Meus Caros Amigos

AMICI MIEI. (Itália, 1975) De Mario Monicelli. Com Ugo Tognazzi, Philippe Noiret, Adolfo Celi, Duilio Del Prete, Gastone Moschin. Platina. Formato de tela: 1.85:1 135 min.


Meus Caros Amigos 2 - Quinteto Irreverente

AMICI MIEI ATTO II. (Itália, 1982) De Mario Monicelli. Com Ugo Tognazzi, Philippe Noiret, Adolfo Celi, Gastone Moschin, Renzo Montagnani.Platina. Formato de tela: 1.85:1 130 min.

Meus Caros Amigos 3

AMICI MIEI ATTO III. (Itália, 1985) De Nanni Loy. Com Ugo Tognazzi, Adolfo Celi, Gastone Moschin, Renzo Montagnani. Platina. Formato de tela: 1.85:1 110 min.



O primeiro letreiro de Meus Caros Amigos informa que é um filme de Pietro Germi. O veterano diretor de O Ferroviário e Divórcio à Italiana havia morrido de complicações derivadas de uma hepatite, deixando como herdeiro do projeto o também veterano Mario Monicelli, diretor de obras importantes do cinema italiano como Os Eternos Desconhecidos, Os Companheiros, A Grande Guerra e O Incrível Exército Brancaleone .

Em comum com as quatro obras indicadas acima, Meus Caros Amigos tem, de forma muito mais acentuada, a celebração da cumplicidade entre machos. Acompanhamos as travessuras de cinco amigos, cada um com sua profissão - exceto Mascetti (Tognazzi), que é um nobre decadente e parasitário. Há Perozzi, o jornalista (Noiret); Necchi, o dono de um bar (Del Prete); Dr. Sassaroli, um cirurgião renomado (Celi), e um arquiteto chamado Melandri (Moschin). Todos irresponsáveis, crianças brincando de estar no mundo. Com uma narrativa alinear, cheia de passeios pelos diversos tempos narrativos, vemos como a relação entre eles se sustenta com palhaçadas e uma dose interminável de irreverência.

Quinteto Irreverente é a continuação, lançada sete anos depois. É um pouco esquemática, mas ainda talentosa. Como não há necessidade de se apresentar os personagens, este segundo filme pode se contentar em ser episódico, com uma clara divisão por esquetes. Talvez a espinha dos dois filmes se sustenta nessa afirmação, já muito difundida, de que a infância e a adolescência, no homem, duram praticamente três quartos da vida.

As seqüências engraçadas se sucedem, tanto num quanto noutro filme: a invasão de uma festa, com fezes adultas sendo colocadas no pinico de uma criança; os bonachões estapeando os viajantes que colocam a cabeça para fora do trem para se despedir de familiares; a tentativa de conter o desmoronamento da torre de Pisa, com Necchi descobrindo de uma forma patética, durante a fuga, que sua mulher tem um amante; um coral herege numa competição sustentada pela igreja... até uma cansativa e, em certo aspecto, tediosa, enganação a um larápio, uma performance montada para se parecer com uma operação mafiosa, se revela crucial para tornar possível a melhor piada de toda a série, e que não posso contar aqui porque estragaria o final do primeiro filme.

Mas como em toda boa e clássica comédia italiana, nem tudo provoca risadas. Existem momentos assustadores, como os da mulher de Mascetti tentando se matar por asfixia de gás de cozinha. No primeiro, ela liga todas as bocas, e fecha todas as entradas de ar de seu muquifo, mas ele acorda com o cheiro, e impede o suicídio. Em Quinteto Irreverente a coisa é ainda mais pesada, porque ela não percebe que o fornecimento de gás havia sido cortado. Ele levanta, abre as janelas (ainda não sabemos do corte), e quando tenta acender o fogão, descobre o que aconteceu. Ela ouve e inicia um processo histérico de arrepiar, algo incomum em uma comédia que muitos podem entender como leve e descompromissada. Sem contar que os dois filmes têm finais tristes para um deles, e o do segundo é ainda mais triste. São nesses momentos que Monicelli, assim como Risi e Scola fizeram antes, se filia a uma tradição que sabe rir, mas não deixa de lado a mordacidade na crítica à sociedade.

Na altura do terceiro episídio, dirigido por Nanni Loy, o humor dos moleques envelhecidos já não é mais o mesmo, e as situações cômicas já não provocam tantas risadas. Existem claro, belos momentos por conta dos atores - especialmente Gastone Moschin, que sensivelmente faz o personagem crescer de filme a filme. Há também o momento dos tapas na estação de trem, que são inviáveis porque todos envelheceram, e já não têm a mesma impulsão. A idade chegou, impondo limites cada vez mais extensos às brincadeiras da turma. Mas a graça do original havia se perdido, um pouco por conta do desaparecimento completo de Philippe Noiret, um pouco pelos infortúnios que aconteceram com Mascetti - o filme se passa quase integralmente no asilo onde o personagem de Ugo Tognazzi está internado. Talvez reflita a situação do cinema italiano na época (1985), já decadente, salvo três ou quatro figuras centrais e uns dois ou três jovens realizadores.

Sérgio Alpendre


 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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