Os Inconfidentes

(Brasil/Itália, 1972). De Joaquim Pedro de Andrade. Com José Wilker, Luiz Linhares, Paulo Cesar Pereio, Carlos Kroeber, Fernando Torres, Carlos Gregório, Wilson Grey. Videofilmes. Formato de tela: 1:85:1. 100 min.



Muito se questiona o caráter político de determinas obras do cinema ou o quanto é possível fazer política nos filmes sem cair em panfletarismos ou explicitações de temas. Os Inconfidentes talvez seja um dos maiores exemplares do que se pode chamar de cinema político realizado no Brasil. Lançado em 1972, num ano de celebração pela independência do país e em plena ditadura militar, não chamou muita atenção do regime em vigor na época. Porém, passados os anos, permanece um verdadeiro documento histórico, um charmoso tratado sobre poder, fidelidade, intriga e interesses particulares - política, enfim.

A linguagem adotada por Joaquim Pedro de Andrade era repleta de riscos: roteiro quase literalmente retirado dos Autos da Devassa (documentos de entendimento bastante complexo), a encenação toda de longos planos (muitos deles em ambientes fechados, tendo os atores como "guias" da imagem) e analogias diretas com figuras da sociedade brasileira. Só que Joaquim, inteligente como sempre seu cinema demonstrou, evita trabalhar com simbolismos ou referências metafóricas para, acima de tudo, contar o que nada mais seja do que uma representação da Inconfidência Mineira de 1789, quando Tiradentes liderou um levante - que nunca aconteceu - contra a Coroa portuguesa. O filme, assim, se isentava de quaisquer possíveis "acusações". O recado do diretor, porém, era bastante claro e tinha alvo certo.

No caso, o maior "tiro" de Joaquim Pedro mantinha destino certo: a intelectualidade brasileira e o seu papel diante da desfaçatez dos desmandos do regime militar. Todas as figuras mais conhecidas da Inconfidência - especialmente os escritores Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto, Cláudio Manoel da Costa - aparecem no filme como a inteligentsia que defende seus próprios interesses. E, como tais interesses dependem da queda do regime, que seja feita a revolução. Joaquim, ele mesmo integrante dessa inteligentsia na sua época, sabia bem o que, como e a quem falava. O filme inteiro se pauta sob esse aspecto: as mancomunações de uma classe para subir ao poder e perpetuar os pensamentos dessa mesma classe.

As imagens de Os Inconfidentes, todas elas donas de grande poder expressivo, se fixam nesse ideário do autor de colocar os intelectuais tanto como conspiradores quanto como vítimas das armações de si mesmos. Ora declamando trechos dos Autos da Devassa, ora olhando diretamente para a câmera, os corpos que circulam pelos planos-seqüência do filme estão fincados na tentativa de derrubar quem se opuser a eles. Tiradentes, ali, é uma figura menos de liderança, como muito se vê em outras visões da Inconfidência, do que simplesmente um fantoche-trampolim para seus colegas revolucionários.

Quando vem a derrocada, é novamente a imagem que expressa a desilusão e a queda: os "heróis" são torturados e obrigados a revelar seus planos, colocando uns aos outros contra a parede. Enquanto isso, Tiradentes permanece impassível e assume para si a culpa de tudo. É o personagem inexistente na sociedade, o homem que parece sair de uma sintonia paralela e carregar as chagas que, ainda que não apenas dele, é nele que serão embutidas. O herói no sentido pleno do termo, que leva consigo a tragédia política de liderar algo sem liderança plena e ser traído e largado por quem se dizia estar ao seu lado.

É esta, também, a posição da classe média brasileira pré e pós-ditadura: primeiro, a utopia de que o golpe salvaria a todos; depois, o abandono e desilusão diante das escolhas autoritárias do regime. Em Os Inconfidentes, Joaquim Pedro resolve toda essa teia de relações de poder através da perfeita utilização dos recursos de cinema, tendo como elemento primordial a decupagem dos planos longos e algumas excepcionais escolhas de montagem, como a carne abatida em contraponto ao desfile em Ouro Preto que fecha o filme. É mestre Joaquim em outro exercício pleno de grande cinema.

Marcelo Miranda

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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