Paulínia, Dia 1
Começo




O Mistério do Samba , de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor

Por Francisco Guarnieri

Primeiras impressões sobre Paulínia

A primeira impressão sobre o Pólo Cinematográfico de Paulínia é de que alguma coisa grandiosa e muito interessante está nascendo por aqui. Há toda uma estrutura - com teatro multiuso, estúdios, escola de cinema, prêmios em dinheiro para produção de longas-metragens – completamente capaz de fazer da cidade um centro importante na produção cinematográfica brasileira. O único porém vem de um possível excesso de glamour no lidar com o cinema; claro que não é invenção de Paulínia a sociedade do espetáculo e seria raso simplesmente condenar a produção do festival por se deixar levar por esse caráter descontroladamente midiático estabelecido. Afinal, para ser percebido, para fazer de sua empreitada algo imediatamente reconhecido, divulgado e visto, é necessário estabelecer e absorver elementos que coloquem o evento em foco; é compreensível, então, vermos estrelas globais, grandes figuras da mídia, sendo homenageadas e exercendo papel de mestre de cerimônia. O que me parece questionável é a pompa “hollywoodiana” que rodeia o festival; toda essa estrutura de noites de gala, tapete vermelho, arquibancada para o povo ver as “grandes estrelas” adentrando o “palácio” do festival são um tanto quanto questionáveis ao se pensar em cinema brasileiro. A realidade da grande maioria dos nossos filmes e profissionais do cinema não é essa. A coisa toda não flui com pompa e cheia de recursos para um processo impecável e sem pedras no caminho. O cinema brasileiro tem uma tradição marginal muito forte e esteticamente importantíssima e, quando vejo toda essa estrutura espetaculosa, vejo também essa tradição indo mais ainda para a margem. Finge-se que no Brasil cinema é algo absolutamente próspero e feliz. Não sei, não vejo assim. Acho que um país que deu Glauber e Sganzerla ao cinema não é um lugar de tradição cinematográfica glamourosa e polida. Claro que o ideal é haver espaço para todos; que prosperem tanto o cinema marginal quanto o cinema industrial. Perfeito seria ter esses dois muito fortes; a questão é que nosso cinema está cheio de problemas. Vivemos uma época de muitos filmes ruins onde muito se faz, mas pouquíssima coisa parece poder ganhar relevância como cinema. E calcar um festival num glamour, numa prosperidade não existente de fato, pode tampar o sol com a peneira; pode fazer com que se acredite num momento áureo do cinema brasileiro, coisa que, sinceramente, não acho que estejamos presenciando. Bom, é claro que essas questões valem ser levantadas para se refletir como um festival pode pensar e representar o cinema brasileiro, mas, de forma alguma, invalidam o que em Paulínia está sendo feito. A empreitada, a criação de um pólo de cinema com estrutura e incentivos é importantíssima e merece toda a nossa atenção.

O primeiro filme

O primeiro, exibido fora de competição, foi O Mistério do Samba , longa documentário de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor. O filme vai até a zona norte carioca conversar com integrantes e familiares da velha guarda da Portela, traçando um panorama daquele lugar e daquelas pessoas. No debate com o diretor, Lula, e o produtor, Leonardo de Barros, duas questões importantes foram levantadas por eles; uma é o ponto mais relevante e importante do filme: o fato da obra funcionar como uma documentação da história oral. Aquele mundo, aquela história pouco foi registrada; não há escritos, documentos, que estabeleçam um painel contextualizador do momento histórico criado e vivido por aquelas pessoas. Elas são o documento. E nesse ponto o filme ganha um viés muito importante.

A outra questão já remete a um caráter mais estético-conceitual. Segundo Lula, o objetivo era, através do filme, “mostrar como o cotidiano se transforma em música”. A idéia é realmente muito bonita, mas ela fica muito mais clara no discurso do diretor do que no discurso narrativo do filme. Vemos, sem dúvida, uma vontade grande de buscar esse cotidiano das pessoas, porém O Mistério do Samba o faz somente através do discurso. Sempre está na tela alguém contando sobre sua vida, mas dificilmente vemos as ações cotidianas em si. O filme procura muito ser palatável, agradável, tentando não deixar o espectador se dispersar. E o cotidiano é desgastante, por vezes, chato.

Ouve-se, então, muitos discursos (que são realmente interessantes), mas que acabam funcionando muito mais como documento histórico do que como criador dessa estética pretendida. Nem de longe vemos o cotidiano virar cinema; infelizmente, porque daí poderia surgir uma possibilidade linda de representação.

Outro grande problema é a funcionalidade de Marisa Monte na narrativa. Ela principalmente, mas Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho também, funciona como um agente legitimador do discurso fílmico. Toda a captação dos discursos é entrecortada por momentos onde Marisa e Paulinho reafirmam a importância do que vimos. Fica a impressão de que o filme não acredita na sua própria força narrativa para nos mostrar quão bela é aquela história entranhada de samba, precisando, assim, de figuras célebres, respeitadas por todos, para reafirmar e legitimar uma proposta conceitual que seria muito mais bela se sustentada por si mesma.
 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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