Cinema - Cultura - Comportamento
THE TARNISHED ANGELS. (EUA, 1947). De Douglas Sirk. Com Rock Hudson, Robert Stack, Dorothy Malone. Classicline. Projeção: 2..35:1. 91min.
Nos primeiros planos de Almas Maculadas , os elementos do jogo que vai se desenrolar no filme destacam-se em sequência: o ano, segundo uma manchete de jornal que um personagem lê, é de 1932, auge da Depressão, índice de um universo decadentista onde qualquer relação se coloca sob o princípio da manipulação e do interesse; um parque de diversões onde pilotos outrora bem-sucedidos arriscam hoje a vida numa mascarada aérea; e os personagens do filme, mostrados segundo a ordem da economia narrativa: o personagem de Rock Hudson, Burke Devlin ,jornalista interessado nesse Grand Guignol de heroísmo, é o primeiro que a câmera enfoca. Ele será a testemunha do drama, o sujeito exterior ao círculo de paixões e poder que o filme vai encenar , personagem que a câmera vai enquadrar quase sempre no extremo do scope, espécie de anjo cujo olhar inquiridor vai se incumbir de analisar e julgar a situação, em um dado momento envolver-se nela para, num último ato, distanciar-se novamente e possibilitar a redenção da heroína. Logo após, em planos sucessivos, as engrenagens do mecanismo propriamente dito: o ex-herói de aviação Roger Shumann ,vivido por Robert Stack e os peões de seu jogo particular, a mulher LaVerne Shumann, interpretada por Dorothy Malone, o amigo Jiggs (Jack Carson) seu mecânico fiel e finalmente o filho (Christopher Olsen), que abre a primeira cena dramática envolvido numa disputa onde seu pai é ridicularizado.
Não à toa cabe ao personagem de Hudson livrar o menino, na seqüência dramática que abre o filme, das garras do homem que o importuna. Ele é o único personagem a princípio (e por princípio) estrangeiro ao universo afetivo que relaciona os outros personagens; estes são encadeados por Sirk num círculo de ressentimento que se estrutura a partir de uma série de cenas em que os corpos são confrontados em grupos de três ou dois. A economia do poder é instável, personagens mudam de posição no espaço do cadre a cada cena, mas geralmente é na figura da mulher, Dorothy Malone, que se concentra, como num eixo centrífugo e trágico, as atitudes e os gestos dos homens, seu marido e o mecânico amigo. A mulher não é apenas o ponto de acirramento dramático, o núcleo por meio do qual o passado submerge, com sua lava mercurial, o presente dos personagens. Ela também é a possibilidade de saída da cena trágica, sua sublimação num horizonte de desejo e afeto. Progressivamente e por meio da influência de Hudson, ela se transforma no sujeito de resistência ética do filme, a negação da decadência que ameaça soçobrar a todos os personagens.
A criança, habitualmente associada à expectativa de futuro e libertação, permanece subordinada a ela, quase colada a seu corpo em alguns planos significativos; o verdadeiro receptáculo da redenção desse grupo decaído é ela, é a ela que Burke Devlin se endereça direta- através dos diálogos,- mas também indiretamente, por meio de um jogo cambiante de entonações, gestos lânguidos e contemplação melancólica que transforma o corpo do ator numa espécie de prolongamento do décor onde suas cenas a sós com Malone acontecem: lugares de penumbra suave e acolhedora, onde surge a possibilidade de todo e qualquer encontro.
Por contraste, os décors onde o grupo composto por Malone, Starck e Carson reencenam a miséria de um passado ao qual não se pode escapar resplandecem numa fotografia acerba, ríspida e lancinante; o tom das cenas onde os três velhos amigos estão reunidos lembra o de certas seqüências de Samuel Fuller ( diretor, no entanto, bem distante do estilo e intenções habituais de Sirk), onde a montagem, a posição no espaço e a textura da fotografia subordinam atitudes corporais dos atores a uma torrente emocional que destaca, contra o fundo negro e apocalíptico do décor, a iridescência de seus corpos.
É claro que Sirk nos permite o acesso a esse inferno emocional de outra maneira, basicamente através de mediações estabelecidas pela mise-en-scéne; a arena encantatória onde o personagem de Stark manobra o amigo e vende a mulher para satisfazer suas ambições é um teatro gélido, muitas vezes hierático, um meio de cultura onde as luzes, os espelhos, os enquadramentos enviesados refletem uma fantasmagoria que não cessa de assombrar os personagens e refletir-se na encenação. Os espelhos em Sirk não devolvem nossa imagem, mas a máscara de um mundo reificado, que não corresponde mais a nossos desejos. Seus personagens trafegam entre aparências para soçobrar entre seus próprios despojos. Em Almas maculadas , essa mascarada é assumidamente posta sob a ótica expressionista, décor enfeitiçado da festa a fantasia na casa de Malone, onde a dança dos personagens ( fluxo intermitente que tem seu reflexo na montagem alternada do encontro entre Malone e Hudson) estilhaça o jogo das aparências numa ciranda de acordes, ritmos e gestos que entroniza a alegoria: estamos diante de um mundo arruinado, onde as paixões humanas são encarnadas por títeres, onde unicamente resta ao teatro “pôr em cena”( mettre em scéne) o próprio palco vazio, de onde qualquer aspiração à Verdade deserdou.
Se a princípio nos iludimos, julgando que Stark comanda o jogo, Sirk logo nos confunde, revelando a mise-em-scéne como o marionetista-mor desta farsa, o ponto de oclusão a partir do qual todo efeito de verdade, todo entrecho narrativo se articula: no flashback onde nos é revelado, logo no início do filme, que Stark decidiu o casamento com Malone num jogo de aposta, a câmera, até então fixada no personagem, recua e nos mostra o bar enfumaçado, irreal, onde a ação se desenrola. Ficamos fascinados com o reflexo do grupo que se delineia no espelho, o modo como a re-apresentação da trama toma o lugar da própria trama; no seio dos efeitos de verdade mais integrados à lógica narrativa (o flashback tem a função não apenas de informar a Devlin sobre o caráter de Roger Shumann, mas de estabelecer a ligação estreita e pesarosa entre os personagens de Malone, Stark e Carson, pois ambos os homens disputavam a mão da mulher), Sirk nos brinda com clins d'oeils que demarcam o terreno da experiência com os rutilantes marcos da encenação. Essa experiência, embora decaída, fantasmagórica, permite entrever certos pontos de fuga epifânicas, contrapontos emocionais aos planos de conjunto, onde a tensão impera.
Nesse sentido, o filme também revela o talento de Sirk em compor um verdadeiro mosaico rítmico, onde ressoam motivos líricos, aventurescos, movimentos bruscos e alívios da tensão, particularmente centrados nos interlúdios entre Hudson e Malone, mas que iluminam também as cenas de Hudson no escritório do jornal, os encontros com a criança. Esse equilíbrio dramático, plástico e musical do filme, nascido da alternância das seqüências demoníacas, de marcação expressionista e das cenas luminosas reproduz a trajetória cambiante da personagem de Dorothy Malone, figura de uma profunda ambigüidade que se equilibra entre a escuridão e a luz e que escalona os movimentos dos outros personagens.
Entre a paixão da personagem por Roger Shumann e a serenidade elegíaca que dá o tom de suas cenas com Devlin (Hudson), plana a maestria de Sirk em pintar a redenção com todos os semi-tons e nuances de que um grande moralista é capaz, verdadeiro aquarelista de uma paleta de cores tão variada quanto sedutora.
Luiz Soares Júnior
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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