Cinema - Cultura - Comportamento
Faber and Faber (Importado). 484 pags.
Um dos maiores desafios ao se escrever sobre Otto Preminger é justamente separar a figura pública que o cineasta projetava das evidências dos filmes. Logo, poucos cineastas precisavam tão urgentemente de uma biografia de fôlego, ao mesmo tempo que poucos tornavam tal operação tão perigosa. A chegada deste The World and Its Double: The Life and Work of Otto Preminger é portanto uma grande noticia. Chris Fujiwara é uma excelente escolha para biógrafo do cineasta, tendo antes escrito um excelente livro sobre Jacques Tourneur e também um dos melhores ensaios disponíveis sobre Preminger.
Fujiwara é um crítico preciso justamente porque sabe reconhecer certas limitações de estudos autoristas. Seu livro sabe ser duro com os filmes menos bem sucedidos do começo e do final da obra do cineasta, assim como sabe reconhecer que os elementos mais interessantes em muitos dos filmes da fase Fox de Preminger estão às margens dos projetos. Mesmo assim, há defesas entusiasmadas de filmes pouco queridos como Forever Amber e Saint Joan que deixam o leitor muito curioso para revisitá-los. O formalismo de Fujiwara pode soar árido para alguns, mas ele nunca é menos que preciso nas suas observações e sabe casar muito bem o trabalho critico com o de pesquisa biográfica.
Preminger dirigiu muitos grandes filmes ao longo da sua carreira: Laura, Daisy Kenyon, A Ladra, Bom Dia Tristeza, Anatomia de um Crime, Tempestade sobre Washington, O Cardeal, A Primeira Vitória, Bunny Lake Desapareceu e O Fator Humano . É uma obra rica e variada e Fujiwara sabe variar o registro de forma a fazer justiça a toda ela, mas o livro cresce justamente quando o biógrafo passa a lidar com o período da primeira metade da década de 60 em que Preminger dirigiu uma série de grandes produções bastante expansivas nas suas ambições e no desejo de lidar com grandes instituições americanas. Fujiwara reconhece ali o momento maior da obra de Preminger, com razão eu diria, e mais do que nunca a intersecção entre o cuidadoso trabalho de pesquisa sobre cada produção e o olhar lúcido do crítico se encontram. Faz sentido já que estes filmes são casos raros de casamento entre grandes exercícios logísticos de produção e um olhar preciso e sem concessões para os universos abordados. Só por estes filmes Preminger seria um dos nossos maiores cineastas e Fujiwara faz um grande serviço em iluminá-los.
Filipe Furtado
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior., Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria.
Programação visual: Renan Fogaça
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