O Rosto

ANSIKTET. (Suécia, 1958). De Ingmar Bergman. Com Max Von Sydow, Ingrid Thulin, Gunnar Bjornstrand. Versátil. Formato de tela: 1:66:1. 100 min.

 



Muito se fala - virou uma espécie de chavão - que os grandes temas de Bergman são Deus (ou sua impossibilidade), a Morte e o teatro. Teatro não exatamente como um tema, mas como a perspectiva a partir da qual os dois temas anteriores estão interligados.

Mas o teatro, na visão geral das pessoas, está condicionado à metafísica ( Deus, Morte). Há em Bergman, no consenso estabelecido em torno de seu nome, muitas vezes à sua revelia, uma “síndrome de profundidade”, digamos assim, uma subordinação da encenação à estrutura simbólica que a sustenta.

Nos filmes que ele realiza nos anos 50, porém, a relação parece claramente invertida; arriscaria mesmo ver nestes filmes uma tentativa cada vez mais esmerada em emular- ou imitar- Max Ophuls, este grande mestre das superfícies, grande cético em relação à profundidade e suas escaramuças. Neles, com exceção talvez de O sétimo selo, a metafísica está subordinada ao teatro, a “profundidade” à superfície. Ao seu duplo ilusório, fantasista. Talvez o duplo responsável por aquela capciosa perguntinha do diabinho de Kipling, que Orson Welles reproduz no seu F for fake: É bonitinho. Mas é ARTE?

Destes filmes - Quando as mulheres esperam , Sonhos de mulheres , Noites de circo , Sorrisos de uma noite de amor , O olho do diabo , O rosto -, talvez o que melhor sintetize este fascínio de Bergman pela superfície espelhada- o verdadeiro reduto da arte e de seu meio de acesso à Verdade- seja O rosto .

A grande oposição - ao menos, a proeminente oposição - de O rosto é entre racionalidade e misticismo/ mistificação.

Contrapõem-se duas formas de saber, mas, sobretudo de apreender o mundo: o grupo dos burgueses e dos burocratas, encabeçado por um diabólico médico autopsista (um gélido Gunnar Bjornstrand); e o grupo dos artistas/ mistificadores, encarnado na trupe que chega à cidade perdida nos confins da Suécia, onde reina a corte, típica do século 19, do poder do cientificismo e da política. Neste grupo, temos a expertise em enganar e seduzir do artista charlatão, Albert Vogler (Max Von Sydow, casmurro), e o dom divinatório de uma velhinha não menos charlatã, mas misteriosamente dotada de pressentimentos que se averiguam verdadeiros, ao longo do filme. A iluminação da máscara e da mística (o grupo dos artistas) contra a verificação precisa e definitiva do conhecimento laico. Plano e contraplano de uma mesma tentativa de captação e apoderamento do real.

O que torna o filme fascinante é esta ciranda entre pontos de vista e modos de encenação - conto gótico, vaudeville, o final farsesco - que desequilibra constantemente o peso da balança, a saber: qual o conhecimento verdadeiro, o da racionalidade instrumental ou o da arte? Ou ao menos: qual o conhecimento que serve à nossa Verdade, à Verdade que buscamos?

Simplesmente, não há um eixo único e preciso a partir do qual esta verdade possa ser determinada, portanto dificilmente esta poderá ser determinada; a razão disso é que em O rosto, assim como em Moliére ou Feydeau, o ponto de vista adotado, como disse acima, é o da máscara; ou seja: é o da ausência de um único ponto de vista. Eis o privilégio da encenação sobre a lógica: a divergência e a concomitância das perspectivas são encaradas como um dado constitutivo - e positivo - da vida. Riqueza polissêmica que imanta e transfigura o real.

Temos aqui, aliás, uma estratégia típica do vaudeville, esta instituição do século 18 que buscava equacionar a arte e a vida através de uma justaposição caleidoscópica de seus pontos de oclusão e de suporte mútuo.

Ao contrário de um filme dogmático como O sétimo selo - tão sisudo e tão cioso de respostas pomposas, tão estreito em seu horizonte de questionamentos, decalque hierático de um expressionismo moribundo -, O rosto é um filme irônico, que se utiliza da encenação como um meio de rarefazer a esclerótica certeza da lógica e suas oposições dicotômicas. Lição ophulsiana por excelência, aqui transposta com a sobriedade e a precisão de movimentos indispensáveis à música de câmara.

Luiz Soares Junior

Juventude, por Sérgio Alpendre


 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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