A Mulher do Aviador
LA FEMME DE L'AVIATEUR. (França, ). De Eric Rohmer. Com Philippe Marlaud, Marie Riviére, Anne-Laure Meury. Europa. Formato de tela: 1.66:1. 108min.
“Queria fazer algo hoje e não sabia o quê”. François declara isso em certo momento do filme, explicando a Lucie o motivo de estar seguindo o casal. E é bem por aí. A partir dessa frase é tentador pensar na relação da atitude de François com o filme que Rohmer está fazendo. Ambos não parecem propriamente aficionados por um elemento específico, e sim pelo simples fato de “querer fazer algo”, de observar ações sem necessariamente julgá-las ou, e principalmente, tirar conclusões a partir delas. Mas, é claro, as ações não são de uma gratuidade absoluta. Elas surgem, sim, quando menos esperamos (nós e os personagens), porém são todas fruto de uma urbe em pleno fervor. A câmera de Rohmer vê nessa Paris do início da década de 80 um mundo um tanto quanto louco e, por vezes, agitado demais. Mas há um encantamento com esse lugar onde, apesar de toda a movimentação, as histórias e pessoas se cruzam o tempo todo; e assim, Rohmer traça um painel imagético da vida urbana dessa Paris. Pois, enquanto a narrativa segue seu rumo, o cotidiano parisiense se faz sempre presente, com ruas, estações de metrô, velhinhas com cachorro, crianças no parque, turistas tirando fotos, etc.
“A Mulher do Aviador ou é melhor não pensar em nada”. Isso é o que aparece quando surge o crédito anunciando o título do filme. E os personagens seguem esse conselho fielmente; eles não pensam, eles agem. Os abalos sentimentais, angústias, anseios, não são interiorizados, eles são, imediatamente, transformados em ações. Qualquer sentimento de um personagem não recebe nenhuma conclusão psicológica do seu realizador, eles são, com maestria absoluta, transformados em mise-en-scène .
O filme é sobre Paris, sobre seus habitantes, sobre a encantadora Lucie, que surge como um elemento importantíssimo, com sua curiosidade, jovialidade e inquietação, incentiva François a continuar a busca pela sua dramaturgia, não deixando a história morrer; e sobre uma infinidade de coisas mais... Ao final resta a certeza da dúvida. Sabemos que aquela Paris fervilha milhares de outros acontecimentos como os que presenciamos; sabemos também que é impossível concluir qualquer coisa sobre os sentimentos de Anne, François, Lucie e Christian – as incessantes mudanças de humor e de atitude só nos deixam o grande prazer da incerteza. E François encontra mais uma dramaturgia para seguir. Vai atrás dela. Mas pára, sabendo que é hora de terminar a que começou. Ele manda o cartão encerrando aquela história e deixando Rohmer terminar seu filme. “Paris seduziu-me, Paris traiu-me, arrebatou minhas esperanças e ilusões (...) a vida da grande cidade, frente a selvagem incerteza do destino”. Resta o foco na infinidade de possíveis e encantadores novos contos parisienses.
Francisco Guarnieri