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Em Busca da Vida
SANXIA HAOREN/STILL LIFE. (China, 2006). De Jia Zhang-ke. Com Han Sanming, Zhao Tao. California. Projeção: 1.66:1. 108min.

O rio Yang-tsé, um dos maiores rios do mundo, é também chamado de Rio Azul. Nasce no Tibete e atravessa a China do oeste ao leste, indo até o Mar Amarelo, próximo a Shangai. No seu curso, na China central, foi construída a represa das Três Gargantas, a maior obra hidroelétrica do mundo, que interrompeu uma série de inundações que ocorriam na região, mas não conseguiu evitar as inundações que acontecem em vários outros trechos do rio, nem os altos índices de poluição que se encontram em suas águas. O rio Yang-tsé, com suas águas calmas e sujas, e sua beleza estranha e imponente, é um dos principais personagens de Em Busca da Vida. É nele que ocorrem os vai e vens que são insinuados no título nacional. E ele aparece enevoado, misterioso, justificando por si só o título internacional que o filme recebeu (a tradução mais usual de "still life" é natureza morta). Morta por quê? Por causa de suas águas poluídas, que ameaçam matar o rio em poucos anos? Pela construção da represa, que deixou cidades seculares embaixo da água e obrigou o governo a fazer um número absurdo de assentamentos? Por encerrar sonhos e procuras, em seus caminhos rodeados de montanhas? Pode parecer clichê, ou uma afirmação pra lá de manjada, mas Em Busca da Vida é o tipo de filme que te entrega muito mais perguntas do que respostas, e é geralmente desse manancial de perguntas sem respostas que encontramos o que de melhor o cinema pode nos oferecer.

O novo filme de Jia Zhang-ke, cujo trabalho anterior, O Mundo, foi incrivelmente desprezado pelo nosso circuito - apesar do enorme sucesso nos festivais -, talvez seja o que melhor sintetize a carreira inquieta e brilhante do diretor, mais convicto dos caminhos que deseja percorrer. Novamente temos a fotografia exuberante - sem deixar de ser funcional - de Yu Lik-wai - parceiro de Jia desde O Batedor de Carteiras, seu primeiro longa-metragem. Suas imagens ajudam a imprimir o tom de fim de ciclo que predomina no filme. Porque Em Busca da Vida mostra um mundo que está se metamorfoseando lentamente, sem que percebamos. Ou melhor, percebemos um mundo de uma aparente falência de valores, e a consequente predominância da lei do mais forte. Um mundo em que uma mulher tem que se prostituir com a anuência do marido. Um mundo em que as pessoas fogem uma das outras, e, quando se arrependem, têm que suar a camisa para reencontrá-las. Um mundo principalmente de hostilidades e afinidades onde menos se podia esperar, em que um pseudo-gangster pode se tornar um grande amigo, e a luta desumana dentro do mercado de trabalho não necessariamente deixa vivas as hostilidades iniciais.

Mas também é um mundo surpreendentemente novo - mesmo que envolto por uma cultura milenar - que se abre para o ilusório e para o mágico, sem que esses elementos entrem como peças desnorteadoras. Eles apenas aparecem, efêmeros, como fenômenos de uma outra natureza, mas que está muito viva e insiste em mostrar suas forças - o disco voador, o foguete que mais parece um brinquedo Lego, o homem se equilibrando numa corda suspensa entre prédios em ruínas, um menino cantante que aparece em momentos díspares do filme. Elementos que encontram um paralelo na situação dos personagens. O mundo de Em Busca da Vida parece se desmantelar para que um outro mundo tome seu lugar. Só que nós não vemos muito bem esse outro mundo. Sentimos sua presença, sentimos que ele se impõe irreversivelmente, mas vemos apenas as pessoas tentando se moldar a essas mudanças.

Nesse mundo em transformação, vemos Han Sanming, um homem simples que procura sua filha - que seguiu com sua ex-mulher, a quem não vê há dezesseis anos, para a região da represa. Ele se instala por lá, faz amizades; encontra pessoas perdidas ou arrependidas como ele, se diverte com espetáculos populares, trabalha como demolidor - um trabalho que não falta na região - e pergunta constantemente pela filha e pela ex-mulher. Depois aparece uma outra mulher, que procura seu marido, a quem não vê há três anos. É um personagem secundário, mas não menos importante, a quem o filme dedica mais ou menos um terço de sua duração, no centro do filme. A busca dos dois personagens é tocante, e se dá em ritmo e estilo caros ao cinema inicial de Jia, muito mais próximo de Plataforma do que de O Mundo. A própria idéia de desencanto que permeia o filme parece retomar o tom de Plataforma. Só que não um desencanto permanente, um desmoronamento dos sonhos, a sensação de que não há saída. O que vemos em Em Busca da Vida é a constante procura. Por amores do passado, por novos rumos, novos lares, novas comunidades. Vemos, acima de tudo, uma vontade muito grande de sobrevivência, de começar do zero, mesmo que a vida pareça por vezes no limiar da desgraça, ou do fim dos sonhos, como bem ilustra a imagem final - a necessidade de equilíbrio constante.

O filme adquire, assim, um aspecto de filme súmula, carta de intenções de um crepúsculo social, já insinuado em Prazeres Desconhecidos, nem sempre visível e nem sempre sensível. Enquanto a China anda a passos largos para ser a nova grande potência mundial, muitos de seus habitantes conhecem a face fria das corporações, a dura realidade do progresso, e o preço alto a se pagar por ele. Em uma cena emblemática, um figurão ordena que seu caríssimo projeto - uma ponte sobre o Yang-tsé, tenha suas luzes acendidas, formando um espetáculo visual impressionante, que interrompe a harmonia escura entre o céu noturno e o rio. A potência financeira parece surgir da necessidade exibicionista de alguns de seus agentes, é o que se pode concluir com essa cena.

Mas seria equivocado inserir o filme de Jia Zhang-ke em uma redoma política desesperançada. O crepúsculo maior é o das ações causadas pelas emoções das pessoas. Não há mais espaço para essas ações existirem. As pessoas parecem já preocupadas o suficiente com a própria sobrevivência, trabalhando onde e como der para poder se alimentar e ter um teto para dormir sob ele, em meio a tantos tetos que são demolidos. Mas a insistência abre seus corações, faz com que as informações sejam dadas, que as pessoas sejam encontradas. Há certa esperança nesses deslocamentos, nesses viajantes constantes. Estão todos navegando pelo Yang-tsé, prisioneiros de uma eterna procura por um mundo melhor.

Sérgio Alpendre
 
     
 
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