por Filipe Furtado
Veja, nós não podemos vencer. Estamos no inferno, você e eu. E acho que você provavelmente foi transferido para cá, apenas para que eu não morresse sozinho. E sou agradecido por isso. Acho que nós seremos amigos.
-- O Chefe de Richard Fell, ao se apresentar a ele.
Economia está no centro de
Fell. Literalmente, trata-se de uma série que nasceu de uma preocupação financeira. E não, não estamos falando da conta bancária de Warren Ellis. Para começarmos a explicar porque
Fell é uma grande HQ, temos que primeiro explicar como Ellis chegou a seu formato, já que o formato de
Fell veio antes do seu conteúdo. Então, você é Warren Ellis, super-roteirista de quadrinhos, alguém que nas suas próprias palavras “pode convencer uma editora a publicar o que quiser”, e começa a observar que nas convenções encontra sempre uma série de fãs que dizem ler seu material via bibliotecas ou amigos porque quadrinhos é um hobby caro e eles não tem grana para pagar pelas revistas. Você começa a pensar nesses fãs e resolve desenvolver uma série para eles: apenas dezesseis páginas de histórias fechadas toda edição, completadas por outras quatro páginas de comentários seus sobre a história que acabaram de ler, nenhuma propaganda e um acordo com a editora – no caso a Image – para garantir que a revista seja publicada mais de 30% abaixo do preço de outros títulos
mainstream (menos da metade do custo da maioria dos independentes). E este formato foi o embrião de
Fell, uma revista rápida e barata que sempre oferece histórias completas para quem não pode gastar mais de dois dólares por mês com algo como quadrinhos.
Mas uma história fechada de dezesseis páginas (seis a menos que a média de uma HQ normal) não é algo fácil de produzir, então Ellis optou por um esquema fixo com nove quadros por página, sendo alterado ocasionalmente apenas por questões de ritmo. Só depois que este formato extremamente fechado já havia sido escolhido, é que Ellis optou por fazer uma série policial e arranjou a história de
Fell. Trata-se de um processo criativo que vai contra tudo que supostamente seria o correto num processo criativo. Uma obra onde o “o quê” é a última coisa que os criadores pensaram. Apesar disso,
Fell funciona. Mais do que isso, o que primeiro impressiona na série é a precisão do artesanato de Ellis e Templesmith. Com economia e eficácia eles fazem cada edição funcionar. Templesmith é um artista que ficou conhecido no gênero de terror, e aqui ele tem que trabalhar com pouquíssimo dos elementos que marcaram seus trabalhos anteriores, mas ele consegue se reinventar, e criar uma atmosfera ainda mais rica. É extraordinário como Templesmith nos cria todo um sentido de lugar e clima em seqüências que à primeira vista são pouco mais do que uma série de cabeças falantes. E Ellis, por sua vez, coloca nessas 16 paginas mais conteúdo, de tramas completas a momentos reveladores sobre seus personagens que muitos roteiristas conseguem em seis edições longas (
Fell de certa forma pode ser vista como uma resposta aos excessos de descompressão que tomaram conta dos quadrinhos
mainstream). A densidade das oito histórias contidas aqui e a forma como elas combinam para nos apresentar um homem e seu novo universo sem nunca abrirem mão da singularidade de cada uma delas, marcam este como um dos melhores e mais ricos trabalhos na longa e sempre expansiva obra de Ellis.
Fell é, portanto, por opção, uma revista pobre e feita de poucos recursos. Assim também é Snowtown
. A cidade é a co-protagonista de
Fell e é mesmo impressionante ver como Ellis e Templesmith dão vida a ela de maneira impressionista. Snowtown é um destes antigos distritos comerciais decadentes que em algum momento foram arrasados pela recessão econômica e deixados para morrer lentamente. Quem tinha condições já deu no pé de Snowtown a muito tempo. Nas primeiras paginas do #1, chegamos a intuir que Ellis vai usar este espaço literalmente como um inferno e a revista, como boa parte dos quadrinhos adultos pós-Vertigo, vai acabar revelando alguma natureza sobrenatural. Mas nada disso acontece, não há dúvidas de que Snowtown é uma espécie de filial do inferno, mas Ellis mantém as histórias com um pé no chão, seus roteiros uma espécie de versão barra pesada do que encontraríamos num seriado policial de televisão. A natureza dos casos varia muito: #7 envolve um moleque drogado que assassina a garota mais bonita da rua, corta ela em pedaços e passa os próximos três dias no apartamento vendo TV e pedindo pizza pelo telefone, já a #3 lida com um homem-bomba que quer se vingar de uma senhora que anda distribuindo armas de fogo para que aposentados do bairro se defendam, um dos quais matou seu irmão assaltante. Nos comentários das paginas finais, Ellis fala sempre da inspiração para as histórias que quase sempre são baseadas em crimes reais. Quando dissemos no começo que economia estava no centro de Fell não pensávamos somente no formato; se a inspiração de Ellis foram seus fãs sem dinheiro, ele também resolveu centrar sua história na experiência de viver em um lugar que a economia nacional a muito esqueceu. Apesar do seu ocasional sensacionalismo (e no seu pior, como muito da obra de Ellis,
Fell beira um exercício em puro miserabilismo), trata-se de uma das revistas em quadrinhos mais dotadas de compaixão que conheço.
Fell é a história do detetive Richard Fell, recém-transferido para o departamento de policia de Snowtown como punição por algo que Ellis nunca nos informa. Só sabemos que Fell foi condenado a Snowtown. Só que ele não é do tipo que irá ficar de braços cruzados contando o dia para aposentadoria. Fell tem uma missão impossível: lidar com o crime numa cidade arrasada e fora dos eixos e com um departamento de policia composto de “três policiais e meio” e ele cumpre esta tarefa da forma mais profissional possível. A série é uma espécie de longa crônica de frustrações de Fell, enquanto ele lida com diferentes maneiras que o ser humano encontrar para ferir um ao outro. #8 que apresenta uma noite especialmente carregada de casos, o mostra no seu momento mais desesperançoso, mas mesmo ali frustrado e irritado com tudo que Snowtown joga em seu colo, ele segue de cabeça erguida. O que torna Richard Fell o melhor dos protagonistas de Warren Ellis desde o Spider Jerusalém de
Transmetroplitan, é justamente esta determinação. Ele é um homem com a missão de reter o mal que pesteia Snowtown e apesar de todas as reviravoltas e merdas que lhe acontecem, ele segue sempre tentando fazer o melhor possível. Ellis às vezes é um autor enamorado demais por niilismo, mas em
Fell ele alcança o balanço perfeito.