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DÊ UMA ESPIADA
Índice #2
 
4
  Editorial /Créditos

5
  Mensagens

6
  Fotogramas - O adeus de Gordon Parks / O filme preferido de Ceumar

12
  Entrevista - Inácio Araújo

17
  Câmera Lenta - Natalie Portman

18
  Capa - Cinema em francês / Amantes Constantes / 5x2 / Caché / filmografias comentadas de François Ozon e Michael Haneke

26
 

Tops Especial - 20 grandes musicais do cinema

31
  Zé Tobata

32
  Ensaio - A Arte do Pragmatismo Americano

34
  Cinema

  Achados e Perdidos pág. 37
Boleiros 2 pág. 36
Depois Daquele Baile pág. 38
O Homem Urso pág. 35
O Plano Perfeito pág. 38
V de Vingança pág. 35
Árido Movie pág. 36
Café da Manhã em Plutão pág. 37
Dia de Festa pág. 37
O Novo Mundo pág. 34
Tapete Vermelho pág. 36

39
  DVD

  Almas Perversas pág. 42
Um Barco e Nove Destinos pág. 41
O Fantasma do Paraíso pág. 42
O Inventor da Mocidade pág. 42
Lili Marlene pág. 40
Arquitetura da Destruição. pág. 40
O Enigma de Outro Mundo pág. 41
Foi Deus Quem Mandou pág. 43
Laura pág. 41
Terra em Transe pág. 39


43
  Os Sete Samurais (quadro de cotações)

44
  Discos

47
  Livros

48
  Depois do Filme - Exquisito!

50
  Sala Especial - Cinesesc

 
Cinema em francês no circuito nacional
 
Filipe Furtado saúda a nova safra de filmes de língua francesa lançados no circuito brasileiro
 
 

Há bem pouco tempo, o cinéfilo brasileiro interessado no cinema de língua francesa encontrava muita dificuldade em acompanhar suas últimas produções (especialmente se
ele não estivesse disposto a se dedicar com

     
afinco tanto ao Festival do Rio quanto à Mostra de São Paulo).

Os filmes que chegavam aqui ou eram sucessos na França, geralmente medíocres, ou eram dos mesmos nomes já conhecidos do espectador interessado (o que não significa que alguns destes filmes não sejam excelentes). Criou-se assim uma grande vala dentro do que seria o cinema francês contemporâneo: de um lado alguns velhos mestres ligados à renovação dos anos 60 (Godard, Chabrol, Resnais), depois a geração Besson/Beineix, mais um ou outro cineasta cujos filmes começaram a chegar com alguma freqüência no País (Téchiné, Leconte).
Preencher estas lacunas tornou-se tarefa difícil, especialmente no que se refere à geração de cineastas que começa a surgir no fim dos anos 80 (Olivier Assayas, Claire Denis, Arnaud Desplechin). Felizmente, este cenário vem melhorando desde 2005, quando esses cineastas tiveram seus filmes exibidos por aqui pela primeira vez. Trata-se de um grupo de cineastas importantes, com muito em comum, não apenas em sensibilidade, mas também no seu apreço por atores, relação desconfiada com realismo e influência forte de outros cineastas (Bergman, Bresson).

Quando olhamos para a rica safra de filmes de língua francesa chegando agora aos cinemas brasileiros, encontramos exemplares que se encaixam nos mais diferentes grupos do panorama atual: A Criança, dos irmãos Dardenne, representa os cinemas dos países periféricos (os Dardenne são belgas e fazem realmente seu cinema nos subúrbios da sua cidade natal).
Caché, de certa forma, completa a inserção do Michael Haneke no cinema francês ao colocar o dedo na grande ferida da história recente francesa (a Argélia); a importância de Haneke é indiscutível, assim como seu domínio formal, mesmo que alguns possam torcer o nariz para suas idéias.
François Ozon já se tornou figura conhecida dos cinéfilos francófilos, sendo provavelmente o mais ambicioso dos jovens cineastas franceses com inclinação pop revelados nos últimos dez anos; seu novo 5x2 confirma sua tendência de nunca se repetir, fazendo um filme mais arriscado do que Swimming Pool ou 8 Mulheres.



As maiores novidades, porém, são a Trilogia de Lucas Belvaux, um projeto audacioso de cinema cujo lançamento por aqui é uma grata surpresa, e Amantes Constantes, do Philippe Garrel, cineasta da geração naturalista do imediato pós-Nouvelle Vague (Jean Eustache, Maurice Pialat), que até hoje não havia sido exibido nos cinemas brasileiros. A cada dia, o cenário de exibição parece melhor para o cinéfilo interessado no cinema francófono, ainda que alguns filmes importantes (Le Petit Lieutenant, de Xavier Beauvois, L’Esquive, de Abdel Kechiche) permaneçam inéditos por aqui.

Câmera Lenta - Natalie Portman
 
Natalie Portman
Atriz.
Nascida em Jerusalém, Israel.
24 anos.
 
Descoberta por um agente aos 11 anos, fez sua estréia no cinema no papel da lolita Mathilda, em O Profissional, com direção de Luc Besson.

É vegetariana radical desde os oito anos de idade.

Fala fluentemente cinco línguas: inglês, hebraico, francês, alemão e japonês.

Namorou Lukas Haas, que se destacou no papel da criança protegida por Harrison Ford em A Testemunha. Os dois atuaram juntos em Marte Ataca! e Todos Dizem Eu Te Amo.

Para seu papel em V de Vingança, que estréia em abril, Natalie aprendeu a falar com sotaque britânico e raspou a cabeça.

V de Vingança, criação de Alan Moore, é um clássico entre as graphic novels, os quadrinhos de arte. Fala de um terrorista mascarado que age contra um governo inglês fascista e repressor, que não permite a liberdade de expressão, nem música, nem filmes.

Natalie é campeã na categoria “recuso papéis que não batem com o meu santo”. Alguns exemplos:
• Recusou um papel em O Encantador de Cavalos porque preferiu atuar em O Diário de Anne Frank, na Broadway.
• Era a primeira opção para protagonizar Romeu + Julieta, mas recusou por causa de certas cenas e da diferença de idade entre ela e Leonardo DiCaprio. O papel ficou com Claire Danes.
• Esnobou o papel título da Lolita de Adrian Lyne por não concordar com a carga de sexo apresentada.
• Nem Ang Lee a comoveu. Ela recusou o papel de Wendy em Tempestade no Gelo, por achar que o material era muito “down”. O papel ficou com Christina Ricci.
• E já ia desistindo do papel de Ann August no filme Em Qualquer Outro Lugar, porque, que coisa!, tinha cena de nudez. Como Susan Sarandon, que interpretava sua mãe no longa, disse que não continuaria sem ela, o diretor concordou em excluir a cena.
• Em Closer – Perto Demais, Natalie chegou a filmar uma seqüência sem roupa, a do strip para Clive Owen, mas, enfim... conseguiu convencer o diretor Mike Nichols que a nudez era desnecessária e distrairia a atenção do espectador.

 
Cinema

O novo Mundo
The New World (EUA, 2005), de Terrence Malick. Com Colin Farrell, Q’Orianka Kilcher, Christian Bale. Playarte. Projeção: 2.35:1. 135 min.

 
  Qual o objetivo de Terrence Malick em O Novo Mundo? Tendo como contexto histórico a colonização dos ingleses na Virginia (EUA), no século 17, e como premissa dramática a inviabilizada atração mútua entre uma princesa nativa e o ovelha negra dos colonizadores, o filme é um ritual de luto pela morte de culturas em processos civilizatórios. Malick narra a circunstância histórica que impede a realização de um amor, com romantismo deslavado nas imagens e na narração, mas o

faz porque esse processo descortina outro mais amplo no tempo e no espaço: o nascimento de uma nação mediado pela subjetividade de quem estava em campo na hora do jogo.

Trata-se do significado geral, mas não do mais importante. Os sentidos políticos da fragmentada representação histórica de Malick, calcada na imagem do bom selvagem e do paraíso perdido, escancara uma visão de órfão de utopia que soa singela por seu deslocamento. Há algo de hippie no choro do cineasta diante da “domesticação dos nativos”. Aos olhos de Malick, por serem integrados à natureza, os nativos estão mais perto de Deus. São superiores, portanto. Estamos em um discurso de elogio da pré-modernidade e de uma percepção da vida mais integrada à natureza. A forma, porém, é moderna. E ficou mais ainda com o corte de 20 minutos e as conseqüentes elipses. Malick voltou para a montagem após os primeiros dias de exibição nos Estados Unidos, onde o filme estreou ainda com um corte provisório para poder concorrer ao Oscar. Não foi indicado.

A visão do diretor pode parecer eco-esotérica e embrulhada em romantismo suspirante, mas sua habilidade está na conversão dessa visão em estética. Ele não olha os nativos como objetos de pesquisa para se extrair sentidos sociais de organização de sociedade, tampouco usa o conflitos  

com os ingleses como ponte com os conflitos presentes da gestão Bush, embora essas características estejam lá na tela de forma dispersa e quase abstrata. Mais importante é a extração da energia formal de um transbordante fluxo visual, característica que, em alguns momentos da curta filmografia de Malick, torna-se sua maior marcada estilística. Esse fluxo é obtido pela valorização de movimentos da natureza, filmados com evidentes pretensões poéticas. A natureza está acima de tudo em O Novo Mundo. Malick está mais para xamânico que para materialista histórico. Está mais para Apichatpong Weerasethakul (em Mal dos Trópicos) que para Luchino Visconti (em seus filmes ambientados no passado).

No começo do filme, Pocahontas, a princesa nativa, em uma das várias intervenções de narração em voice over, convoca o espírito da natureza, essa noção de uma vida superior, para explicar o espaço onde ela vive. Esse espírito pode ser uma espécie de deus, mas deus, naquele espaço, é o próprio diretor Terrence Malick, que tem o poder de explicar seus personagens. O deus Malick, porém, não é organizador. Opta por manter as dúvidas manifestadas pelas próprias inserções de narração dos personagens. Sua ambição é menos ordenar as imagens para obter significados e mais buscar uma linguagem de sinfonia de movimentos e versos visuais. Um plano não chama o outro e isso faz o andamento ficar imprevisível. O interesse está em estabelecer atmosferas líricas e administrar um projeto de movimento constante (da narrativa, sobretudo). O Novo Mundo é uma sinfonia de mantras eco-românticos às vezes transcendentais.

Cléber Eduardo

 
     
 
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