O Tempo e o Lugar

(Brasil, 2008) De Eduardo Escorel. Videofilmes. Projeção: 1.85:1 97 min.



Não é necessário lembrar da importância de Eduardo Escorel para o cinema brasileiro. Realizador de pelo menos um grande filme, Ato de Violência, de 1980, e técnico importantíssimo em centenas de filmes, como montador ou roteirista, seu nome se confunde com a evolução de nosso cinema desde os anos 60.

Por isso, talvez, seja ainda mais decepcionante encontrar, em O Tempo e o Lugar, algumas conivências com a fórmula fácil do documentário recente: criar uma narrativa por meio de entrevistas, no caso, com o líder do MST em Alagoas nos anos 90, Genivaldo, sua mulher e seus seis filhos, todos seguindo, direta ou indiretamente, a carreira política. A mulher é política ao ser a esposa fiel e dar o amparo necessário às aventuras de Genivaldo (nas lutas ou no sossego). A filha é política ao desmanchar um noivado com um homem machista, que não permitiria que ela trabalhasse. Alguns filhos são militantes, às vezes com ideologias contrárias. Outros são seguranças, políticos do dia-a-dia. O próprio retratado foi candidato a prefeito de Inhapi, uma cidade no interior de Alagoas.

O diretor volta ao institucional que fez para um banco em 1996, chamado Gente que faz. Volta também aos depoimentos dados por Genivaldo em 2005, volta às filmagens finais, e aos novos depoimentos em 2007. Uma constante releitura, um aprendizado e um questionamento das opções radicais que foram tomadas em sua vida.

Aonde quer chegar Escorel? À conclusão um pouco forçada de que a luta pela conquista de terra é uma fase, depois a coisa se torna mais diplomática e miúda, a arte de comer pelas beiradas? Ao velho bordão da calmaria após a tempestade, traduzida num estado mental do protagonista, que outrora freqüentava manchetes de jornais e agora é um pacato pai de família com muitas ramificações políticas - o que lhe garante mais poder do que nos anos de luta? Mostrar que a vitória aparente pode significar uma derrota, no fundo, e que a derrota aparente não é necessariamente um a derrota na vida?

eja como for, o relato de Escorel é muito, mas muito mais forte quando se concentra nas pequenas coisas, nos silêncios da vida sossegada, e com terra, na paz de alguém que se cansou de lutar pelo que achava justo. Quando abandona as entrevistas para se centrar nesse mundo pelo qual lutam, ainda, muitos "sem-algo", consegue atingir muito mais do que com palavras, frágeis veículos para dar conta de um passado tão contraditório quanto difícil. Vários passados, no caso de Genivaldo.

Sérgio Alpendre

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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