Cinema - Cultura - Comportamento

Profit Motive and the Whispering Wind, de John Gianvito
Por Filipe Furtado
Ontem mencionei que Charles Burnett representava uma alternativa para a idéia que normalmente temos de cinema americano, hoje meu festival foi bastante marcado justamente por essa idéia, especialmente por conta do maravilhoso Profit Motive and the Whispering Wind, de John Gianvito. O cineasta é um professor universitario, programador e crítico bissexto que realiza aqui o seu segundo filme, um média-metragem de cerca de uma hora que parte de A People's History of United States, uma espécie de história alternativa dos EUA escrita por Howard Zinn a partir do ponto de vista de líderes sindicais, chefes indigenas, pioneiras dos diretos da mulher etc. Gianvito procura os memoriais e lápides das pessoas mencionadas por Zinn e os alterna com planos de natureza. O que emerge do mergulho de Gianvito é o profundo sentimento de história coletiva, assim como um exercicio poderoso de transformar memória em arma política. Alguns dos tumulos visitados são de nomes conhecidos (Malcolm X, Paul Robeson, John dos Passos), mas a maior parte nos daria trabalho mesmo numa pesquisa de Google. A influência do casal Straub/Huillet é visivel, e na ênfase na natureza, e em particular da força do vento – poucas vezes captado com tanto cuidado – Gianvito consegue fazer com que toda está história ressoe muito viva nos dias de hoje. A primeira vista uma descrição pode sugerir um filme dificil, mas bem distante disso, Profit Motive and the Whispering Wind é um filme emocionante e contagiante dentro do seu otimismo.
Jon Jost também está aqui com um filme político Over Here, que imaginamos circulará melhor do que outras obras deste talentoso cineasta experimental já que, como o catalogo do festival anuncia, é um filme sobre os efeitos do Iraque na psique americana. Desde o plano inicial – um close-up silencioso de um homem sofrendo que se alonga por minutos – sabemos que estamos num território bem distante de algo grotesco como No Vale Das Sombras do Paul Haggis. O drama sobre o veterano de guerra que está no centro do filme tem muito do que nós já vimos muitas vezes desde os filmes de Vietnã, mas Jost é um cineasta esperto e sabe tirar dele o inesperado e injetar uma força nova no que poderia ser surrado. È muito uma questão de apresentação de material, de como as informações são filtradas, da maneira como closes de rostos são usados para ressaltar como a história marca cada uma dessas pessoas, ou mesmo de saber injetar humor em momentos no qual nunca esperaríamos encontrá-lo (por exemplo, uma das seqüências mais angustiantes do filme dá lugar a uma canção sobre um soldado que conhece uma garota iraquiana que é ao mesmo tempo terrível, engraçadíssima e um comentário exato sobre como a guerra reflete a cultura diária). No momento chave do filme quando o veterano reencontra os pais, Jost divide a tela em três de forma que os três rostos permaneçam em cena por toda a longa duração do confronto de maneira que possamos perceber como cada um reage a cada palavra dita. Over Here é sobretudo um filme de uma raiva nada discreta, dolorosa, que às vezes beira o insuportável, um perfeito lado B para o Redacted de De Palma.
Menos bem sucedido é Ballast, estreia na direção de Lance Hammer, que participou da competição de Berlim e foi um dos filmes mais elogiados exibidos em Sundance. Hammer realiza um perfeito exemplar de filme de festival, tanto no que isto tem de positivo (e é inegavel que o cineasta tenha talento) e negativo. Um homem morre, seu irmão reage tentando cometer suicídio e acompanhamos o que estes eventos desencadeiam para o irmão, a ex-esposa e o filho do morto. O filme se passa num Mississippi paupérrimo que Hammer sabe usar muito bem a favor do seu filme (a locação é junto ao elenco amador o que Ballast tem de melhor). Os longos silêncios, os confrontos desprovidos de contexto, a câmera na mão constante, tudo sugere que Hammer estudou muito bem a cartilha do cinema de arte contemporâneo, especialmente os filmes dos irmãos Dardenne. Só que isto tudo por vezes termina simplesmente por nos distanciar do filme, mais do que ajudá-lo, Ballast só engrena na segunda metade, quando põe suas cartas na mesa e lembra da maior lição dos Dardenne: que o drama é mais poderoso quanto mais fisico e especifico ele se revele. E descobrimos que Hammer, tem sim um olhar próprio bastante apurado. Uma estréia de talento, ainda que nem tudo funcione.
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Jr., Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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