Cão Sem Dono
(Brasil, 2007). De Beto Brant e Renato Ciasca. Com
Júlio Andrade, Tainá Müller, Luiz Carlos V. Coelho, Marcos Contreras. Downtown. Projeção: 1.66:1. 82min.

O pai tem uma conversa franca com o filho. Diz que no passado abriu uma pequena empresa, e se envolveu tanto com ela a ponto de cheirar cocaína para aguentar trabalhar mais e mais, deixando, como efeito colateral, sua família em segundo plano. Depois acrescenta que um dia percebeu que o ritmo de trabalho que havia se imposto para se dar bem na vida acabou o afastando as pessoas que ele mais gostava, mulher e filho. Sentiu que, ao perceber isso, sua vida entrou no eixo. E tudo que as pessoas precisam é encontrar o eixo de suas vidas. Termina dizendo: "não sei, mas achei que devia te falar isso, não sei por quê". Esse monólogo acontece no último terço do filme, e está ali por um motivo bem simples. No cinema de Beto Brant, inexiste um discurso moral e apaziguador. O pai só disse aquilo porque sentiu que devia dizer. Não foi esse monólogo que mudou a vida do filho. Mas certamente ele serviu para que o filho soubesse que estava próximo de encontrar esse eixo. Não há o discurso falso moralista de que a pessoa precisa parar de se drogar, ou, no caso de Ciro (o filho, vivido por Júlio Andrade), parar de se alimentar mal, de beber a qualquer hora, de levar uma vida relapsa, para se dar bem. O eixo a que se referia o pai é simplesmente uma maneira de viver em paz consigo mesmo, se drogando ou não, bebendo muito ou não, mas nunca deixando de estar próximo das pessoas que se ama. O "não sei por quê" do pai, ou o que quer que ele tenha falado (não lembro as palavras exatas), não impediu que muita gente visse no filme uma lição de moral.
Esse tipo de lição de moral que muitos enxergaram nunca poderia acontecer num filme de Beto Brant. Desde seu primeiro curta, Aurora (1987), uma das características mais marcantes do diretor, com ou sem o crédito de co-direção para Ciasca, é a ausência de qualquer paternalismo e de qualquer relação de causa e efeito na maneira com a qual as pessoas se relacionam. Em Crime Delicado existia o discurso do pintor, que estava longe de tentar uma explicação para o fascínio que residia na principal personagem feminina, assim como estava longe de significar qualquer relação com os descaminhos do protagonista. Era simplesmente um monólogo, a voz dada a um personagem importante do filme. Em O Invasor a coisa se confunde um pouco, pois a idéia criminosa dos sócios acaba prejudicando a vida deles de forma irreversível. Mas aí existe mais o não saber fazer direito do que a relação entre o que foi feito e uma punição moral. Tudo deu errado porque eles não souberam fazer direito, e isso fica bem claro naquele filme. Em Cão Sem Dono, a operação é similar. Ciro entra nos eixos porque teve sorte de ser encontrado a tempo pelos pais durante um coma alcoólico, soube interpretar nisso um risco que estava correndo e decidiu se afastar desse risco. Mas Cão Sem Dono não mostra só essa reação a um risco. Existe também a reação de Marcela (Tainá Müller) quando descobre que está com uma doença grave e corre o risco de definhar aos olhos de Ciro. Ela se despede carinhosamente, mas depois some, deixando Ciro a ver navios, e tendo que administrar sua paixão sem o menor contato que seja, com a cumplicidade efêmera (pelo menos do ponto de vista do espectador diante do filme) de um simpático e carismático motoboy. Naturalmente, depois de um tempo ele pira por paixão. Perde o eixo de sua vida, para só encontrá-lo depois de ser salvo pelos pais e arranjar um emprego numa livraria, já que suas revisões e traduções haviam minguado nos últimos meses.
Talvez a maior força de Cão Sem Dono nem seja a coragem em assumir esse risco de ser mal compreendido - como aconteceu com Elefante, de Gus Van Sant, em que as pistas falsas (compra de armas pela internet, beijo gay no chuveiro, comportamento recluso dos assassinos) eram consideradas relações de causa e efeito. A maior força é mesmo a relação estabelecida em cena entre esses dois atores fantásticos, Júlio e Tainá. A química atingida por eles é algo difícil de se conseguir. Existe uma comoção muito forte na cena em que Ciro se desespera com o sumiço de Marcela, assim como o menor sinal de tédio dela consegue provocar uma tensão silenciosa e sensível. Basta já ter amado para perceber essa tensão. A atuação dele foi muito elogiada, e com razão. Sua naturalidade é impressionante. Mas Tainá Müller tem uma interpretação à altura. Basta lembrar da maravilhosa cena em que eles improvisam poemas deitados na cama. A câmera capta o sorriso de um próximo do sorriso do outro, o arregalar dos olhos de Marcela quando ele diz algo engraçado, o jeitão "não estou nem aí, mas estou apaixonado" dele quando ela começa a rebater as brincadeiras com uma graciosidade apaixonante. A cena em que Marcela canta, com o acompanhamento de Ciro no violão já é fácil uma das grandes cenas do ano. Dá a impressão de que tem uma câmera escondida ali e nós estamos vendo um reality show sem que eles saibam que estão sendo filmados.
Cão Sem Dono não é só o melhor filme de Beto Brant, mas um dos grandes filmes a entrar no circuito brasileiro neste ano (e infelizmente, um circuito limitado). Um filme que se disfarça de pequeno, mas que tem grandiosidade no retrato das emoções humanas, no calor que se percebe nesses personagens tão ricos, tão densos, tão difíceis de serem enquadrados numa classificação reducionista.
Sérgio Alpendre
OS LONGAS ANTERIORES DE BETO BRANT
Os Matadores (1997)

Humor e violência na fronteira, com Chico Diaz e Murilo Benício em estado de graça.
Ação Entre Amigos (1998)

Tentativa mal-sucedida de retratar o sentimento de culpa dos torturadores.
O Invasor (2002)

Muito elogiado, mas é um cinema urbano, político-social e físico que não funciona tão bem na alternância desses registros.
Crime Delicado (2005)

Rigor, paixão e desespero.
(Sérgio Alpendre)