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A Moça com a Valise
LA RAGAZZA CON LA VALIGIA. (Itália, 1960) De Valério Zurlini. Com
Jacques Perrin, Claudia Cardinale, Romolo Valli, Gian Maria Volonté. Versátil. Formato de tela: 1:85:1. 111 min.

Ao vermos A Moça com a Valise impressiona como um filme à primeira vista tão delicado se constrói todo a partir de mentiras. Claudia Cardinale aparece à porta de Jacques Perrin atrás do irmão dele e a pedido do mesmo, ele engana-a dizendo que ela tem o endereço errado. O resto do filme se constrói a partir da promessa de Perrin de ajuda-la a localizar o sujeito que a teria enganado e Cardinale fazendo de contas que não percebe que o jovem garoto que a ajuda não tem segundos interesses nela. A arte de Zurlini se desenvolve no não-dito deste desentendimento, ambas as partes – apresentadas pelo cineasta de forma bastante simpática – tentando de alguma maneira se beneficiar da outra e destinadas, o filme nunca nos deixa nenhuma dúvida, a falhar.

A Moça com a Valise, como todos os filmes de Zurlini, é uma obra desesperada. O cineasta é o complemento amargo da obra de Roberto Rossellini. Ambos os homens foram muito marcados pela experiência da II Guerra e pela idéia de restauração da Itália que persistiu no primeiro momento do pós-Guerra, antes da Guerra Fria bater e transformar a solidariedade da resistência num salve-se quem puder de múltiplos interesses. Se Rossellini é o homem que se lança a fundo em realizar um processo de restauração, Zurlini é o homem que veio depois cuja crença já nasce maculada pela idéia do fracasso. A obra de Zurlini é fantasmagórica, boas intenções sempre nascem erradas, o passado esta sempre a alcançar seus personagens e ninguém escapa impunemente. Ao mesmo tempo há sempre um vívido desejo pela restauração, por um processo de purificação. Jacques Perrin não era o ator favorito de Zurlini por nada, há nele uma facilidade em expressar fragilidade que poucos atores alcançam. Basta ver o espetáculo de Perrin tentando bancar o adulto diante de Claudia Cardinale quando ambos saem à noite num encontro que claramente não vai terminar bem. Filmes se lançam neste tipo de cena com grande freqüência, mas raramente atingem com tanta precisão o que significa ser um adolescente tentando passar uma imagem madura. Enquanto a cena prossegue interminável e o rosto de Perrin se torna progressivamente mais certo de que, não importa como ele se vista ou se comporte, será apenas “o garoto” fica mais claro como Zurlini era um mestre em traduzir concretamente experiência humana. Toda a obra de Zurlini é um mergulho nessa experiência da Itália do pós guerra, de almas desesperadas e soldados feridos. Ele é um gigante e o lançamento da sua obra em DVD é uma das grandes notícias do ano.

Filipe Furtado

 
     
 
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