Cinema - Cultura - Comportamento
BEFORE THE DEVIL KNOWS YOU’RE DEAD. (EUA, 2007) De Sidney Lumet. Com Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney, Marisa Tomei. Europa. Projeção: 1:85:1. 117min.
Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto é um melodrama familiar apocalíptico. Ele começa no céu (uma intensa cena de sexo) desce ao inferno (um assalto dando errado da pior maneira possível) e de lá se recusa a sair. É preciso admirar a maneira como Lumet tira máximo proveito da histeria pulp do roteiro de Kelly Masterson, eis aqui um filme disposto a levar ao limite cada elemento do material em suas mãos, independente de quão desagradável ele seja. Ao final ficamos com a impressão de termos presenciado um verdadeiro filme de desastre ao qual restou somente uma enorme paisagem humana desolada.
Esta estadia no inferno parece se expandir de múltiplas formas: a burocracia de uma locadora de veículos, dez minutos com sua ex-esposa, ter certeza de que a mulher por quem se está apaixonado te acha um caso perdido. Neste cenário as convenções do filme policial é só um bônus, um pequeno tempero a mais, o inferno já parece bem disseminado sem elas. Depois há um Philip Seymour Hoffman que parece tão completamente desconectado dos horrores à sua volta, tão incapaz de processar tudo ao seu redor – ele parece se mover pelo quadro vindo de um outro filme igualmente histérico, mas numa chave bem diferente do seu entorno – que termina parecendo sair de um filme de terror, um zumbi de terno e gravata tão fixado no próprio desespero que nem nota a destruição que deixa pelo caminho.
“The world is an evil place, Charlie”, um pequeno personagem aponta para um pai desesperado já próximo ao final, máxima que Lumet leva ao pé da letra. Há porém algo fascinante com os elementos contraditórios com que o cineasta constrói este lugar, ao mesmo tempo um mundo rico na sua fauna de personagem (Lumet é bastante generoso com todos os seus atores e este é um raro thriller marcado por reviravoltas onde ninguém parece estar lá só para fazer a trama se mover), sugestivos flashs de uma sócio-história familiar, um cuidado de sugerir que seus espaços realmente têm as marcas de serem habitados; por outro lado este filme todo marcado pelo dinheiro não esconde um forte desejo de abandonar o mundo material, a começar por uma opção surpreendente para um cineasta visto como um grande cronista de Nova York de filmar sua externas de maneira a retirar qualquer especificidade (só as locações privadas aqui tem vida própria), e de também abraçar o que o roteiro de Masterson tem de abstrato. O lugar mal ao qual Lumet se refere é muito mais um estado do que um espaço.
É uma história de danação, e Lumet, por fim, parece muito menos preocupado com a destruição física que vai deixando pelo caminho do que com uma moral e espiritual que vai aos poucos tomando conta do filme até o inconfundível plano final. Na medida que cada personagem toma a pior decisão possível a cada nova situação este estado de danação se torna geral e opressor, parece contaminar a tudo e todos. Não surpreende que no decorrer deste filme de absurda carga negativa a fotografia fique cada vez mais dura. Em Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto até a imagem parece ser contaminada pelo desastre que abarca a todos. Ao final, resta apenas a aniquilação moral e espiritual de tudo a sua volta. Como o filme prometia, uma verdadeira encenação do apocalipse familar.
Filipe Furtado
Doze filmes e doze sentenças, por Sérgio Alpendre
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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