homeSeçõescontatoquizlinksAssine a Paisàanuncieonde comprar

 

Quebra de Confiança
BREACH. (EUA, 2007). De Billy Ray. Com Chris Cooper, Ryan Philippe, Laura Linney, Dennys Haysbert. Paris. Projeção: 2.35:1. 110min.

Billy Ray faz filmes como se fizesse jornalismo investigativo. Ele observa casos verídicos, faz uma ampla pesquisa e apresenta o que colheu de forma mais direta possível. Quebra de Confiança é um filme seco, sem tempo para qualquer gracejo de direção. Chamem-no de aborrecido, mas há algo de sedutora na mise-en-scène neutra que Ray busca, na sua crença numa imagem exata não contaminada nem por um ponto de vista, nem pela ficção. Claro, que trata-se de um jogo que Ray está destinado a perder, mas o processo é fascinante. Um olhar preguiçoso e desinteressado se referiria a Quebra de Confiança como um “filme de roteirista”, mas é preciso muita convicção no que filma para chegar a austeridade ilustrativa que Ray busca.

O Preço da Verdade, o primeiro longa de Ray, era sobre um jornalista honesto, íntegro e desinteressante tentando provar que seu charmoso colega fazia ficção passar por notícia. Este seu segundo longa tem um agente do FBI honesto, íntegro e desinteressante tentando provar que seu chefe – uma figura muito mais charmosa e envolvente – trabalha a muitos anos como agente duplo. Ambos os filmes são baseados em fatos reais bastante divulgados na imprensa americana e tem em comum a mesma abordagem circular sobre seus monstros morais. Há da parte de Ray uma completa recusa em fabular sobre estas figuras. Ele pode nos mostrar em detalhes a vida dos bons moços que ajudaram a expô-los (e que em ambos os casos foram consultores na realização dos filmes), mas no centro da narrativa eles permanecem um enigma: raramente vistos em privado, seus motivos nunca são sublinhados. A única coisa que retiramos destes enigmas é o que seus interpretes optam por revelar. No caso de Quebra de Confiança, um Chris Cooper especialmente inspirado, se aproveitando das varias contradições do verdadeiro Robert Hanssen, um homem que dedicou a vida toda a atacar em privado tudo que a sua imagem pública defendia. Ray faz vários movimentos interessantes ao longo do filme; a maneira como tudo no escritório de Hanssen é controlado e encenado pelos agentes do FBI de forma que o dia a dia do sujeito se tornou concretamente a farsa que ele há anos já vinha preparando é especialmente bem sacada, e a relação entre Cooper e Philippe (cuja inexpressividade jamais havia sido posta para tão bom uso) é muito bem delineada. Ainda assim a força principal do filme permanece ligada à sua recusa de iluminar tal figura, de mantê-la envolta em seu mistério.

Filipe Furtado

 
     
 
© Algo Mais Editora Ltda.