A Espiã

BLACK BOOK. (Holanda, Alemanha, Bélgica, 2006). De Paul Verhoeven. Com Clarice Van Houten, Sebastian Koch. Europa. Projeção: 2.35:1. 145min.



Verhoeven nunca foi muito querido em sua terra natal. Sua insistência em retratar a sordidez humana e sua falta de cerimônia na hora de abordar o sexo e o poder que resulta dele, não fazem com que ele seja visto como uma pessoa confiável para tocar um filme que envolva dinheiro. Por isso, Verhoeven se mandou para os EUA, onde fez seus melhores filmes, Robocop e Tropas Estelares, e também foi tido como persona non grata. Em entrevistas ele costuma reclamar que nos últimos anos ele só podia fazer filmes de ficção-científica. Depois do fracasso de O Homem Sem Sombra (2000), filme bem irregular, mas que tem alguns fãs respeitáveis, ele foi meio que jogado para escanteio.

Seis anos depois, Verhoeven volta a filmar na Holanda com A Espiã, a história de Rachel Stein, uma judia que, depois de ter visto sua família sendo assassinada por nazistas no meio de uma fuga para a Bélgica, país não invadido, resolve trabalhar para a resistência. Uma tardia tentativa de conter a dominação nazista, que tomava para si riquezas e orgulhos da pátria invadida. Na Holanda, Verhoeven comenta, uma parcela pequena dos judeus sobreviveram ao Holocausto, e isso se deve ao alto índice de colaboracionismo do povo holandês, considerado "povo germânico" pelos alemães, ressaltando as mesmas origens dos dois países.

A resistência já havia sido tema de um outro filme holandês do diretor, Soldado de Laranja (1977), filme mais comportado e bem humorado, com o futuro astro Rutger Hauer e um inspirado Jeroen Krabbé, e com muito pouco da melancolia torturante de A Espiã. Foi durante a pré-produção de Soldado de Laranja que surgiu a idéia do novo filme, mas ela ficou congelada até meados dos anos 80, quando o roteiro e as pesquisas tiveram início. Talvez a pesquisa não fique tão evidente porque Verhoeven realiza aqui o seu filme que mais se aproxima de um classissismo. Existe, acima de tudo, uma preocupação com a narrativa que é muito maior que em qualquer outro filme seu - exceção feita a Instinto Selvagem. Tudo parece estar a serviço do bom entendimento da história, de seu desenrolar e da construção dos personagens. Há um senso muito grande de contenção, mas também de uma justeza absoluta no tom.

Justeza no tom é justamente algo que falta à maioria de seus filmes, e muitos se beneficiam desse desequilíbrio. Em O Quarto Homem, o melhor da primeira fase holandesa, Jeroen Krabbé vive o personagem que está submerso na lógica de um pesadelo, e desse pesadelo podemos ter consecutivamente: o mais exagerado dos tons, assim como o mais morno. Em Tropas Estelares, talvez o seu filme mais bem-sucedido nessa operação de desequilíbrio constante, há uma alternância tão grande nas entonações dos atores, que em alguns momentos nos perguntamos se foi operado um crossover entre o filme original e mais uma versão de Invasores de Corpos, mas essa operação é o que faz o filme funcionar perfeitamente na chave política a que ele insistentemente se afilia. Se pensarmos em Casper van Dien como um herói tradicional, ou em Denise Richards como o contraponto feminino clássico, o filme nos escapa, logo, é necessária uma calibragem em nosso tom como espectadores, para que nos adaptemos à sua estranheza. Showgirls é outro exemplo, mas aí seria necessária uma operação tão ousada como a que ele aplicou depois, em Tropas Estelares, mas, por receio de que a vulgaridade excessiva do filme fosse prejudicar sua carreira comercial - como de fato acabou prejudicando -, houve o recuo. Verhoeven ficou no meio do caminho, realizando apenas um bom filme, no lugar do divisor de águas que poderia ter sido.

A Espiã mostra um outro diretor. Não temos um Verhoeven tão diferente, mas um Verhoeven maduro, ciente do potencial de seu filme. Com seu classissismo, não demorou para que eu lembrasse de Lili Marlene (1981), uma das obras essenciais de Fassbinder. E talvez a chave de tudo esteja em Douglas Sirk, alemão que foi aos EUA e realizou um dos mais tocantes melodramas de guerra já feitos: Amar e Morrer (1958). Tanto o filme de Fassbinder, como o de Verhoeven, parecem devedores da justeza tonal de Sirk. Não é uma herança facilmente sentida, justamente porque o tom é aquele elemento escondido entre as engrenagens da dramaturgia, encrustado sob muitas camadas mais sensíveis ao espectador.

No entanto - e há sempre um "no entanto" em se tratando de Verhoeven -, os traços de sua autoria estão presentes o tempo todo, seja na interpretação irresistivelmente carnal de Carice van Houten como a espiã do título brasileiro, em cenas de sexo e nudez que feriam os censores de mercado americanos espumar de desespero, e a crueldade com que pinta os holandeses, em sua maioria tão próximos de abraçar um herói de araque quanto de torturar desumanamente uma suposta colaboracionista - como a maior parte deles foi, durante a guerra. O diretor ainda tem a coragem de dar as melhores características a um alto oficial nazista, responsável pela SS na Holanda. Esse oficial, interpretado pelo ótimo ator Sebastian Koch, pode muito bem ser considerado o nazista mais cativante da história do cinema, o que se deve muito ao carisma do ator. A crítica é sempre um ponto forte no cinema de Verhoeven, e não seria diferente ao lidar com um orçamento de 16 milhões de Euros.

Traçando um paralelo com o filme-irmão Soldado de Laranja, em A Espiã é notável como o diretor consegue ao mesmo tempo ser mais sucinto, sem firulas ou tempo para o humor - que faziam a graça no outro filme, mas não caberiam aqui, e também imprimir uma melancolia extrema, uma sensação de perda da razão muito forte. Verhoeven consegue nos inserir num clima de guerra permanente, em que nem a libertação pode ser comemorada - como Rachel prevê, na segunda parte do filme, sem dúvida a mais dolorosa. O final mesmo se insere numa desesperança incrível, como se não houvesse saída para a personagem, seu destino era o sofrimento, contra o qual ela deveria lutar durante toda a sua vida. Voltamos ao kibutz do início, quando ela encontra uma antiga colega de romances com nazistas, que agora é bem casada. Mas estamos em 1957, e o processo de consolidação do Estado de Israel reservava ainda muito mais sangue. O que fica nas entrelinhas é o que a personagem passou para chegar até ali. O que ela teve que fazer para sobreviver entre o 1945 da libertação européia e o 1957 de sua vida casada e com filhos, no kibutz israelense. Como esquecer o amor entre ela e o oficial nazista, que se tornou tão forte a ponto de fazer com que a oprimida relevasse as raízes do opressor, e vice-versa, fazendo com que ambos sofram com o final da guerra. Sabemos que sua condição de judia foi exacerbada, alçada por ela mesma a uma questão vital: uma vida dedicada às suas origens, a educar crianças que fariam prosperar o futuro lar de seus iguais. Seu rosto, no entanto, guarda tanto sofrimento, tanta resignação, que é difícil não nos condoermos de sua frustração, não nos identificarmos com a sua projeção de uma vida que poderia ter sido, mas foi cruelmente abortada por estilhaços de uma guerra já terminada. Além de ser um belíssimo e impactante thriller de espionagem da II Guerra Mundial, A Espiã se revela, até com mais força, um triste e pessimista retrato de uma desilusão.

Sérgio Alpendre

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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