Corpo

(Brasil,2007). De Rubens Rewald e Rossana Foglia. Com Leonardo Medeiros, Regiane Alves, Chris Couto. 90min.



No início, Corpo se estrutura como uma narrativa clássica, ainda que sem um gênero muito bem definido. Em cerca de 10 minutos, introduz-se o ambiente principal (o instituto legista), reitera-se o motivo do filme (corpos, entre mortos e vivos), e esboça-se guiar o espectador provisoriamente pelo ponto de vista de Artur (Leonardo Medeiros). Quem é Artur? Médico legista, ele encarna o clássico papel do herói que não se enquadra no sistema, mas, não por um dote que o faça superior aos outros, ao contrário, sua diferenciação se dá mais por uma deficiência sua no quesito “tato social”. Um herói ordinário, afinal, ele anda de metrô e se dedica a cuidar dos pais. Um herói paranóico, sem dúvida, uma vez que é delineada de forma explícita sua obsessão pelos corpos e pelo tema da morte. Até aí, tudo nos conformes na maneira como o filme se desenrola.

Então surge “o” corpo, ponto de partida do drama, ingrediente desestabilizador do equilíbrio até então estabelecido no universo do filme. Corpo esse que irá gerar um tradicional embate entre Artur, que quer descobrir a todo custo a origem daquele corpo, e sua supervisora (Cris Couto), que prefere encerrar o caso da maneira mais burocrática possível. Até aí, tudo nos conformes, o jogo parece estar armado no tabuleiro.

Porém, o que se segue é um constante desvio, por parte do filme, dos caminhos anteriormente traçados. Se, num primeiro momento, nada surpreende muito e o filme caminha de maneira extremamente funcional, a partir do início da “investigação” as cartas se embaralham. Os caminhos, antes retilíneos e determinados, agora se transformam constantemente em bifurcações múltiplas, tecendo uma rede onde prevalecem a incerteza e o caos. Aparência de caos, ao menos. Pois, a confusão que se estabelece está mais ligada à não resolução do caso (plot dramático) do que propriamente à constituição de um universo orgânico (des)coordenado pelo caos. Ou seja, a história pode possuir ou não uma resolução satisfatória, pode possuir ou não várias resoluções, mas, em todo caso, esse efeito de incerteza aparece unicamente como conseqüência de operações organizadas pelo filme (montagem com inserções e flashbacks, desvio programático dos clichês nas situações onde todos esperam por eles, confusão de identidades, jogo de nomes, jogo de informações truncadas e retidas propositalmente pelo filme). A sensação que se tem é que o próprio personagem de Artur, antes a referência principal, vai se apagando e cedendo espaço para a imposição da linguagem, pois o filme se evidencia. Para compreender Corpo, é importante que isso fique claro: não se trata de um filme que se perde junto a seu objeto, antes, trata-se de um filme que faz o seu objeto se perder.

Isto é o que há de mais essencial nesta estréia em longa de Rubens Rewald e Rossana Foglia. Afinal, Corpo pode ser uma “ficção aberta” sim, mas, mais importante é seu aspecto de “ensaio dramatúrgico”. Como já comentado acima, a medida que o filme avança, cada vez mais fica evidente a sensação de estarmos diante de um laboratório, de um trabalho extremamente calcado em matrizes já conhecidas (os clichês do cinema de gênero), que se esforça muito para superar os clichês em busca de uma dramaturgia que seja “nova mas só feita com elementos do tradicional”. Um jogo de reciclagem descarada (sem o sentido perjorativo do termo) e de recombinação.

Se a dramaturgia (roteiro e montagem) demonstra a todo momento sua inteligência cerebral, o contrário ocorre com a encenação (mise-en-scene). Decupagem mínima e funcional, sem imagens marcantes que destoem muito do conjunto. Marcação de atores básica, destinada a fazer seus personagens se movimentarem de forma natural, o que vai entrar em contraponto calculado com o jogo de climas nebulosos que o filme articula. Câmera observadora e passiva, quase transparente. E aqui chegamos ao ponto fundamental do interesse que Corpo, o filme, possui: ao contrário da maioria dos filmes atuais que chamamos de “autorais”, Corpo não busca a diferenciação pelo estilo imediato do cineasta (as imagens, o uso da câmera); ele estabelece sua diferença pela dramaturgia e pelas idéias cinematográficas que sugere, algo incomum, principalmente no panorama cinematográfico brasileiro, onde, tradicionalmente, exige-se muito que um cineasta (novato, principalmente) demonstre assinatura na imagem, enquanto o roteiro é visto como uma ferramenta fundamental somente em filmes padronizados ou menos ambiciosos.

Corpo exala ambição conceitual em seu conjunto. Talvez por isso atenue a sofisticação do “metteur en scene”. Como resultado, há poucas cenas que sejam memoráveis em virtude da encenação, poucos momentos que se imponham de forma gráfica. Apesar do título e do tema superficial serem “corpo”, algo concreto e visível, o filme lida mais com articulações não imediatas como metáforas, símbolos e conceitos. Laboratório e ensaio marcados pelo intelecto. A afirmação de uma idéia que não é exclusivamente audiovisual, mas, principalmente, uma idéia acerca do Drama.

Fernando Watanabe

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

Para comprar os números antigos da versão impressa, clique aqui.