Ratatouille
(EUA, 2007). De Brad Bird. Com
Patton Oswalt, Lou Romano, Ian Holm, Peter O'Toole, Brian Dennehy. Buena Vista. Projeção: 2.35:1. 110min.

Não há forma mais industrial de cinema do que a animação, que envolve uma linha de produção muito mais ampla e por conseqüência uma dificuldade maior de controlar. Logo, com raras exceções (Myazaki, Avery) pouco pensamos em animação em termos de autor; por isso é surpreendente como Brad Bird, surgindo em meio a grande produção de animação americana (e dentro do seu principal celeiro, a Pixar), se afirmou como figura de ponta nesse cenário. Todos os três longas de Bird (além deste Ratatouille, ele é responsável por Os Incríveis e pelo ótimo, mas pouco visto, O Gigante de Ferro) são grandes espetáculos infantis, ao mesmo tempo populares e construídos com um certo cuidado e um toque particular que os separam do resto da produção, incluindo os demais filmes da Pixar. No que cabe à animação infantil para as massas, os únicos genuínos rivais de Bird hoje são Myazaki e Nick Park.
Ratatouille se difere de outros filmes de Brad Bird por não ter sido um projeto iniciado pelo cineasta, mas que ele herdou já com o seu desenvolvimento bastante adiantado, o que torna impressionante como o filme afirma o toque de Bird, inclusive tornando tudo uma bela alegoria afirmativa sobre o fazer cinematográfico, onde as crenças do cineasta são reafirmadas. Ratatouille também é único quando pensamos que se trata de um blockbuster que faz isso através de um viés nada típico. Primeiro, o filme é sobre a alta cozinha francesa, e não apenas isso, mas também um filme onde a única imagem mais assustadora para seu ratinho protagonista do que a de uma vitrine cheia de ratos mortos por ratoeiras, é o prospecto de passar o resto da vida criando linhas de fast food (o mesmo fast food onde afinal a Pixar e sua maior rival Dreamworks geralmente estabelecem parcerias a cada novo filme). É também um filme cujo prazer da criação é celebrado numa extensão rara, com especial destaque para a importância da figura criativa que conduz o processo. Ainda mais incomum: trata-se de uma superprodução sobre o processo criativo em que a moral final é dada por um crítico (cuja caracterização parece uma resposta a A Dama na Água, de M Night Shyamalan, um filme que lida com alguns dos mesmos temas de Ratatouille com resultados bem menos expressivos). A seqüência em que Anton Ego (num belo trabalho de voz de Peter O'Toole) escreve a crítica no final é um dos momentos mais bonitos do filme, ao mesmo tempo óbvio e inesperado e diz muito sobre o olhar de Bird que ele reescreva o ditado populista e bem Disney do guru culinário do ratinho (“qualquer um pode cozinhar”), para algo como nem todo mundo pode produzir grande arte, mas grande arte pode vir de qualquer lugar, que consegue ser ao mesmo tempo duro e profundamente generoso.
Poderíamos passar um texto inteiro afirmando as virtudes dos temas de Ratatouille, mas isto seria perder o que torna este filme especial. Porque a arte de Bird se afirma nos detalhes, na maneira como ele consegue incluir injeções de inesperado no seu filme. Ratatouille afinal é um filme sobre um ratinho que se recusa a simplesmente limpar os ratos e antropomorfizá-los por completo, há algo do nojo dos ratos que persiste no meio desta animação Disney: a imagem de um mar de ratos desfilando por uma cozinha ao mesmo tempo é deliciosamente divertida e algo incômoda. Ou a maneira que o filme investe na sua longa duração, ou ainda nas dificuldades de comunicação entre os personagens. O final, onde Bird opta por não apagar na fábula as implicações mais complexas da situação fantástica dos seus personagens, é só a última afirmação do toque de seu autor.
Filipe Furtado