Cinema - Cultura - Comportamento
Megadeth, egotrip heavy metal
Por Alexandre Bury
É certo que Dave Mustaine, guitarrista/vocalista do Megadeth, não se conformaria em ocupar segundo plano de nenhuma banda – mesmo que essa for o Metallica, grupo do qual foi expulso ainda no estágio da gravação de fitas demo, no início dos anos 80, por conta de sua proeminente egolatria. O que esse cara sempre quis foi ser o centro das atenções, não se pode negar; e, já que James Hetfield e Lars Ulrich lhe deram um senhor bico nos fundilhos, ele logo tornou-se o autoproclamado chefão do Megadeth com o nada modesto intuito de, em pouco tempo, fazer desse seu projeto uma das maiores bandas do thrash metal americano. Obsessivo e talentoso, não descansaria enquanto não chegasse lá. Conseguiu.
E isso também por conta de outro fato incontestável: esse controverso frontman sempre fez as coisas de acordo com seus próprios termos. Musicalmente, nunca teve medo de arriscar-se para além dos limites impostos pelos radicais headbangers, e sua língua ferina sempre se mostrou disposta a opinar sobre os mais diversos assuntos, doa a quem doer (como em episódios recentes, onde se colocou a favor da Guerra do Iraque e do presidente George W. Bush; além, é claro, das constantes alfinetadas nos ex-companheiros de Metallica). Seu mau-humor e impaciência tornaram-se folclóricos (as respostas atravessadas que dava nas entrevistas faziam de gato e sapato até mesmo repórteres experimentados), potencializados pelo uso constante de drogas – fatores que ajudaram, inclusive, a dissolver as talentosas formações reunidas nos três primeiros álbuns do quarteto. A partir de Rust in Peace, quarto disco de estúdio da banda e uma das pedras fundamentais do metal americano, passou por tratamentos de reabilitação, reuniu a melhor trupe de músicos que já teve ao seu redor e passou, assim, a gozar seus dias de glória.
Só que, se internamente o grupo vivia sua melhor fase, a partir do lançamento seguinte, o discutido Countdoun to Extinction, sua música sofreria drásticas modificações. Afinal, era o momento de explosão do Black Álbum do Metallica, onde as bandas thrash que surgiram nos anos 80 buscavam alternativas para evitar o desgaste anunciado de suas sonoridades – então, visto agora, nada mais natural o rumo que o Megadeth tomou a partir dali. O seguinte, Youthanasia, confirmou de forma ainda mais evidente o que Mustaine pretendia nessa nova fase: canções simples, curtas e diretas; bem arranjadas e extremamente melodiosas (nesse contexto, a impressionante evolução de seu vocal é ponto a se destacar), mas sem nunca descuidar do peso de suas guitarras. Os fãs da fase thrash chiam até hoje; porém, a independência criativa de Mustaine sempre se manteve acima de qualquer intransigência.
Pois eis que, alguns anos depois, chega-se ao limite desse processo: Risk, álbum que, em diversos momentos, soa comodamente próximo ao pop rock. Sem exagero! Distanciou-se demais das raízes cruas e acintosas do Megadeth, a léguas de distância daquela banda raivosa que ajudou a sacudir a história do metal em seu país (e no mundo, porque não?). Seu sucessor, The World Needs a Hero, com o grupo totalmente reformulado, tentou juntar os cacos; mas foi tamanho o desastre do anterior que poucos deram importância ao fim do conjunto (decretado por conta de um problema nos punhos de Mustaine, que o impedia de tocar guitarra satisfatoriamente – será?). Depois retornaram de forma até certo ponto discreta, e lançaram dois álbuns de estúdio desde então.
Os quatro, agora, retornam ao Brasil na turnê de divulgação do recente United Abominations, lançado ano passado (e que conta com letras no mínimo estranhas para uma banda que já se posicionou tão contrária ao status quo norte-americano). E essa é a sétima vez que comparecem a shows por aqui – a mais marcante delas, claro, continua sendo a impecável apresentação no Rock in Rio II, em 1991, quando no auge da carreira, na turnê do fenomenal Rust in Peace. Acompanhado por músicos até certo ponto desconhecidos (Chris Broderick nas guitarras, James Lomenzo no baixo e Shawn Levy na bateria), Dave Mustaine agora é, mais do que nunca, a encarnação absoluta da banda que formou há mais de duas décadas atrás – e o que poderia ser mais apropriado para alguém tão reconhecidamente egomaníaco?
Killing is My Business... and Business is Good! (1985)
Mustaine, mesmo em meio ao furacão thrash que sacudia a Califórnia com o surgimento de diversos grupos de impressionante qualidade, chega ao vinil disposto a mostrar serviço – e exalando crueza por todos os poros. Incipiente, mas repleto de cativante energia e já dando pinta do que o Megadeth iria ser quando crescer.
Peace Sells... But Who's Buying (1986)
O ano de 1986 foi capital para o metal americano: tanto Master of Puppets, do Metallica, quanto Reign in Blood, do Slayer, obras definitivas não só para o thrash, mas para toda a música pesada que a partir dali surgisse, foram lançados naquele tão especial momento. E o Megadeth ajuda a abrilhantar o período (e o próprio levante thrash como um todo) com esse seu segundo álbum - e, mesmo em meio a uma concorrência tão qualificada, mostra que possui personalidade e ambição suficientes para fazer as coisas acontecerem a seu favor. Muitos ainda consideram este o seu melhor lançamento.
So Far... So Good... So What! (1988)
Já uma potência do metal norte-americano, o Megadeth se incumbe, aqui, de consolidar a sonoridade estabelecida nos dois registros anteriores, e mostra-se, através das guitarras timbradas de forma assassina, uma das poucas a ainda apostar na crueza como força motriz de sua música. Um ótimo álbum, e que também serve como especial aperitivo para seu bombástico sucessor.
Rust in Peace (1990)
Um dos maiores discos da história do thrash metal – e certamente o último grande álbum do estilo feito por uma banda americana. Mustaine, aqui circundado por uma banda de predicados indiscutíveis (com Marty Friedman na guitarra e Nick Menza na bateria, além do fiel escudeiro David “Junior” Ellefson no baixo), mostra que pode compor sozinho obras-primas do porte de " Holy Wars", " Tornado of Souls" e " Five Magics", com seu instrumental complexo e letras politizadas repletas de corrosiva ironia (e que fazem espelho à própria arte da capa). O mais agressivo e brutal lançamento da carreira do quarteto – e o ápice indiscutível da proposta de sua primeira fase.
Countdown to Extinction (1992)
Se até o momento o Megadeth ascendia em sua carreira independente do Metallica, aqui os caminhos das duas bandas voltam a se encontrar. O Black Album, impressionante sucesso de vendas ao redor do planeta no início dos anos 90, deu a letra; e Mustaine, perspicaz como ele só, abriu maior espaço a Friedman (guitarrista de notável senso melódico) e, conseqüentemente, inverteu o processo de Rust in Peace: ao invés de crueza, polimento; ao invés de complexidade, simplicidade. Assim, Countdown..., mesmo que irregular, é de vital importância porque faz-se o divisor de águas na carreira do grupo.
Youthanasia (1994)
Radicalização do processo iniciado em Countdown to Extinction, Youthanasia transforma de vez a música do Megadeth. Agora, as melodias estão em total evidência, e os temas grudentos se sucedem – o que abriu ao grupo um bom espaço no mainstream do período (e, claro, garantiu polêmica com seus contrafeitos fãs). Mas, nesse rearranjo da sonoridade do quarteto, necessário à sua sobrevivência em meio à visível decadência do thrash como gênero musical, algo ainda parecia fora do lugar.
Cryptic Writings (1997)
Mustaine parece finalmente sentir-se confortável com esse novo Megadeth, e, aqui, com a ajuda de uma formação já há quatro discos reunida (um recorde para o grupo), desenvolve melhor o que já fora proposto nos dois álbuns anteriores. A fase Peace Sells.../Rust in Peace estava definitivamente sepultada, para desespero dos fãs puristas; mas esse Megadeth adulto, mais sério e introspectivo, mostra também inegáveis qualidades e, assim, cá nos entrega o seu melhor produto.
Risk (1999)
Pois é... Se o Metallica tem seus Load/Reload, o Megadeth fez Risk, seu disco mais problemático e impessoal. Representa o momento de culminância dessa segunda fase do quarteto (assim como Rust in Peace o havia sido na primeira etapa de sua carreira), mas fica evidente o quanto Mustaine e seus comparsas se encontravam deslumbrados por demais com as benesses do ‘music business’. E, em que se pese a coragem do vocalista em levar o grupo até um ponto tão arriscado (o trocadilho é inevitável), esse foi um passo muito mal dado que, inclusive, implodiu a formação que já estava junta há cinco discos. Algo precisava ser feito, pois.
The World Needs a Hero (2001)
A admissão do erro força o artista a olhar suas raízes – e isso é o que o que move The World Needs a Hero. Mas trazer o Megadeth de Peace Sells... e Rust in Peace de volta era impraticável (até porque os dois discos eram também produto direto de uma época), o próprio Mustaine tinha total consciência disso – portanto, restou ao guitarrista/vocalista tentar resgatar, ao menos, uma centelha da energia que o motivava no início. O resultado é como um Cryptic Writings mais amargo, e que tem como principal qualidade essa reflexão a respeito de sua carreira (como a última faixa, de nome Return to Hangar, deixa absolutamente claro). O disco antecedeu um recesso de três anos nas atividades do grupo.
The System Has Failed (2004)
![]()
Álbum que marcou o retorno do Megadeth, após a recuperação total de Mustaine. E, se antes os outros músicos dividiam com eles os holofotes, agora as coisas assumem ares de projeto-solo (tudo aqui foi registrado por profissionais de estúdio) – mas isso sem alterar as características primordiais desde sempre presentes em suas canções. Menos um registro com maiores ambições do que uma cautelosa re-acomodação ao cenário metálico.
UNITED ABOMINATIONS (2007)
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
Para comprar os numeros antigos da versão impressa, clique aqui.