Cinema - Cultura - Comportamento

Death in the Land of Encantos, de Lav Diaz
Por Filipe Furtado
O cinema filipino que historicamente viveu do trabalho ocasional de alguns poucos cineastas (Lino Brocka, Mario O'Hara, etc) vem passando por um renascimento graças às possibilidades do cinema digital e uma jovem geração de cineastas com disposição para filmar barato de forma radical e sem concessões. O resultado já começa a chamar a atenção de alguns programadores e criticos mundo afora, e a seleção de filmes filipinos presente aqui no BAFICI é só um exemplo disso. Primeiro, vale destacar a figura de Raya Martin. O jovem cineasta tem só 24 anos, mas está aqui no festival exibindo seu quarto e quinto longa-metragem ( Box Office Next Atraction e Possible Lovers) e colhendo muitos elogios. A critica internacional, sempre pronta para fazer uma comparação fácil, vem chamando-o de Apichatpong Weerasetakhul filipino, o que não é muito útil, a despeito de ambos dividirem um gosto por narrativas bipartidas e o cinema de Andy Warhol.
Possible Lovers é um filme muito simples: um jovem gay está sentado num sofá em companhia do rapaz interessado e por cerca de 90 minutos tenta tomar coragem para agir. É um filme tão minimo que é garantia de enlouquecer a maior parte do público (o bastante tolerante público do festival abandonou a sessão em massa), mas é muito mais também: como romance warholiano é de uma capacidade de observação rara, cada movimento de respiração do rapaz importa e sempre que ele ameaça mover a mão podemos sentir a sala de cinema inteira ansiosa. É também um thriller muito tenso, onde a espera pela ação nos segura com os olhos grudados na tela.
Box Office Next Attraction é um filme mais amplo, com cerca de três horas de duração, multiplas locações e atores e até alguns movimentos de câmera. Uma das coisas que mais impressionavam em Possible Lovers era o uso do fora de campo atráves dos sons externos que se tornavam os condutores principais da narrativa. Box Office Next Attraction é um filme numa relação constante justamente com o que está fora da tela. Quando o filme inicia somos justamente lançados no contracampo de uma filmagem, ou seja no lugar de assistirmos o filme, vemos Martin e sua equipe rodando algo que nunca sabemos o que é. A equipe vai atravessa multiplas locações, posicionamento de cameras, certas tomadas são rápidas, outras longuíssimas, mas ao longo de todo este tempo temos apenas uma câmera fixa voltada para a câmera que está sendo usada e o movimento da equipe em torno dela. O filme segue de forma tão concentrada que quando algo aparentemente diferente acontece – um travelling, num primeiro momento desprovido de motivação, de um carro em movimento – ele nos chega como um completo choque. Quando o cineasta finalmente nos apresenta o filme que estava sendo filmado – uma narrativa bem simples sobre a noite de um jovem filmada em completo constraste com tudo que víamos até ali, num preto & branco estilizado e silencioso – algo surpreendente acontece, nosso conhecimento do que está transcorrendo do lado oposto da imagem reveste a narrativa de um valor íntimo ainda maior do que ela teria por si mesma. Martin é um cineasta para se observar com atenção.
O filme filipino mais ambicioso do festival, porém, é mesmo Death in the Land of Encantos, de Lav Diaz. Trata-se de um grande filme (literalmente, já que tem 9 horas de duração), onde Diaz parte de uma situação verídica, o tufão Durian que devastou a região onde a ação se passa matando milhares de pessoas, para urdir uma ficção alegorica sobre o retorno de um poeta a sua região natal. É espantoso o uso que o cineasta faz da duração. Apesar de seus 540 minutos, o filme nos cansa, mas aos poucos nos envolve, nos coloca dentro do seu ritmo peculiar: há longas seqüências de discussão entre o poeta e seus dois amigos artistas que vivem na região, seguidas de outras igualmente longas onde nada acontece. O filme é cheio de flashbacks, momentos potencialmente de fantasia, trocas que duas ou três horas depois fazem sentido, quando descobrimos nova informação. Duração e variação se tornam formas de modular um mundo todo próprio. A região devastada é impressionante como cenário e genuína co-protagonista, quase desprovida de vegetação ou construções que ainda estejam de pé. O espaço vai pouco a pouco se transformando numa paisagem mental para o poeta, cuja narrativa o leva mais e mais rumo a questão "o que é ser filipino" e o peso que ela carrega. Filme formidável, ao qual espero voltar com mais atenção depois do festival.
Mais simples e convencional, mas mesmo assim muito talentoso, é Tirador, de Brilhante Mendoza. Um filme social todo passado numa favela, mas que entrecorta as amardilhas do gênero através de uma completa secura de olhar e de uma comprensão de cinema como um grande espetaculo físico. A seqüência inicial da batida policial por si só vale o esforço de procurar o filme. Outro exemplar da vitalidade deste cinema, que esperamos seja também descoberto pelos programadores dos nossos festivais.Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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