A Hora e a Vez dos Injustiçados

The Turn of a Friendly Card (1980)
The Alan Parsons Project

(Arista)



 

Em crítica de cinema, é desejável a compreensão de contexto: se estamos diante de um cinema mais intelectual ou de um produto barato e pernicioso, temos que nos ater ao que faz com que esse cinema seja transmitido a nós, levando em conta que ambos podem ser da melhor estirpe. Na crítica musical ocorre algo semelhante. Mas não são muitos os que conseguem se despir de certos preconceitos, como os que afetam a boa digestão de obras assumidamente pop (Abba, Bee Gees, ELO), ou de obras mais rebuscadas e sinfônicas (rock progressivo, jazz rock em suas mais diversas vertentes, o heavy metal de Iron Maiden e Metallica). O que se sobressai é o crítico que se entope de Pitchfork (revista eletrônica, bíblia dos indies ) 24 horas por dia, e se acha superior às melodias babas que embalaram gerações em programas noturnos na FM. O difícil é escutar com atenção. Muito dessa baba é de excelente qualidade, uma delícia, na pior das hipóteses.

The Alan Parsons Project é o tipo de banda (ou projeto, já que a cada disco o elenco era modificado substancialmente) que é vítima dos dois tipos de preconceito: é baba, no sentido de que prioriza, acima de qualquer outra coisa, as linhas melódicas das composições, mas tende também ao rock progressivo mais sinfônico, com canções longas e mudanças de andamento.

De todos os discos de Alan Parsons talvez o que melhor reflita as ambições do músico e produtor inglês seja este The Turn of a Friendly Card . Foi o disco que, no início da década de 80, ousou se fechar ainda mais na sonoridade derivada de Pink Floyd e pop setentista (nos moldes de Alessi e Gilbert O' Sullivan, e até mesmo de Todd Rundgren) e parir um disco tão paradigmático quanto estranho em sua época.

O álbum tem uma longa suíte, bem no auge da ressaca do rock progressivo, flerta com pistas de dança, no princípio do fim da onda devastadora da Disco Music, e, sobretudo, se arrisca em baladas melosas e estruturalmente perfeitas, justamente quando a ordem era dançar como robôs graças à poderosa new-wave.

Os discos do Alan Parsons, e este em especial, eram uma espécie de mistura do pop que se fazia na época traduzida para o mundo do produtor, e por isso costumava-se dizer, em épocas de gostos mais ortodoxos, que não gostar de um deles era não gostar de todos os outros.

The Turn of a Friendly Card é, antes de mais nada, um assombro de produção. Em cada faixa estamos diante de um produtor e engenheiro capaz de verdadeiros milagres (Parsons foi o engenheiro de som de The Dark Side of the Moon , o disco mais famoso do Pink Floyd, e de Abbey Road , o disco mais bem gravado dos Beatles). Cada instrumento é ouvido em sua plenitude, cada elemento musical encontra sua melhor expressão. Estamos diante de uma das mais perfeitas confecções pop de que se tem notícia.

Mas isso não basta para criar um grande disco. É necessário algo mais, perfeitamente encontrável na maior parte de seus discos: as melodias e os arranjos compostos especialmente para fazer brilhar a mão do produtor - o que fica claro em ao menos duas músicas magníficas, a instrumental "The Gold Bug", com flertes com o western spaghetti, e a balada à Bee Gees "Nothing Left to Lose", mas pode ser ouvido durante todo este álbum espetacular. É dele dois grandes sucessos que até hoje tocam em programas de flash back: "Games People Play" e "Time". E o disco ainda nos reserva o suingue malemolente de "I Don't Wanna Go Home" e o triunfalismo contagiante de "Snake Eyes".

É necessário, no entanto, se desarmar de certos preconceitos. Um leitor assíduo da Pitchfork jamais aceitará um disco como este. Os demais ouvintes podem muito bem se surpreender com as melodias que engrandecem o esmero da produção.

Sérgio Alpendre

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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