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Somos todos filhos de Cain

por Bruno Andrade

"O que me interessa, o que amo no cinema, é quando, assistindo a um filme, vejo um homem que fala. E quando eu sinto que este homem fala de uma maneira íntima, bastante pessoal, através de seu filme, por sua mise en scène ."

Jean-Claude Brisseau

Observe, e simplifique ; é este o conselho dado pelo personagem interpretado por Bruno Cremer à sua filha no momento em que esta, paralítica, precisa confrontar pela primeira vez a laboriosa e magna tarefa de contemplação deste mundo.

O filme se chama Um Jogo Brutal , e a frieza impassível com que Cremer – intérprete magnífico que confere à força ativa desta soberania da dominação, do poder e do orgulho sua mais nobre e trágica encarnação – conduz sua filha a tal aspiração é sem nenhuma dúvida a expressão fiel e concreta de um método ao qual Brisseau sempre pareceu subordinar sua arte. Para Brisseau, pedagogo avant la lettre como Rohmer, o objetivo desse método é a educação do espectador; para o espectador, essa educação implica em ter ao seu alcance, através de uma encenação brutalmente frontal e livre de ornamentos, a sublimação de suas pulsões mais secretas.

Um ato de fé, a procura por aquilo que não pode ser expresso ; estranhas palavras para se descrever um cineasta que em entrevistas tem por costume demonstrar uma atitude geral e uma relação bastante cartesiana quanto aos deveres de seu ofício. Exegeta da encenação (um dos últimos), arte que busca registrar o momento em que a descrição de uma intenção passa pela legitimação do gesto que a caracteriza no mundo material, Brisseau parece por demais fascinado pela metafísica, ou mais simplesmente – e, levando-se em conta que Brisseau é antes e acima de tudo um dramaturgo, mais adequado – pelo fantástico (melhor evitarmos a falácia de discutir a respeito de uma arte que exalta a beleza do gesto e a glória dos corpos a presença ou admissão de quaisquer "símbolos" ou "metáforas", uma vez que nossa discussão se limita ao cinema e portanto não se interessa por assuntos que dizem mais respeito à álgebra ou à etimologia). Ex-professor, que ainda deixa escapar vestígios de uma formação racionalista e se permite utilizar constantemente a perspicácia de seu raciocínio, é no entanto através dos recursos do drama e da tragédia que parece capaz de expressar uma vocação genuinamente lírica e quase épica: o filme de gênero, o melodrama, o suspense sexual, o thriller , o recito cruel e indignado da infância em meio à miséria... Em uma carreira longa mas de títulos esparsos (como a de Michael Cimino), Brisseau já oscilou entre uma multitude de gêneros sem no entanto jamais demonstrar a menor evidência que seja de hesitação ou insegurança ao abordá-los. Trata-se, pois, de um domínio – e um bastante lógico, pois é justamente aquele que fornece as condições ideais para, uma vez estabelecidos os procedimentos, acomodar o conteúdo a ser estudado e colocá-lo à prova.

Observar e simplificar, portanto. Um procedimento destes é obviamente fruto de um exigente e delicado trabalho de seleção – daquilo que pertence ao domínio do essencial – e exorcismo – de tudo o que responde à ordem do adulterado (pensemos nos manequins frívolos de Almodóvar) ou do gratuito (as convulsões pitorescas de fantoches abomináveis como aqueles manipulados por demiurgos aloprados nos moldes de Desplechin). Sob estas condições, um único movimento se revela possível: um desequilíbrio primordial permite o confronto violento entre forças antagônicas ou incompatíveis, reduzidas aos seus impulsos essenciais; elevada ao seu ponto de saturação máxima, essa violência explode, e é este gesto ao mesmo tempo súbito e terminal que trará consigo a volatização ou descompressão de todas as dinâmicas da tensão entre as pulsões mais profundas e secretas do indivíduo e as repercussões, imediatas ou eternas, dos atos incitados por tais pulsões.

É aqui que podemos falar objetivamente de "gênio" a respeito deste cinema. Tomando por base o conceito primitivo de realidade, Brisseau não interpõe ou submete esta realidade a uma vontade organizadora ou uma sensibilidade burlesca. Assim sendo, podemos distinguir duas inclinações bastante distintas, duas formas consumadas de apreensão e possessão do mundo através dessa realidade: uma que envolve a enfatização poética daquilo que é de importância à nossa percepção, sem qualquer tipo de validação externa, e que corresponde provavelmente aos seus primeiros longas-metragens; a outra, mais complexa e possivelmente mais laboriosa, implica na criação de um universo abstrato no qual uma realidade ideal e filtrada contém em si o choque entre paixões pulsionais que irremediavelmente entrarão em conflito. Coisas Secretas , Anjo Negro e Os Anjos Exterminadores pertencem à última categoria, e se de fato é possível falar que em todos Brisseau se restringe a filmar as conseqüências de um dualismo fundamental, este evidentemente provém de forças essencialmente instáveis, e portanto mais próximas de mitos originários como os de Eros e Thanatos, Cain e Abel; e talvez, um pouco mais adiante, do anjo e do diabo, da loira e da morena, do diretor e das atrizes, da aluna e do professor. Esse é o trabalho de simplificação, nada mais: a realidade não é ambígua; o artista privilegia alguns aspectos desta realidade sobre outros; cabe ao artista desembaraçar-se de suas contradições, rejeitar tudo o que não pertence ao campo elevado do conhecimento e assim finalmente aspirar uma plena capacidade de possessão, de apreensão, do que enfim é o seu ofício perante a carne e o mundo.

Após a queima completa desta alquimia instável, profundamente explícita e profundamente latente (como em Buñuel, de quem Brisseau é provavelmente o grande sucessor), e apenas através desta queima nos será concedida a abertura rumo à sensação serena de uma possível reconciliação com o universo, momento privilegiado cujo registro permitiu com que Brisseau fosse capaz de legar ao cinema destes últimos anos algumas de suas mais belas e memoráveis passagens: a redenção de Bruno Cremer e a ascensão de Emmanuelle Debever ao som da cantata de Bach em Um Jogo Brutal ; Fabienne Babe se inclinando delicadamente sobre a janela da sala de aula para melhor contemplar e se deixar envolver por este mistério, liberador e inconsolável, a que chamamos de noite ( De bruit et de fureur ); a ruína e a desolação de Bruno Cremer diante do oceano que reverbera o colapso de uma alma perdida em meio a um mundo que finalmente se mostra capaz de se elevar a uma dimensão transcendental e imponderável ( Boda Branca ); o reencontro redentor de Coralie Revel e Sabrina Seyvecou no prólogo deste luminoso e perturbador afresco de nossos tempos que é Coisas Secretas .

E, portanto, esta arte privilegiada que nos parece tão límpida, tão modesta e sincera, que se exprime por uma austeridade freqüentemente luminosa cuja enunciação produz um arrebatamento plástico que não cessa de fascinar, é esta arte que nos parece a mais digna de ser descrita como cósmica . Uma 'narrativa que estuda os princípios que governam o mundo e o universo, suas estruturas e suas evoluções' será, através de uma lucidez densa e metódica, uma grande educação da vida, da crueldade, do mal, dos nossos desejos, dos contratos sociais que condicionam nossas pulsões mais sombrias. Buñuel e Bresson, Mizoguchi e Lang, as pulsões da vida e da morte, e a liberdade desta carne que, sozinha, parece capaz de romper todas as restrições impostas sobre ela e assim permitir com que avistemos um novo equilíbrio, uma nova forma deste contato entre homem e Deus ser travado. Pois se, como Brisseau parece acreditar, somos todos filhos de Cain, o caminho rumo a uma compreensão maior do mundo e de nós mesmos será naturalmente aquele das grandes narrativas, dos mitos que melhor refletem as oscilações que nos levam de um mundo de belezas às zonas mais obscuras das trevas de mundos originários e primais, sem os quais jamais poderíamos conceber o milagre da redenção. Este milagre, através do qual Brisseau forja a forma mais direta – a mais simples – de fazer com que a expressão nua finalmente encontre sua intensidade mais eficaz, acende em nós o anseio por um contato com o sublime, verdadeira disciplina do divino e magnífico. É essa a educação que Brisseau pretende legar aos filhos de Cain, monstros de inocência e rigor. É também desta educação que Brisseau parece se embeber, e através dela que encontra a matéria – física, densa, sensual – para as suas próprias indagações. Um professor que também se indaga - eis uma possível definição para o ofício do cineasta.

"O que há de mais profundo nos filmes de Lang é uma certa maneira de se contemplar de bem longe, como do fundo da morte, os homens, as mulheres, a morte e a fatalidade. Nos seus quatro ou cinco últimos filmes, não se distingue mais do que isso. Se não se entende esse tom de eternidade, não se entende nada. O silêncio e o vazio."

Michel Mourlet

 

 
     
 
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