Cinema - Cultura - Comportamento
Por Francis Vogner dos Reis
Indo do centro da capital paulista, pode-se chegar mais rápido à cidade de Atibaia do que a algum extremo da cidade de São Paulo. Tão perto de São Paulo, mas com uma identidade muito própria - Atibaia é uma instância turística com clima de montanha (segundo algumas informações, é o segundo melhor clima do mundo) e é onde se realiza há três anos o Festival de Atibaia Internacional do Audiovisual , que neste ano de 2008 aconteceu entre os dias 15 e 20 de janeiro.
Existe no Festival de Atibaia uma característica muito particular: é um festival de encontros, de parcerias com outros festivais, não por acaso é tido como o "festival dos festivais". Ou seja, é um festival que tem uma mostra competitiva de curtas-metragens (da recente safra brasileira) representando outros festivais nos quais foram premiados Brasil afora, assim como este ano agregou em sua programação uma seleção de filmes de festivais internacionais, como a Pan American Arts Film Festival (EUA), o Festival Pan Africano de Cinema e Televisão (Burkina Fasso) e a Mostra de Contis (França), além de organizar uma Mostra Dia Internacional da Animação , com curtas de animação de diversos países.
Mas uma das características que mais marcaram a identidade do festival tanto nessa edição quanto nas anteriores, foi a presença do movimento cineclubista, que é quem, de modo geral, por meio dos encontros e seminários, fomentou o debate que discutiu este ano as alternativas para a distribuição e exibição de conteúdos audiovisuais. Para quem não conhecia o festival de perto, é interessante ver como o movimento é que orienta as discussões acerca de temas que, se não são estranhos à atividade, atualizam de maneira considerável o debate em torno dos modos alternativos de exibição e difusão, assim como de outras possibilidades de mercado de cinema fora do circuito comercial tradicional.
A estruturação de um mercado alternativo de cinema, que possa chegar a quem não tem acesso à distribuição, foi um dos eixos de discussão que deu a tônica dos debates em Atibaia este ano. Boa parte da discussão foi orientada para a democratização do acesso aos filmes, sobretudo por meio da difusão digital, tanto que todos os participantes da mesa estão atrelados a trabalhos ancorados às novas tecnologias, seja no que diz respeito à exibição digital como possibilidade de chegar a um público sem acesso ao circuito comercial de cinema (Frederico Cardoso, da Programadora Brasil , e Felipe Macedo do Pop Cine ), seja na difusão de filmes via Internet (Carlos Seabra da Filmoteca Carlos Viera e Guilherme Whitaker do site Curta o Curta ).
São iniciativas novas que, apesar de parecerem às vezes meio sem forma (devido ao fato de se fazerem por meio de tecnologias recentes e de lidarem com difíceis questões legais – como direitos autorais por exemplo) parecem percorrer um caminho que aos poucos se revela indispensável na sedimentação das políticas culturais, que se ainda hoje parecem um tanto omissas, talvez nem seja tanto por má vontade política, mas sim pelo fato desse ser um campo novo que ainda espera por modelos e resultados efetivos que, como disse o cineasta Geraldo Moraes durante o debate, acontecerão "com vocês (o Estado) ou apesar de vocês".
A Mostra de Curtas: o dispositivo, o estilo e o pitoresco
Não é um prêmio que legitima um curta estar entre os melhores realizados em sua época, assim sendo, não quer dizer que os filmes que compõem a mostra competitiva de curtas-metragens do Festival de Atibaia sejam o "filé" da produção de curtas brasileiros produzidos nos últimos tempos, apesar de serem sim representativos do momento e de algumas tendências da produção atual do formato. A primeira parte da mostra competitiva de curtas (do dia 16) revela bem isso.
O vencedor do Troféu Sapuri por exemplo foi a animação cearense Vida Maria , de Márcio Ramos, que sem dúvida não é nem de longe o melhor que se faz em animação no Brasil, mas é representativa, no sentido que a tecnologia empregada para a animação se tornou usual no audiovisual contemporâneo (computação gráfica, pra falar em termos mais simplistas) assim como Vida Maria é um filme refém de seu dispositivo: os movimentos circulares – do início ao fim - em torno da personagem sertaneja que supõe a cada volta uma elipse nos períodos de sua vida é um dispositivo do qual não se desvencilha. Nas duas primeiras voltas a coisa toda até soa interessante, depois, mostra-se com uma imensa incapacidade de dizer algo além do seu "arrojado" ponto de partida.
Em O Jumento Santo e a Cidade que Acabou Antes de Começar , de William Paiva e Leonardo Domingues, ambos do Pernambuco, existe uma dinâmica muito próxima a que Jorge Furtado instituiu no curta-metragem brasileiro e que se tornou uma espécie de tradição, que é o da narrativa que trabalho om dezenas de informações diferentes por minuto em que uma informação (ou uma ação), puxa a outra, o que não deixa de ser um dispositivo.
Tomado pelo dispositivo é também o carioca Sete Minutos , de Cavi Borges, Júlio Pecly e Paulo Silva, que é filmado todo em plano-seqüência e do ponto de vista subjetivo de um traficante em um morro do Rio de Janeiro. Existe no filme desses diretores integrantes do "Nós do Morro" um frenesi que toma conta dos sete minutos de projeção. É em si, todo, clímax. Só que sua dependência do dispositivo é essencial e não faz dele um trabalho esgotado (e esgotável) e monolítico. O dispositivo do plano sequência e da câmera subjetiva foi usado a favor do projeto, não contra ele.
Se Almoço (considere um Jantar) , do paulista Thiago Ricarte se assemelha em alguma coisa à Vida Maria é justamente no emprego de uma estratégia que permeará todo o filme. A história de um almoço (mudo) em que as imagens que vemos são seguidas da proposta dos interstícios, como por exemplo: vemos um ator que aparece com uma garota o que se segue do insterstício com os dizeres (considere ele a namorada). O curta de Ricarte será ele todo feito por meio e o título inclusive já revela a proposta, porque o jantar é feito à luz do dia.
Além disso existem também dois exercícios de estilo que revelam o quão paradoxal é a empreitada. Um deles é Trópico das Cabras , de Fernando Coimbra, um dos trabalhos mais interessantes do Festival. O filme adota um eixo drámatico central do cinema moderno que é a de um casal dentro de um carro, assim como Viagem à Itália , Pierrot Le Fou e Uma Estrada para Dois . O interessante (e que muitos podem considerar um defeito) é que nessa proposta vemos a saturação dos signos do cinema moderno, o beco sem saída da representação da crise dos personagens, tanto que o casal protagonista se propõe a fazer um jogo que expõe o limite da relação deles, assim no final precisam representar "outros" para continuarem a perpetuar esse jogo.
Saliva , de Esmir Filho, também é um exercício de estilo, preocupado com a plasticidade e a beleza que é capaz de extrair da abstração de alguma cenas. É claro que Saliva se propõe a ser um filme sobre a experiência, assim como é clara também a tendência do diretor à fascinação da beleza que pode criar a partir das capacidades plásticas do seus trabalhos. Mas algo fundamental a sua premissa não ficou claro: que experiência é essa, já que na hora em que ela deva acontecer (o beijo) ele nos omite ela em favor de metáforas visuais? Não é dever do crítico dizer como o diretor deve fazer seu filme, mas questionar o que o projeto propõe e o que ele alcança. Saliva tem uma proposta, mas foge pela tangente.
Nos casos de Mauro Shampoo – Jogador, Cabelereiro e Homem , de Leonardo Cunha Lima e Paulo Henrique Fontenelle e Cine Zé Sozinho , de Adriano Lima, o centro são o personagem pitoresco (Mauro Shampoo) e excepcional (Zé Sozinho). Mauro Shampoo é uma mini-cinebiografia do cabelereiro que é também o "pior jogador do mundo" e se volta ao que o personagem tem de exótico. Já Cine Zé Sozinho é um relato heróico de Zé Sozinho, sertanejo que durante a vida exibiu filmes sozinho no sertão do nordeste. De alguma maneira os dois filmes descendem de matrizes diferentes de personagens do cinema brasileiro, o cômico pitoresco e o homem do povo, mas em um registro absolutamente contemporâneo: ambas as histórias desses personagens tem uma moral, que é a do heroísmo, do personagem que conquistou lugar a despeito das dificuldades e das particularidades de suas personalidades. Coisas essas que não conspiram para a qualidade desses filmes (não os tornam piores ou melhores), mas para a sua atualidade.
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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