É, João, é Rock!
Festival João Rock leva os Mutantes de volta a Ribeirão Preto
Por Ricardo Alpendre
A cidade de Ribeirão Preto, onde os Mutantes fizeram em 1978 sua última apresentação antes do fim oficial da banda, recebeu sábado, 16 de junho, o grupo em sua glória retomada. Diferente daquele longínquo 1978, quando a banda só trazia da formação original o guitarrista e cantor Sérgio Dias, os novos Mutantes têm formação e repertório baseados em sua fase considerada clássica. Com Sérgio e o irmão Arnaldo Baptista, mais Dinho Leme e Zélia Duncan, apresentam-se desde o ano passado, quando receberam um convite do centro cultural Barbican, de Londres. O festival João Rock, no estádio do Comercial FC, acabou se provando uma situação apropriada para a volta à cidade. Ainda bem que o evento não era futebolístico, porque o gramado do tradicional clube do interior, plano como a superfície da Lua, é de dar dó.
O Festival
Às 16h25min, uma pequena multidão histérica já saudava a entrada do NX Zero. Um show altamente profissional, os garotos com postura de palco impecável, e sua gratidão por estar ali era expressa entre cada duas músicas. Para teens apenas, mas pra lá de competente. Noite querendo chegar, e o Cidade Negra vem ao palco. Toni Garrido realmente desempenha um grande papel como vocalista, inclusive de rock, e sua versão para "Geração Coca-Cola" foi de deixar muito roqueirinho com inveja! O Skank parece ser uma banda que sempre sobe ao palco já com o jogo ganho. O show parece morno em alguns momentos, talvez pelo teor muito pop, mas eles sabem o que estão fazendo. Platéia é com Samuel Rosa mesmo. Inegável.
Pitty tem domínio completo da situação onde quer que esteja, uma das bandas mais coesas do rock nacional, gente que realmente sabe do assunto, letras interessantes, e é altamente carismática. Ela e sua banda estão em ponto de bala para a gravação do CD e DVD ao vivo. O nome de Marcelo D2 não parece tão associável ao termo rock que está no nome do festival. Quem se importa? É mais próximo do rock do que metade das atrações de grandes festivais de jazz hoje estão para tal gênero. E o público geral dos festivais de rock é muito menos roqueiro do que pop, o que por sua vez engloba os raps, dubs e até rocks trazidos pelo ex- Planet Hemp.
O show do Charlie Brown Jr. começa em ritmo de thrash metal e passeia por raps, new metal e o que mais quiserem chamar. Apresentação visceral, pequenas rampas e skatistas no palco como sempre, e Chorão deve ser o vocalista mais gente fina da face da Terra, que mostra a cada frase de música, a cada comentário, que quer fazer por merecer sua legião impressionante de fãs. No backstage e na área para imprensa, depois, assistindo ao show dos Mutantes --"Puta privilégio poder assistir os Mutantes ao vivo, cara!"-- ele foi, como havia sido no ano passado, a pessoa do festival.
Voltou a existir um certo grupo musical capaz de ser considerado revolucionário em seu tempo (ontem e hoje) e provocar na audiência uma perplexidade que faz esquecer até a emoção. São os Mutantes, que encabeçam o festival em meio a datas mundo afora. A abertura com "Dom Quixote", o frescor de "Tecnicolor". Arnaldo (teclado e voz), Sérgio (guitarra e voz), Zélia (voz) e Dinho (bateria) têm uma banda de apoio impecável, que inclui a percussionista Simone Soul dando molhos bem interessantes aos arranjos. "Cantor de Mambo" tem letra atualizada e pra lá de irônica. A intervenção semi-virtuosística de Sérgio em sua Regulus só não se faz notar mais do que a alegria de Zélia Duncan, que de tão incontida é quase acintosa, e é claro que aqui trata-se de um elogio. É como ela diria logo após: "A vida jogou esta oportunidade no meu colo, eu agarrei, e será difícil de me tirarem". Só quem ouviu o disco Jardim Elétrico até desgastá-lo pode compreender o poder da música "Virgínia". Talvez fosse uma minoria entre os presentes, mas a esta hora já se nota o quanto o público do João Rock, muito jovem, quis entender e entendeu os Mutantes. Seja lá de quem a maioria ali era fã, quase todo mundo à frente do palco canta junto "El Justiciero", exceto, claro, nos trechos em que Sérgio Dias desfila seu humor ácido em novíssimos versos. A música precedeu o momento mágico.
Quando Sérgio diz que vem ao palco "o verdadeiro justiciero", quem aparece para espanto e ternura gerais é ninguém menos do que Caetano Veloso, para cantar em voz de tenor (hã, contralto?) sua "Baby" em dueto com Zélia Duncan. Nada perfeito, nada programado. "Eu fiquei nervoso e errei um monte de coisas", diria depois o guitarrista Mutante. As pessoas que amam a música brasileira e presenciaram o encontro passaram por uma experiência única. Fui surpreendido por nosso produtor Franklin e nosso fotógrafo Denis em meu estado de perplexidade absoluta, quase em outro mundo --se esta cobertura fosse escrita por eles, a exemplo da edição anterior do festival, eu seria alvo de piada no texto.
Daí em diante a magia do show dos Mutantes se manteve até o final, e dá-lhe "2001", "A hora e a vez do cabelo nascer", "Top top", Ando meio desligado", "A minha menina" com Sérgio cantando a la Jorge Ben, "Balada do louco" e novo coro de milhares de pessoas. Finalizaram com "Bat macumba" e "Panis et circenses" em clima apoteótico.
Encerrando a festa, a banda Luxúria tocou seu indie-rock para o público que permaneceu após os Mutantes, relativamente pequeno, mas ainda entusiasmado, litros e litros depois de mais de oito horas de farra.
A volta para casa
Ao encontrar Dinho Leme no saguão do hotel, lá pelas quatro da manhã, pergunto ao baterista dos Mutantes sobre a clássica historinha com um diretor do Midem, de Paris, em 1970. "É, o Arnaldo [Baptista] disse a ele: 'Cê sabia que o Dinho é de Rancharia?'". Agora o fã já podia ir dormir em paz.