A Árvore, o Prefeito e a Mediateca

L´ARBRE, LE MAIRE ET LA MÉDIATHÈQUE. (França, 1993). De Eric Rohmer. Com Pascal Greggory, Ariel Dombasle. Projeção: 1.33:1. 105min.


O cineasta moderno que declarou que uma das características de modernidade dos filmes americanos era o fato de este ser um cinema "do avião, do carro e da metralhadora" (da máquina) atacava sem meias medidas o antiquado cinema francês (a "tradição de qualidade"), herdeiro do teatro burguês do século XIX e do realismo psicológico literário.

Eis que este cineasta é Eric Rohmer. Ex-crítico da revista Cahiers du Cinema e diretor que conta mais de duas dezenas de filmes, Rohmer sempre foi chegado a um cinema romanesco e de unidade teatral. Seu assunto é o homem, não a máquina. Só que diferente da "tradição de qualidade", o cinema que faz é o do arranjo e da convivência (não da sincronicidade) entre a palavra e o gesto, ou seja, Rohmer é um cineasta que ama o trivial cinematográfico, seus filmes são muito simples, as tramas em sua maioria, prosaicas, em que nada parece acontecer. Ele concebe um cinema de "cena", que depende da relação do ator com a câmera, do que é dito e do que fica implícito, da economia, não da gratuidade.

Assim como O Signo do Leão, As Quatro Aventuras de Reinette e Mirabelle e A Inglesa e o Duque, A Árvore, o Prefeito e a Mediateca é um de seus trabalhos que não fazem parte de suas séries (Contos Morais, Contos das Quatro Estações, Comédias e Provérbios) e é também um estudo sobre o choque entre o que os personagens dizem, imaginam e afirmam (seus personagens são sempre categóricos), e as condições de colocar em prática o que se diz.

A Árvore, o Prefeito e a Mediateca parece em princípio ter um assunto mais complexo ou "importante": a política. A pendenga entre o prefeito do filme e o professor ecologista é a de construir ou não a mediateca ocupando uma área verde e derrubando uma árvore semi-morta. Nada mais preciso em se tratando desse tema: o que e como fazer com a ocupação dos espaços e o saber? Ora, seu filmes olham para o espaço (cênico e social) como território de disputas - seja com relação ao amor, à História ou ao cotidiano – e ao saber como uma ferramenta moral.

Só que não interessa a Eric Rohmer recorrer ao tablado da grande política e de seus episódios decisivos. Para fazer o que quer, as arestas, a pequena política interiorana, os assuntos pontuais – no caso a construção de uma mediateca em uma cidadezinha - , as relações na esfera privada. A comédia da política, portanto. Para o diretor a dramaturgia é um jogo, não de imagens falsas e verdadeiras como as de Alfred Hitchcock, gênio a quem sempre estimou e defendeu, mas um jogo em que todos os personagens acreditam que sairão vencedores. Mas os personagens do careta prefeito socialista, do ecologista ortodoxo e da garota cosmopolita, entenderão o desfecho do conflito da mediateca segundo suas próprias convicções ao cantarem (em um formidável final farsesco) uma canção com a mesma melodia, mas com letras diferentes entre si. Todos perdem. Quem triunfa é Eric Rohmer, diretor da Nouvelle Vague que mais acreditou na importância da figura do autor.

Francis Vogner dos Reis

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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