O Anjo Embriagado

YODORE TENSHI. (Japão,1948) De Akira Kurosawa. Com Takashi Shimura, Toshiro Mifune. Lume. Formato de tela: 1.37:1. 98 min.



“Meu estilo veio à tona em O Anjo Embriagado ”, declarou o cineasta Akira Kurosawa em uma entrevista em que revia sua obra. Apesar dos problemas que sempre enfrentou com a censura - a versão integral do filme tinha 150 minutos, que foram reduzidos para 98 - ele conseguiu desenvolver seu trabalho autoral e ganhar autonomia na produtora Toho para conseguir financiar seus projetos, que foram rodados de forma constante até a obra-prima O Barba Ruiva , de 1965.

Além de inúmeras características que vão marcar a sua filmografia, O Anjo Embriagado demarca a primeira colaboração entre o ator Toshiro Mifune e o diretor. A presença de Mifune (Matsunaga) foi tão marcante no início das filmagens que Kurosawa resolveu aumentar a sua participação no longa: alçando-o também à posição de protagonista ao lado de Takashi Shimura (Sanada), que interpreta um doutor bêbado. Um personagem se transforma no espelho do outro e a atração acontece não pela oposição, mas sim pela proximidade da personalidade explosiva: o relacionamento é marcado por brigas momentâneas entre o chefe da máfia yakuza e o médico. E ambos são construídos através de uma dicotomia anjo/demônio em nuances simples, como a atenção do doutor com as crianças do bairro e seus pacientes, bem como a sua rispidez e falta de afeto em vários momentos; e a alegria de Matsunaga na libertação, por intermédio da dança, em belo plano na danceteria dominada pelos gângsteres em contraponto a sua sisudez no trato pessoal.

O Japão de O Anjo Embriagado está destruído e decadente devido ao pós-guerra. Kurosawa se atém aos personagens marginais, entre eles prostitutas e pequenos ladrões. O primeiro plano sintetiza essa ambientação com a escuridão, fumaça e a presença de um pântano ao redor de notívagos, ao som de acordes minimalistas de violão. É o Japão focado como os Estados Unidos do cinema noir dos anos 40: há referências inclusive na direção de arte, em especial, do Cabaré No 1. Inicia-se, então, uma série de críticas com relação à ligação de seu cinema e o ocidente. O que não faz com que os críticos percebam, nesse caso, a sua verdadeira aproximação do noir (ambigüidade) com o universo samurai em que os valores de honra e tradição são fundamentais. Além de sua crônica para uma sociedade japonesa destroçada e que tenta se reerguer, pois há esperança enquanto uma flor bóia no lodo.

O Anjo Embriagado revela uma mise-en-scène sofisticada de um diretor em total controle de sua arte, que se demonstra atento a cada detalhe da produção. A construção do filme é inteiramente pré-concebida: Akira transmite a cada responsável por um setor específico o seu sentimento com relação ao que imagina para cada cena. É uma parceria forte que se instaura e gera uma sintonia de propósitos nas obras, que remete a do cineasta japonês Hiroshi Teshigahara, renomado por Mulher de Areia , e sua equipe.

Na sua superfície, o filme é um drama trágico tendo como pano de fundo a yakuza. Mas Akira promove um intrincado jogo de espelhos em que os personagens principais, normalmente em oposição no quadro, se colidem na melancolia de um presente amargo (as sombras das persianas no consultório realçam o aprisionamento) em que só resta a fuga para não se confrontar com os demônios internos.

Matsunaga abraça seu destino e sai de quadro, sem trair seus princípios; enquanto o doutor Sanada só percebe com auxílio de sua assistente que conseguiu de alguma forma mudá-lo. Por mais que soe o Hino do Matador, a esperança de reconstrução no Japão está renovada.

Leonardo Luiz Ferreira

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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