Tropa de Elite
(Brasil, 2007). De José Padilha. Com Wagner Moura, André Ramiro, Caio Junqueira, Fernanda Machado, Milhem Cortaz. Universal. Projeção: 1.85:1. 110min.

O registro policial
Um filme-evento como Tropa de Elite pode provocar discussões tão ricas que há o perigo de esquecermos o filme, seus procedimentos para chegar ao espectador e sua proposta estética, em favor de tudo que o circunda, fazendo com que seus méritos estritamente cinematográficos fiquem soterrados por cargas de argumentos e posições sociais. É claro que esse é um mérito que não lhe podemos negar. Mas imaginemos que o Brasil fosse um pais mais resolvido economicamente, e com bem menos problemas sociais, o que faria com que a falência da segurança pública fosse bem menos sentida. Se é impossível, tentemos então abstrair tudo que vemos nos noticiários, ou mesmo andando na rua, ou seja, esquecer o entorno para ver se o filme se sustenta como um eficiente policial, esse gênero tão americano, e que os franceses souberam emular com os mais variados resultados. Podemos dizer com segurança que Tropa de Elite se dá muito bem nesse teste informal. Mais do que se sustentar, o filme de José Padilha é certamente dos melhores já feitos por aqui dentro desse gênero.
Com câmera na mão, mas sabendo buscar a expressão do ator sempre que precisa - ao contrário de Ultimato Bourne, no qual a imagem é tremida o tempo todo, mesmo em cenas calmas de diálogo, unicamente para se filiar a um cinema mais urgente -, ou seguindo os atores por becos e escadas nos morros, Padilha constrói a narrativa com alguns recuos no tempo, especialmente na primeira metade, para mostrar pontos diferentes que iriam levar ao envolvimento do real protagonista - André Matias (André Ramiro) - com o BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais). Enquanto acompanhamos em imagens sua trajetória na polícia, que é simultânea à sua tentativa como estudante de direito, a narração em off do Capitão Nascimento (Wagner Moura) nos situa em seus planos para conseguir um sucessor que o liberte do trabalho perigoso dentro do batalhão. É um capitão em crise, sua narração é onipresente, não deixa que nos distanciemos dele. Os recuos no tempo servem para compôr os personagens, revestí-los de motivos emocionais para os desenvolvimentos que vemos na tela, e só acontecem até o ponto em que Matias, junto com seu amigo de infância, Neto (Caio Junqueira), são recrutados para o curso do BOPE. A partir de então vemos todo o processo de desumanização pelo qual passa André, uma espécie de lavagem cerebral que o prepara para a guerra.
O envolvimento com o entorno
Mas se Tropa de Elite convence como um ótimo policial, é impossível não reconhecer que ele se enriquece com o entorno, como o estado das coisas ao nosso redor. O filme é brilhante na radiografica de uma situação caótica em que vivemos, e parece nos dar vários lados possíveis de abordagem dessa situação. Só que ele não expõe o caminho para possíveis soluções. Na verdade, dada a impossibilidade de se fazer isso no momento, ele apenas constata, e nos coloca bem no cerne dos mecanismos de sua constatação. O filme vai a campo, colhe depoimentos, flagra as seqüelas, como um documento preciso de uma época e de um lugar.
Numa seqüência importante, acompanhamos, na faculdade, o final de um seminário sobre Foucault realizado por um grupo formado, entre outros, por André. A discussão inevitavelmente o atinge quando sua futura namorada usa o exemplo da polícia como instituição que protege os ricos e oprime os pobres. Toda a classe parece se unir para massacrar em coro a corporação policial do Rio de Janeiro, para o desespero de André, que tenta, em vão, defender seu ponto de vista. Seu argumento passa pela idéia de que os maconheiros da zona sul causam, indiretamente, a morte de diversas crianças vítimas do tráfico. É um fato que o filme não teria como desenvolver em suas quase duas horas. Não ajuda que todos os alunos tenham a mesma posição sobre a corporação policial, sem nuances que dariam a cena maior veracidade, mas Padilha foi muito inteligente em fazer com que o maniqueísmo estivesse mais presente na classe mais privilegiada, a dos estudantes burgueses. Embora André seja incapaz de defender a polícia, sabemos que sua posição sobre o assunto calou, ao menos momentaneamente os demais alunos, todos boquiabertos por terem sido levados ao banco dos réus. No filme, e num primeiro momento, a questão foi abortada pelo choque, antes de ser aprofundada. Uma cena posterior, durante uma festa de bem nascidos, mostra que alguns alunos estavam ainda remoendo as duras palavras de André: um deles, para provocar o policial enrustido, coloca a música " Polícia", dos Titãs, uma crítica direta à corporação. Curiosamente, é durante o refrão "polícia, para quem precisa, polícia, para quem precisa de polícia" que André dá seu primeiro beijo na voluntária da ONG vivida por Fernanda Machado, com a qual iria iniciar um romance. São acontecimentos rápidos que acontecem com André, e que ajudam a anestesiá-lo, a deixá-lo mais receptível à lavagem cerebral que ele irá sofrer.
Questões sem respostas
Uma das maiores qualidades de Tropa de Elite reside nessa capacidade de provocar, de levantar problemas, de fazer com que cada espectador procure suas respostas. Entre um lado e outro da sala de aula está, implícita, a discussão sobre a legalização das drogas. Mas que drogas legalizar? Haveria um limite para a legalização? A simples presença de um limite não faria com que se traficassem exclusivamente drogas mais pesadas? Ou simplesmente toda e qualquer droga seria legalizada?
E a maior entre as muitas sacudidas que Tropa de Elite dá no público é sua eficácia na instalação de um clima de guerra civil. Padilha consegue captar muito bem o clima de insegurança que reina numa cidade como Rio de Janeiro, e se utiliza desse clima construído pela dramaturgia seca para desenvolver um policial de força rara em nosso cinema. A narrativa tem peso, mas faz com que o tempo passe rápido. Os personagens, mesmo os menos desenvolvidos, encontram seus ecos em nossas experiências, as escolhas se alterando pela ausência de rumos, pela certeza de que é necessário adotar uma postura muito mais enérgica. Nos projetamos nas entranhas do filme, como personagens que ele não mostra - a classe média em certo ponto letárgica, que pouco faz para que situações de caos mudem. Como a classe média pode mudar a situação do tráfico? Como as elites lucram com a criminalização das drogas? Como enxergar um caminho para a saída desse emaranhado de coisas erradas? O filme é um vômito de perguntas incômodas, que espera por respostas, ou melhor, por tentativas de respostas. Mais interessado no que se pode fazer para lidar com o caos do que com a solução drástica e falsa do BOPE, e não é necessário uma outra narração para entendermos que a voz do Capitão Nascimento é a voz de quem já passou pela lavagem cerebral, de quem não acredita em outra solução que não passe pelo caminho da violência.
Besteira dizer que o filme faz a apologia da tortura de bandidos, ou mesmo dos padrões de ação do BOPE. Tudo de ruim que vemos na tela está sem verniz, sem filtros. Como o próprio Padilha declarou, ele não precisa mostrar que a tortura é ruim, ela já é intrinsicamente algo nocivo. Como a catarse é possível, alguns espectadores vibram com as cenas de violência. O filme tem mesmo uma construção que permite a identificação de alguns com o Capitão Nascimento. Mas esses que vibram levam um tiro na cara simbólico no final.
Sérgio Alpendre