500 Almas
(Brasil, 2005). De Joel Pizzini. Com Paulo Jose. Rio Filme. Projeção: 1.66:1. 105min.

As primeiras imagens poderiam sugerir uma inclinação de 500 Almas a um desejo de impressionar pela beleza da paisagem, pelos planos de natureza, sempre fáceis de angariar simpatia das platéias. Mas há algo de estranho nessas imagens, algo que procura identificar um poder pictórico, uma sincronização de cores, um festival de luz que possa transparecer do cenário natural. Como ir em busca do último resquício de uma tribo - os Guatós - que existe no pantanal matogrossense evitando o entorno, a maravilhosa confluência de água e mata que existe por ali? Como não se render ao poder do céu refletido na água se ali reside todo um mistério que insiste em pairar sobre a região, e que era algo inerente ao filmar, ao desbravar essa natureza irrepresável? Fala-se em piranhas no filme, fala-se em jacarés, em animais selvagens, em pescadores, em tradições e costumes que mal conhecemos. Durante boa parte do filme somos levados à documentação de uma forma de vida, de uma cultura que se moldou com o tempo, ficando domesticada, próxima da cidade, mas mais próxima ainda da beleza natural do pantanal. Depois vem a incidência de alguns elementos de ficção. Seria o ponto fraco do filme, não fosse a habilidade em deixar esses elementos triunfarem parcialmente, e apenas na segunda metade do filme, depois que o registro da vida por ali ficasse bem claro em nossas retinas. Em 500 Almas, a ficção entra de forma a quebrar algumas barreiras. Ela se impõe de maneira anti naturalista, com Paulo José vivendo vários papéis num fundo enigmático e teatral. O embate se torna, assim, a própria razão de ser do filme. O enfrentamento surge como válvula de invenção, em um projeto que já estava marcado pelo inebriante. Joel nos convida o tempo todo a questionar nossa própria idéia de natureza indomável, mas só nesse final ficcional deixa isso claro. Como os índios Guatós, somos deixados à mercê das imagens que procuram o sentido dessas pinturas divinas. Como eles, sentimos vontade de nos perder por ali, nas imagens captadas por Mário Carneiro, ouvindo eternamente a bela trilha composta por Lívio Tragtenberg. É um caminho interessante e imbricado o que Joel Pizzini nos propõe. Quer nos dar a conhecer a cultura dos Guatós, que era considerada extinta, mas não nos dá todas as ferramentas para que isso aconteça. É um cinema filiado ao pensamento, e tanto melhor que a verdade sobre essa tribo escondida não nos seja fornecida embalada e pronta para consumo. A descoberta continua para além do filme.
Sérgio Alpendre