O Despertar de uma Paixão
THE PAINTED VEIL. (EUA/China, 2006). De John Curran. Com Naomi Watts, Edward Norton, Toby Jones, Diane Rigg, Anthony Wong, Liev Schriber. Imagem. Projeção: 2.35:1. 125min.

A maneira como a historia de cinema – e de maneira mais radical a crítica de cinema – evolui tende a ser cruel com certas formas. Houve um momento em que críticos ainda pediam desculpas pela vulgaridade com que Hollywood profanava tão promissora arte, em que poucas coisas eram mais dignas do que o “filme literário”. O tempo passou, até mesmo faroestes viraram objetos dos mais defensáveis e a idéia de encontrar valor no lado mais grosseiro de Hollywood há muito deixou de ser alienígena (a despeito dos inevitáveis esnobes). E o “filme literário”, aquele gênero nobre, se tornou um estorvo, muito por conta da velha tática crítica de desvalorizar um certo tipo de arte para melhor valorizar outra. O Despertar de uma Paixão termina soando, para muitos, cadavérico, basicamente pelo tipo de gênero a que se filia, o que não é tão distante de torcer o nariz para um faroeste em 1934.
John Curran parece apreciar o gênero, seu filme anterior Tentação – que era menos bem sucedido – já seguia o formato numa roupagem mais contemporânea. O que Tentação já indicava e este O Despertar de uma Paixão mais do que comprova é que Curran é muito bom em captar o específico de cada cena. Curran tem um bom olhar para a linguagem corporal dos seus personagens e ele sabe preencher suas seqüências de maneira que elas estabeleçam um sentido de lugar e momento. O Despertar de uma Paixão nunca padece da impressão de que as imagens existem antes de mais nada como um catalogo de direção de arte (um mal que prejudica com freqüência os filmes de James Ivory, por exemplo). O filme faz excelente uso do seu bom elenco de apoio (em especial Toby Jones e Anthony Wong) para sugerir que seu drama central transcorre num ambiente rico e Curran sabe fazer bom uso da paisagem chinesa (e ele acerta a mão na ambientação da pequena vila onde o grosso da ação transcorre). O Despertar de uma Paixão tem alguns problemas graves, sua primeira metade é bastante irregular (especialmente os flashbacks que estabelecem a relação do casal de protagonistas) e Edward Norton é um tanto egocêntrico demais para interpretar o marido entediante que o texto pede e isto por vezes atrapalha a construção dramaturgica do filme. Poderíamos imaginar o mesmo material nas mãos de um King Vidor rendendo uma obra-prima, mas Curran extrai mais do que o suficiente dele para lhe fazer justiça.
Filipe Furtado