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(originalmente publicado na edição #6)

Leis de Família
DERECHO DE FAMILIA. (Argentina, 2006). De Daniel Burman. Com Daniel Handler, Arturo Goetz, Julieta Diaz. Imovision. Projeção: 1.85:1. 94min.

As Leis da Família não apresenta grandes mudanças de proposta em relação aos dois primeros longas de Burman (Esperando o Messias e O Abraço Partido). Estão lá a preocupação com o texto, a mesma prreocupação com a herança judaica, o ator Daniel Handler como alterego do cineasta, os mesmos temas (em especial a relação pai-filho), etc. Ao mesmo tempo, a despeito da familiaridade de observarmos um jovem autor com universo tão facilmente reconhecivel, o que se destaca em As Leis de Familia é uma segurança na sua condução que o coloca bem acima dos trabalhos anteriores do cineasta.

Em retrospecto, os primeiros filmes de Burman se revelam rascunhos deste e é justamente essa impressão de obra final realizada até os menores detalhes que diferencia As Leis de Familia. O mais satisfatório no filme é justamente a facilidade com que Burman nos instala no universo dos seus dois protagonistas, pai e filho, ambos advogados de carreiras bem distintas, na maneira com que o cineasta desenha com economia e precisão o ambiente em que estes dois homens se movem. As seqüências no bar que o pai gosta de ir para trabalhar são especialmente felizes neste sentido, fazendo uso da locação e de tiques do proprietário para nos sugerir todo um mini-universo freqüentado pelo pai e, no processo, sobre seus hábitos.

Desta forma, a complexa relação pai/filho (tornada mais complicada aqui pelo protagonista de Burman ser agora ele também um pai) que tanto interessa o cineasta pode existir de forma mais especifica, sem a abstração de ser antes de mais nada um tema. É verdade que nem tudo funciona, com uma tendência a construir cenas com a função exclusiva de explicitar demais aquilo que o arco de ações já deixava claro, prejudicando um pouco o andamento do filme. Ao mesmo tempo percebemos um Daniel Burman que não apenas está muito mais atento, mas com controle muito maior sobre o tempo e fazendo muito bom uso de uma estrutura dramática onde a tensão surge não de conflitos, mas do temor do protagonista de que eles surjam e desarranjem o equilíbrio que construiu ao longo de sua vida adulta. Burman desde o começo tenta se firmar como o cineasta popular de qualidade do novo cinema argentino, aqui finalmente consegue obter sucesso completo neste caminho.

Filipe Furtado
 
     
 
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