Cinema - Cultura - Comportamento
DANGEROUS GAME. (EUA, 1993). De Abel Ferrara. Com Harvey Keitel, Madonna, James Russo. LWF. Formato de tela: 1.85:1 108min
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Em Olhos de Serpente existem questões corriqueiras da obra de Abel Ferrara e que enchem os olhos: um filme dentro do filme, os excessos dos personagens, o paradoxo e a síntese entre a vulgaridade e o sublime (onde entram as dualidades vídeo-película, ficção-documentário), a religiosidade que tem mais de desespero do que de transcendência, entre outras coisas. Tudo que fez a fama do diretor e tudo que o legitimou como autor e que reforçou o mito do cineasta malucão, radical, outsider e etc. Acredito que se nos aprofundarmos nessas questões é possível que tiremos daí coisas impressionantes a respeito do cinema de Abel Ferrara, mas por outro lado o perigo eminente é fazer disso tudo desculpa pra discutir aparatos, formatos e questões que definam a idade da imagem em que nos encontramos e etc. Em outras palavras: fugir do filme e escapar do assunto.
Por isso o que importa é constatar que existem de imediato três coisas que chamam a atenção em Dangerous Game (o título nacional Olhos de Serpente é uma lástima) e que definem o que Ferrara pretende e qual a sua moral como cineasta: a primeira é o encontro entre Eddie Israel (Harvey Keitel) e sua esposa Madlyn (Nancy Ferrara) quando ele vai atrás dela em Nova York e, depois de contemplar o filho dormindo e constatar a ordem, a calma do lar, lhe confessa que foi infiel por diversas vezes. A segunda é a proximidade ofuscante do rosto dos personagens. A terceira é a busca exaustiva de um mínimo de emoção real, de autenticidade nas cenas de briga entre os protagonistas do seu filme, interpretados por James Russo e Madonna.
Ferrara não gosta de falsificar conflitos. A busca desses três itens é o de lapidar o material que o filme de cinema (ficção-documentário-vídeo-película) tem inclinação por falsificar. Por isso a encenação, a reencenação, não importa se do filme dentro do filme (em que o cineasta provoca os atores e conspira CONTRA eles para que se tire daí alguma emoção real), das entrevistas e dos planos frontais, ou da própria história de Eddie Israel que é abertamente a construção mais irônica e falsa do filme. Quando ele conta para mulher que a traiu, primeiro temos o lar pacificado, depois quando ele decide falar com a esposa, há planos e contra-planos de diversos ângulos, uma bomba que desestrutura toda representação conciliada...e falsa. Seu objetivo é a questão humana, o cinema como possibilidade da vida em olhar as coisas com um mínimo de verdade.
Francis Vogner dos Reis
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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