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Nem Sansão Nem Dalila
(Brasil, 1955) De Carlos Manga. Com Oscarito, Eliana, Fada Santoro, Cyll Farney, Carlos Cotrim, Wilson Grey. Europa. Formato de tela: 1:1.33.

Dizer que Nem Sansão nem Dalila é um dos pontos altos da Atlântida – e, portanto, muito engraçado – é dizer quase nada. Pois a paródia, aqui, é o meio, o veículo, não a trajetória. Se Carnaval Atlântida (1953) era uma espécie de manifesto programático do estúdio carioca – isto é, um verdadeiro cine-carnaval, filme em negativo – o filme de Manga não fica muito atrás.

Por cine-carnaval entenda-se não apenas os figurinos e cenários de baile (metáfora dos trópicos subdesenvolvidos?), mas sobretudo um cinema de inversão de valores, de uma avacalhação revigorante, antropofágico. O que dizer, por exemplo, da dualidade peruca/cabelo, força real/força imitativa, Hollywood/Atlântida, natural/postiço, verdadeiro/falso? Pois Sansão, aqui, é uma besta, e troca sua peruca (!) por um isqueiro, mais ou menos como se à força física correspondesse esse tanto de estupidez.

É interessante notar, ainda, como Nem Sansão nem Dalila, este filme belo e inculto, trata o saber "ortodoxo". Há um cientista: de fato, ele é sábio, mas somos obrigados a supor que seus conhecimentos ora são inúteis (eles logo caem prisioneiros), ora elitistas (o professor não confia em seu assistente para operar sua máquina do tempo; resultado: eles ainda esta vez ficam presos). E à franca burrice de Sansão (quase infantil: alguém falou de cinema americano?) ou ao conhecimento que produz esta máquina, objeto de conhecimento in loco da História, o filme contrapõe um outro tipo de saber: empírico, da experiência – leia-se: a gaiatice/caipirice de um Oscarito.

Se Nem Sansão nem Dalila não é uma obra-prima completa, é talvez porque essas virtudes sejam mais criações de roteiro (não apenas de semelhança/diferença de entrecho com o filme americano), e menos de mise-en-scène. Ao artesanato de Carlos Manga ainda é frouxo neste seu terceiro filme. Neste sentido, De Vento em Popa e O Homem do Sputnik resolvem melhor o dilema avacalhação (típica das chanchadas) X ritmo e precisão das gags.

Poderíamos falar ainda de algo ainda mais evidente, a alegoria política: a sátira a Getúlio e às mazelas nacionais – corrupção, autoritarismo, etc. – estão lá, para quem quiser ver, assim como o populismo e o golpe de estado militarista. O lado mais contundente do filme, no entanto, remete (mas não se encerra) ao próprio cinema: a cultura, como já foi dito, foi a política do século 20.

São estes pequenos achados que fazem de Nem Sansão nem Dalila, ainda aos olhos de hoje, uma obra-prima – ao contrário das tranqueiras de paródia conhecidas via youtube.

Juliano Tosi

 
     
 
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