie Gillain, Carole Bouquet, Jacques Gamblin, Jacques Perrin, Guillaume Canet. Filmes do Estação. Projeção: 2.35:1. 98min.
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Inferno é a segunda adaptação cinematográfica da trilogia Paraíso-Inferno-Purgatório, escrita por Krzysztof Kieslowski antes de morrer. A primeira, Paraíso, foi dirigida por Tom Tykwer e fica milhas abaixo do que se esperava, mesmo considerando Tykwer como uma barca furada. Inferno é ainda pior. Chega a ser constrangedor, na verdade, ainda mais quando lembramos que Tanovic é o diretor por trás do interessante Terra de Ninguém a lembrança, no entanto, de seu episódio em 11'09'01 dá calafrios. O que é de se lamentar é que Tanovic se apropria do pior do diretor polonês, o sadismo de fora para dentro, de uma instância superior que poderia ser confundida com a direção para os personagens dentro do filme; sem se influenciar pelo melhor, o senso de ritmo solene e o catolicismo desbragado. Daí que para o filme se impor é necessário uma enormidade de situações falsamente confrontadoras, como quando a amante de um homem casado que acabou de morrer em um acidente vai consolar a filha dele, grande amiga dela, e revela, sob o subterfúgio da indireta que pretende ser direta, o caso que tivera com ele. Ou no acerto de contas final, com Carole Bouquet interpretando uma personagem patética, de olhar maléfico, mas que se revela parte de um caleidoscópio que pretende insinuar os diferentes pontos de vista orquestrado pelo ponto de vista único de um diretor de cinema. Tanovic seria o observador do caleidoscópio, que ao mesmo tempo em que se delicia observando as matizes, faz questão de abrir para um público as pequenezas humanas que encontra dentro dele. Se continuarem mexendo no espólio de Kieslowski dessa forma, vamos acabar achando que o diretor é ainda mais superestimado do que parece.
Sérgio Alpendre |
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A Grande Ilusão
ALL THE KING'S MEN. (EUA, 2006). De Steve Zaillan. Com Sean Penn, Jude Law, Kate Winslet, Anthony Hopkins, Mark Rufallo. Sony. Formato de tela: 2.35:1. 140min.
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É fácil ver o porquê do roteirista/diretor Steven Zaillan ter optado por refilmar o livro de Robert Penn Warren (que antes havia sido filmado de maneira eficiente, se um tanto grosseira, por Robert Rossen em 1949). Sua história de ascensão do político populista e demagogo (um Sean Penn a beira do insuportável) de certo soa bastante atual, o que torna este A Grande Ilusão uma verdadeira aula de como optar pelas piores opções a cada decisão. Primeiro, uma questão de adaptação. Zaillan decidiu seguir o livro o mais fielmente possível, o que certamente pega bem nos press-releases, mas cria uma série de problemas: a história mais cinematográfica e figura mais interessante do demagogo fica em segundo plano em favor dos dramas de consciência do narrador (Law), que podem funcionar muito bem num misto de filtro/paralelismo no papel, mas é meramente aborrecido num filme. A fidelidade tem o contratempo de tornar o filme profundamente arcaico, o livro de Warren e o filme de Rossen se beneficiavam por soarem contemporâneos do leitor/espectador, enquanto o filme de Zaillan é apenas distante e irrelevante, uma aula cívica sobre um tipo de demagogia que já começava a dar sinais de envelhecimento 60 anos atrás. Depois, há a opção bizarra do cineasta por escalar uma série de atores ingleses numa história bastante especifica do sul dos EUA, o que até poderia ser interessante nas mãos de alguém que tivesse algum interesse em explorar o miscasting, mas, nas mãos literais de Zaillan, soa simplesmente como um caso de produção disposta a escalar o maior numero possível de atores de prestígio independente deles se encaixarem nos papéis. Não ajuda também que Zaillan (talvez por questões comerciais) não consiga nunca definir o envolvimento do personagem de Penn com negócios excusos. Para um filme todo estruturado como uma denúncia dos efeitos da demogagia, A Grande Ilusão tem uma estranha relutância em deixar seu personagem central sujar as mãos. Zaillan também é um cineasta óbvio e maçante, conduzindo o filme todo de maneira bastante aborrecida, o que colabora para a impressão final de estarmos diante de um completo desastre em forma de filme de prestígio.
Filipe Furtado |
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Viúva Rica Solteira Não Fica
(Portugal/Brasil, 2006). De José Fonseca e Costa. Com Bianca Byington, Cucha Carvalheiro, Diogo Dória, Ricardo Pereira, Rogério Samora. Mais Filmes. Projeção: 2.35:1. 135min.
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Esta estréia nos cinemas brasileiros do cineasta José Fonseca e Costa é pra lá de curiosa. Produzido por Paulo Branco, cujas capacidades de financiamento já nos trouxe um sem número de grandes filmes (Manoel de Oliveira, João César Monteiro, Raoul Ruiz, entre outros), marca a aparição como cineasta de um critico angolano, já passado dos seus 70 anos. E de certa forma o filme é a antítese do que se espera de um filme com este perfil. Uma comédia de costumes, estruturada sem maior inventividade, centrada em sua grande maioria nos atores. Em suma: um filme correto demais. Seu cinismo por trás de uma suposta leveza incomoda um bocado, levando todo um percurso para um final moralizante pra lá de burocrático, não restando nada do charme que em certo momento possui. Há um esforço coletivo sincero e forte do elenco, o que em muitos momentos dá credibilidade à encenação por vezes preguiçosa, acomodada. Confiante demais na suposta qualidade do texto, falta vigor na maioria do tempo, e se existe alguma graça no filme, ela vem da forma menos generosa. Mesmo que o conceito seja o de uma história de cartas marcadas, José Fonseca e Costa não lhe concede qualquer interesse estético que não seja o mais batido. Todo o interesse que o perfil por trás da obra pode causar só aumenta o baque de quão inexpressivo é o filme.
Guilherme Martins |
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A Estranha Perfeita
PERFECT STRANGER (EUA, 2007). De James Foley. Com Halle Barry, Bruce Willis, Giovanni Ribisi. Columbia. Projeção: 2.35:1. 109min.
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15 anos atrás, James Foley aparentava ser um cineasta com uma longa carreira pela frente. Caminhos Violentos, Dominados pelo Desejo e O Sucesso a Qualquer Preço eram filmes de um cineasta talentoso e inteligente, depois disso veio o nada. A maior parte da produção de Foley dos últimos quinze anos é marcada pela mediocridade. Espécie de Jean Negulesco moderno, depois de um começo auspicioso viu sua carreira entrar em colapso rumo ao anonimato e preguiça. Entra este A Estranha Perfeita, talvez o ponto mais baixo da carreira de Foley. Um veiculo para Halle Berry que é genuinamente constrangedor para todos os envolvidos. O que é A Estranha Perfeita? O nada. Um thriller psicologizante pseudo-erótico para o qual falta até mesmo a cara de pau essencial para este tipo de projeto funcionar. Trata-se de um filme desonesto até mesmo na falta de honestidade, chegando ao ponto até de tentar nos vender uma justificativa crível para um final que era apenas uma das várias opções de reviravolta que os realizadores tinham. Foley filma tudo com notável desinteresse e preguiça, tão constrangido com o material que tem em mãos quanto o espectador sentado no cinema. A Estranha Perfeita não é o pior ou mais ofensivo filme a chegar até nós este ano, é só o mais patético no seu abraço à mediocridade.
Filipe Furtado |
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