Cinema - Cultura - Comportamento
(Alemanha/Turquia,2007). De Fatih Akin. Com Nurgül Yesilçay, Hanna Schygulla, Nursel Köse. Imovision. Projeção: 1.85:1 122min.
A inesperada conquista do Urso de Ouro no Festival de Berlim 2004 colocou o nome de Fatih Akin no panteão dos realizadores a serem observados. Ainda que o evento alemão dê sinais de uma franca decadência, os seus vencedores recebem cobertura de mídia extensa e passam a se tornar visíveis para o mercado, em especial, os jovens realizadores que ainda buscam espaço. Exatamente o caso de Akin, nascido na Alemanha, mas de família turca, que tinha uma carreira discreta até então, com três longas no currículo. Aos poucos, ele urdia uma obra sem unidade, apenas com a tentativa de esboçar uma reflexão sobre a condição do turco na Alemanha. Esta é a posição que passa a assumir a partir do laureado Contra a Parede, só que agora com um viés de seriedade, como se fosse um cronista dessas vicissitudes em um espelhamento com o cinema de Jia Zhang-ke; porém, enquanto o chinês absorve e registra de maneira viva, Akin pende para um cinema austero alemão (planos distanciados e contenção emocional) e um esquematismo do roteiro.
No primeiro ato de Do Outro Lado são apresentados três personagens: um professor de alemão, seu pai de origem turca, e uma prostituta por quem este se interessa. O propósito desse trecho é explicitado em uma cartela no início do filme, ou seja, a narrativa já apresenta seu fim, assim como no segundo ato. Até chegar ao desfecho, os personagens se esbarram ao acaso e a preocupação do realizador está sempre voltada para transformar em filme aquilo que acredita brilhantemente ter delineado em seu script. A partir disso, as aproximações são diversas, como os painéis de Robert Altman e de seu discípulo Paul Thomas Anderson (Magnólia). Entretanto, não se deve esquecer que há em Fatih uma vontade de refletir política e questões étnicas, o que automaticamente interliga Do Outro Lado a Babel, de Alejandro Gonzalez Iñarritu, naquilo que se tem de pior: descrições rudimentares de personagens em prol da transmissão de uma mensagem. Todos são meras peças do diretor, que faz com que os personagens cumpram suas funções limitadoras em seqüências que pretendem demonstrar a qualidade literal do texto por trás do plano, mas de mise-en-scène falha e, por vezes, risível.
A eficácia de tais roteiros pode ser vista através dos prêmios importantes que recebem: Do Outro Lado ganhou em Cannes 2007, onde no ano seguinte o laureado foi Guillermo Arriaga por Três Enterros. Este anda mesmo fazendo escola, e até recebe um agradecimento nos créditos por parte de Fatih, em que a meticulosa arquitetura do script é mais importante do que a realização em si. O que esses roteiristas esquecem é que não basta ter apenas beleza na moldura do quadro.Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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