CINEOP, 15/6
Um debate animador


Por Sérgio Alpendre

Ontem foi o dia que encarei o primeiro debate no 3° CineOP. E dificilmente tal debate não será o melhor de toda a jornada. Numa mesa mediada por Cléber Eduardo, e composta por Helena Ignez, Joel Pizzini, Luis Alberto Rocha Melo, Remier Lion e Andrea Tonacci, houve muitas discussões aproximando e diferenciando os dois homenageados (novamente: Glauber e Sganzerla), muitas lembranças de histórias curiosas e poucas vezes contadas, desmistificações e provocações de várias espécies. 
O debate começou com a fala ligeiramente rebelde de Cléber Eduardo, que pretendia que o debate se desse fora da prisão das falas de quinze minutos para cada convidado. Ele desejava algo mais caótico, como numa mesa redonda de futebol, onde cada participante interrompesse o outro sem muito constrangimento, e os participantes fossem desafiados por alguns da platéia. Claro que a Utopia clebereduardiana não deu certo, como era de se imaginar. Para que tal intento funcionasse, era necessário jogar alguns temas sem que algum debatedor fosse convidadoa falar. Mas microfones, placas e uma ordem pré-estabelecida atrapalham qualquer desejo de caos. 
Isso não impediu que o debate fosse realmente inspirado e inspirador, com destaque para as falas de Andrea Tonacci, que consegue elaborar um pensamento lúcido como poucos com uma clareza invejável. É realmente um dos melhores oradores que eu já ouvi.
A sensibilidade à flor da pele de Helena Ignez
A mulher de todos iniciou sua fala de maneira cool, com óculos escuros, voz embargada segurando as tantas emoções e enfrentando uma mesa ainda fria. Sua primeira declaração marcante, "só pude fazer os filmes com Sganzerla por ser uma atriz glauberiana". Em seguida, vociferou contra a "mentalidade tacanha" da Bahia de 1958. E encerrou sua fala proclamando, sem falsa modéstia e com alguma razão (alguma, vejam bem), que "não há experiência igual" a dela no cinema brasileiro, com "o ator de desenvolvendo (nos filmes de Rogério Sganzerla).
Depois falou Joel, todo sorrisos como sempre, com o habitual bom-humor que nem sempre condiz com seus rigorosos estudos fílmicos (Anabazys, 500 Almas, Abry). Disse que graças a Helena Ignez e a Martim Gonçalves, Glauber teve contato com Bertolt Brecht, e cita um trecho de "Necrológio de um gênio", texto escrito por Rogério Sganzerla quando Glauber morreu, que eu não anotei porque conhecia e tinha a certeza que lembraria na hora de escrever. Mas, lamentavelmente, não lembro, e nenhum dos amigos jornalistas lembra. Memória é uma coisa que falha sempre no meio de festivais.
Em algum momento imediatamente após a fala de Joel Pizzini, Cléber lembra da história já ouvida por aqui de que Glauber não teria conseguido implantar suas idéias de cinema (e que desembocariam no Cinema Novo) em Minas Gerais por não ser, na época, um leitor da Cahiers de Cinema. No que é cortado por Helena Ignez, que disse que Glauber lia, sim, a revista francesa.
Andrea Tonacci, o sábio
A fala de Tonacci merecia ter sido gravada e disponibilizada aqui na íntegra (com a devida autorização do CineOP e do cineasta, claro), mas não tive essa brilhante idéia antes. Alguns trechos de sua fala de incrível coesão e clareza, no entanto, foram anotadas: "o cinema que fazíamos na época nascia da raiva"; "devo a Rogério (Sganzerla) a compreensão de que o cinema é um ato de descoberta do mundo, não uma coisa "cultural", de construção de personagem e de compromisso profissional". Mais adiante conta, à sua maneira, a história que já havia contado em off para Cléber Eduardo, e ensaiava explicar durante toda sua fala (de aproximadamente 25 minutos): "Fomos de Fusca para o Rio de Janeiro: eu dirigindo, Rogério no banco do passageiro e Glauber atrás, com a cabeça enfiada no meio de nós e falando sem parar durante as seis horas de viagem. Foi assim que ouvimos, em primeira mão, toda a história de Terra em Transe".
As duas falas mais soltas e informais foram as últimas, de Rocha Melo (vulgo Morris) e Remier Lion (o sobrenome foi renegado por ele nos créditos). Morris lembrou de quando descobriu Candeias (via AOpção, ou Rosas da Estrada), e teve sua predileção irrestrita e doentia por Glauber Rocha dividida ("como poderia algum diretor ser tão bom não tendo nada de Glauber", pensava). Contou histórias interessantes e muito pessoais do começo de sua cinefilia, e acabou encontrando uma maneira enviezada e muito esperta de contribuir com o debate, se colocando como um bom exemplo de analogia com essa aproximação entre dois cineastas intensos como Glauber e Sganzerla. Citou, ainda, trecho de um texto de 1966, sem dizer de imediato o autor, para questionar se tal texto não poderia ter sido escrito tanto por Glauber quanto por Sganzerla. Na verdade, o texto era do último, mas muitos na platéia estavam em dúvida.
Remier desafiou a universidade, condenando a mania de especializações cada vez mais em voga no meio acadêmico. E disse frases de efeito como : "o artista não é humano, é um ser mutante". Foi uma fala deliciosa de se ouvir, também muito pessoal, e que as ausências de aspas deste meu relato não devem lhe fazer justiça. Tonacci, retomando a palavra, brilhantemente condenou a divisão interna da universidade, fragmentando as reflexões.
 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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