Verão Violento
ESTATE VIOLENTA. (Itália, França, 1959). De Valerio Zurlini. Com Jean-Louis Trintignant, Eleonora Rossi Drago, Jacqueline Sassard. Versátil. Formato de tela: 1.33:1. 99 min.
O lançamento da obra integral de Valerio Zurlini em DVD, que deve se completar no ano que vem, talvez faça justiça a esse que é um dos maiores diretores do cinema, mas poucas vezes é assim reconhecido. Este Verão Violento é, junto com Dois Destinos , o momento máximo de sua carreira. Nele acompanhamos a paixão entre um jovem de férias, Carlo (Jean-Louis Trintignant), e uma mulher mais velha, Roberta (Eleonora Rossi Drago), que acaba de perder o marido na Segunda Guerra Mundial. Existe ainda Rosanna (Jacqueline Sassard), que ama Carlo, e sofre quando percebe que ele está em outra. O verão do título é o de 1943, quando os italianos pressentiam que a guerra estava perdida, e que os anos futuros não seriam nada fáceis. Zurlini abraça uma série de emoções e amarra seu filme com muita habilidade, mas são os detalhes de gênio que se sobressaem. Esses detalhes podem ser percebidos em três seqüências paradigmáticas da excelência do cinema do diretor:
1. No início, durante os créditos iniciais, ouvimos uma música grave, que ressoa o pesadelo da guerra. Ainda durante os créditos, essa música grave se transforma em uma melodia melodramática, conforme vemos que a embarcação que acabava de chegar trazia um soldado ferido. Essa mesma mudança acontecerá dez minutos depois, quando a menina assustada encontra o abraço protetor de Carlo (Jean-Louis Tringtinant), e a mãe (Roberta, vivida por Eleonora Rossi Drago) que foi para socorrê-la encara pela primeira vez o rosto afetivo de quem abraçava sua filha. É um momento que mudará a vida deles, e a música dá conta dessa transformação.
2. Durante uma apresentação circense, todos estão na platéia. Carlo, Rosanna, Roberta, e todos os amigos de Carlo e Rosanna. Acaba a luz, e a única que recebe um pequeno faxo luminoso é Rosanna. Em seguida, um amigo de Carlo acende um fósforo, iluminando o rosto da sobrinha de Roberta. Esta pergunta à tia se ela tem uma lanterna. Ao tirar a lanterna da bolsa, e ligar, o feixe de luz atinge diretamente Carlo, que a encara com firmeza. O contracampo acontece justamente quando volta a luz, aos poucos, captando o belo rosto de Roberta, a encará-lo de volta, já entregue a um amor que ela queria evitar. É uma aula de dramaturgia, de incidência de luz, posicionamento de câmera, corte. Zurlini faz o básico, e esse básico é perfeito.
3. A célebre seqüência na casa de Carlo, quando os olhares se entrecruzam cheios de desejos, piedade, melancolia, ciúme, paixão, despeito, praticamente um emaranhado de emoções humanas perpassa todo esse momento mágico. Os planos dessa seqüência se constroem de duas maneiras: uns são constituídos de duas pessoas, um homem e uma mulher, conforme Carlo vai abrindo as portas do hall principal, deixando a luz do luar entrar. Depois, quando eles vão observar um sinalizador no céu, o quadro se constrói com todos os personagens entrando pouco a pouco, sendo que Roberta é a última a entrar, e se coloca em primeiro plano no quadro, logo atraindo o olhar de Carlo, disposto mais ou menos no centro da tela, só que mais distante da lente da câmera. Conforme os casais vão se formando para dançar, os quadros voltam a ter um homem e uma mulher no espaço que vai se moldando pelo movimento da câmera. Casais formados, a música cresce justamente quando os olhares de Roberta e de carlo se batem, cada um no canto oposto do hall, e se cadencia quando Carlo e Rosanna giram, e é o olhar de Rosanna que atinge o de Roberta. A seqüência prossegue com outra música e novos pares de dança, e termina com o primeiro beijo entre Carlo e Roberta. Desnecessário dizer que a decupagem continua sendo de fazer cair o queixo.
Se existe a perfeição no cinema, ela deve estar nessas três seqüências. Se existe um cineasta que capta profundamente a alma de seus personagens, estando sujeito às menores nuances de cada um deles, e dispondo-os em quadro de maneira a reforçar o que eles têm de mais rico para mostrar, esse cineasta é Valerio Zurlini.
Sérgio Alpendre