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Noel – Poeta da Vila
(Brasil, 2006). De Ricardo Van Steen. Com Rafael Raposo, Camila Pitanga, Flávio Bauraqui, Wilson das Neves. 100 min.

Comparativamente, temos poucas cinebiografias. Na música, ainda menos, e diante de farto material a tirar do baú: Carmen Miranda, Maysa, a Bossa Nova, o Tropicalismo, Os Mutantes, Raul Seixas, Tim Maia... Trajetórias invulgares de artistas que poderiam, em mãos de talento, render retratos definitivos. O de Sandra Werneck sobre Cazuza é sensível, embora respeitoso demais para a vida de um ícone do desregramento. Mas é um bom filme, uma cinebiografia que não deve nada às boas produções internacionais do gênero. Resultado a que este Noel – Poeta da Vila não consegue chegar.

Em boa parte do filme, tive a impressão de estar diante de um desses constrangedores “especiais” da Globo, que já irritaram fãs de Elis Regina e Renato Russo. Dramaturgia rasa, cenários de comercial de cerveja, atuações irregulares. Noel Rosa merecia coisa melhor: pioneiro do samba moderno, precursor das letras despojadas, sem os sentimentalismos aboleirados que imperaram até a passagem dos anos 50 para os 60, morto jovem, vítima de um organismo fraco, castigado pela rotina de cigarro, cerveja e muita madrugada.

Quando a trama passa a se concentrar no caso extraconjugal de Noel (Rafael Raposo) com a “dançarina” Ceci (Camila Pitanga), o filme encontra um rumo e começa a prender a atenção. Camila é uma atriz-fetiche e o papel de mulher fatal paradoxalmente frágil, musa de um poeta tuberculoso, cai-lhe bem. É apaixonante como sempre. Rafael, seu par, é esforçado e transmite amor ao personagem, que interpreta com leveza, embora exiba uma tosse de teatro infantil.

E estamos no terreno dos grandes sambas de Noel, Ismael Silva, Mário Reis, Cartola... de modo que um amor desajeitado e proibido como o de Noel e Ceci, com esta trilha sonora ao fundo, tem seu apelo e faz com que, no fim das contas, o conjunto valha o ingresso. Uma meia-entrada pelo menos. Uma sessão de quarta-feira.

O que não passa despercebido é que o filme de Van Steen não dá um passo além do convencional, seja na narrativa, seja na iluminação, limpinha demais, este vício da produção publicitária de que alguns diretores malogram em se livrar. Daí a contínua impressão de que vemos um especial da Globo. Mais caprichado, menos piegas, mas quase nada além disso. Noel merecia mais.  

Alexandre Carvalho dos Santos

 
     
 
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