Conceição - Autor bom é autor morto
(Brasil, 2007). De
André Sampaio, Cynthia Sims, Daniel Caetano, Guilherme Sarmiento e Samantha Ribeiro. Com
Augusto Madeira, Jards Macalé, André Sampaio, Isabel Tornaghi, Samantha Ribeiro, Djin Sganzerla, Guilherme Sarmiento. Riofilme. Projeção: 1.37:1. 78 min.

Saneamento Básico, o filme
(Brasil, 2007). De Jorge Furtado. Com
Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Paulo José, Lazaro Ramos, Tonico Pereira. Columbia. Projeção: 1.85:1. 112 min.

“Quem não pode fazer filme de cinema, faz filme sobre cinema” Jairo Ferreira já bem dizia. Dentro do panorama do cinema brasileiro, onde não simplesmente se faz filmes, mas a via-crucis do cineasta inclui uma eterna necessidade de justificar a própria existência do nosso cinema, não é estranho que, de tempos em tempos, nós tenhamos filmes que transpõem esta necessidade de falar sobre o nosso cinema (no começo da década de 90 quando a Embrafilme fechou, Gramado foi vencido por dois anos consecutivos por alegorias bem pouco disfarçadas sobre o cinema nacional, Stellinha do Miguel Faria e Não Quero Falar Sobre Isso Agora, do Mauro Farias, para ficar nos primeiros exemplos que me vêm à cabeça). Por coincidência, dois filmes que fazem valer a frase que abriu este texto acabam de entrar em cartaz. Eles não poderiam ser mais diferentes. Saneamento Básico é uma co-produção da Columbia e Globo Filmes, dirigida por um cineasta consagrado (Jorge Furtado) e com elenco de atores populares, já Conceição foi dirigido por um grupo de ex-alunos da Universidade Federal Fluminense de Niterói, co-produzido por ela e pelo CATV - o que dá ao filme a distinção de ter sido feito com dinheiro público, mas através de um sistema muito distante do das leis de incentivo e editais seguidos pela maioria das nossas produções - cuja figura mais famosa é o cantor/compositor Jards Macalé (quatro dos cinco diretores tem papeis de destaque). Outra diferença grande é que Conceição foi concebido em 98 e teve as filmagens finalizadas em 2000, ficando pronto, após longa e complicada pós-produção, apenas agora, sendo portanto um filme que nasceu em um momento diferente do cinema brasileiro (a despeito do discurso oficial da retomada, o panorama hoje é bem distante do de dez anos atrás). Curiosamente, a melhor e mais sutil piada de Saneamento Básico é justamente o filme se passar em 2006 e logo estar atrasado em relação ao espectador.
Devo também abrir um parêntese e observar que um dos diretores de Conceição, Daniel Caetano, é meu amigo, logo não posso clamar desinteresse pelo filme, ao mesmo tempo confesso que os anos ouvindo falar dele deram-lhe tanto uma certa aura mítica quanto um forte receio a respeito da sua possível qualidade (“nos enganaram, disseram que se tratava de um filme tosco de faculdade”, reagiu um outro amigo comum nosso quando viu o filme na Mostra de Tiradentes), então de certa forma meu primeiro contato com o filme, se mais próximo do que da maior parte dos seus espectadores, também se deu com um pé atrás bem maior.
As duas principais diferenças entre Conceição e Saneamento Básico são mesmo de visão sobre cinema. Primeiro, de uma forma mais básica, o novo filme de Furtado, como seus trabalhos anteriores, se constrói sobretudo no roteiro e transforma as filmagens num processo de ilustração, animado apenas pelo esforço dos seus atores; enquanto Conceição – que conta com doze argumentistas – tem um formato bem mais livre e um cuidado muito maior com a imagem. Sua melhor seqüência, quando se desliga a luz e seguimos ouvindo o papo dos personagens numa tela escura até que um deles acende um baseado, seria inimaginável no conceito de cinema de Jorge Furtado. Há em Conceição uma entrega e crença na imagem, onde os melhores momentos se resolvem na câmera, onde os diferentes olhares tem um comum uma necessidade de afirmar a relação entre quem está filmando e o que esta sendo filmado.
A outra diferença, talvez ainda mais central, é que Saneamento Básico é um filme que discorre sobre o cinema brasileiro, enquanto em Conceição a questão do nacional nunca é vital (talvez seja neste aspecto que a muito mencionada conexão do filme com o cinema marginal seja mais evidente). A discussão de Saneamento Básico é, no fim das contas, articulada a partir de uma série de questões de interesse bastante restrito, quase como se o tipo de conversa que encontramos em algumas sessões de imprensa e em determinados coquetéis de pré-estreias de filmes brasileiros tivesse sido esquematizada e ilustrada em termos ficcionais. Poucos cineastas brasileiros levam tão a sério a necessidade de pensar sobre o cinema brasileiro quanto Jorge Furtado, que, entre outras coisas, pode se orgulhar de ter o único projeto de filme médio bem sucedido comercialmente no Brasil, já vindo com uma série de filmes que ocupam uma faixa intermediária de público, com a diferença em relação a outros filmes cujo numero de espectadores pagantes estaciona nesta casa de que seus filmes genuinamente buscam ela e não são blockbusters fracassados. Saneamento Básico é a expressão mais direta e clara desta preocupação, o que gera um filme profundamente esquizofrênico um produto realizado de maneira popular que bem visivelmente propõe uma discussão ao qual seu público alvo tem pouco interesse ou nenhum acesso. Estranho filme, que comunica o que suas formas têm de mais agradável, o humor de suas piadas, a inflexão de seus atores, etc., mas que ao mesmo tempo fica gago quando tem que comunicar a tese que esta no centro da sua narrativa e é sua única razão real de interesse. É um filme que rende belos artigos dos chamados formadores de opinião, mas suspeito que tudo que envolve a pergunta “vale a pena o governo investir em cinema num país com problemas até de saneamento básico?” se perca por completo.
O que há de mais assustador a respeito de Saneamento Básico talvez seja justamente como o filme é incapaz de imaginar um mundo para além de sua tese. Há numerosas cenas em que, por exemplo, o casal central discute a sua relação, mas são cenas curiosamente mortas e desprovidas de interesse. Salvo por alguns interlúdios protagonizados por Paulo José e Tonico Pereira, Saneamento Básico é um filme inerte sempre que escapa do filme dentro do filme, terminando completamente preso à camisa de força metalingüística que propõe. Olhando Saneamento Básico é difícil negar que o filme seja um avanço na carreira de Furtado, estamos diante da mesma relativa displicência no trabalho de câmera visto em seus filmes anteriores, mas muito melhor integrada dentro do projeto, o que garante que esta deficiência fique menos evidente do que por exemplo no anterior Meu Tio Matou um Cara. Além disso, o filme sabe camuflar bem melhor a sua necessidade de soar inteligente, o que garante que ele simplesmente não perca o gás no ato final no meio do engasgo de idéias, como acontecia por exemplo em O Homem que Copiava. Por outro lado, o pacto afetuoso com seus personagens que marcava Houve uma Vez Dois Verões – ainda o melhor dos longas de Furtado – e o próprio O Homem que Copiava basicamente desapareceu. Talvez porque por mais simpatia que ele genuinamente sinta pelos seus interioranos, o cineasta só consiga se aproximar deles a partir de um viés paternalista e distante. O que termina por colaborar para a impressão que estamos diante do filme oficial da neurose da classe cinematográfica brasileira.
Oficial é a última palavra que eu usaria para descrever Conceição, que entre suas muitas qualidades tem a leveza, sua impressão de informalidade. Ou seja, Conceição não deixa de ser um antídoto para muito do cinema engravatado que vemos por ai. Não que não seja um filme popular, mas seu projeto popular é bem distante do que o cinema brasileiro tem hoje. Conceição não deixa de ser, afinal, uma chanchada e de se impregnar pelo espírito da mesma. É verdade que o filme tenha uma trama bastante difusa – um grupo de estudantes de cinema conversa no bar sobre os filmes que querem fazer, enquanto vemos fragmentos desses mesmos filmes – e de que ele seja ao mesmo tempo uma coleção de elementos que o cinema brasileiro de um modo geral evita, e que ele possa, por vezes, entrar no terreno da piada interna (o critico que faz a analise do filme no final é interpretado pelo João Luiz Vieira, um dos nossos mais importantes pesquisadores e um dos principais professores da UFF, para pegarmos um exemplo). Ao mesmo tempo, Conceição é contagiante e nos move com sua paixão pelo que filma. Eu me lembro de algumas conversas com o Daniel Caetano na época que eu colaborava com um livro que ele editou sobre um artigo que ele havia denominado “o cinema engasgado”, e eu terminei levando o texto numa outra direção daquela que ele desejava. Vendo Conceição, eu finalmente entendi o que um dos seus diretores queriam dizer por cinema engasgado; o visível desejo por cinema que o filme transpira, a forma com que ele afetuosamente chama seu público para um diálogo. Já que falei das neuroses da nossa classe cinematográfica – e eu não tenho problema nenhum em me incluir como membro dela – é impressionante como uma comédia adolescente americana possa ser escatológica, mas quando um filme brasileiro o é, logo o tachamos de marginal. Suspeito que Conceição iria muito bem no velho Cine Marabá.
Conceição é um filme afetuoso, que não deixa de lembrar bastante o cinema de David Neves (e, como seus filmes, é essencialmente carioca). Trata-se de um filme que capta o espírito de um papo de bar entre amigos e consegue expandi-lo ao longo de toda sua duração. Muito do que vemos na tela nos filmes dentro do filme é de uma profunda crueldade simbolizada principalmente nas excepcionais seqüências em que um sujeito foge de um perseguidor raramente visto e com freqüência representada por uma câmera que se move impiedosa no seu encalço. Ainda assim, este afeto se transfere ao longo de todo o filme, que conclui com uma revolta dos seus personagens cansados de serem tratados com desdém pelos seus criadores. Muito deste equilíbrio que garante uma regularidade ao filme, mesmo nas suas passagens menos inspiradas, deve ser creditada ao brilhante trabalho de montagem realizada por André Sampaio, que consegue tanto nos surpreender quanto manter um projeto surpreendentemente focado, garantindo que o filme se mova e transpire junto a suas personagens mesmo diante das suas maiorias indignidades (o próprio Sampaio, que também é um dos diretores, protagoniza um dos momentos mais cruéis e engraçados, quando despenca de uma escada, num dos mais literais casos de um cineasta brasileiro dando sangue pelo filme).
Sem querer, os autores de Conceição produziram um verdadeiro manifesto por um cinema brasileiro livre, que pulsa e abraça a tudo de uma maneira genuinamente democrática (no lugar da retórica populista que domina nossas discussões). Com um pé em Luigi Pirandello e outro em David Neves, um lado Rogério Sganzerla e outro José Carlos Burle, Conceição é, sobretudo, um filme vivo.
Filipe Furtado