Cinema - Cultura - Comportamento

Night and Day, de Hong Sang-soo
Por Filipe Furtado
Quinta-feira foi marcada por dois filmes preciosos de cineastas de quem eu esperava muito, apesar de estarem em extremos opostos de suas carreiras. Hong Sang-soo é afinal mestre já mais que reconhecido que filma freqüentemente (este é seu setimo longa na década) e cujo universo é tão bem delineado que assistir a seu novo filme é no fundo como encontrar algum velho amigo. Já Celina Murga havia realizado o excelente Ana e os Outros em 2003 – espécie de encontro improvável entre Kiarostami e Rohmer - e desde então, por conta das dificuldades que recentemente atingiram o cinema independente argentino levou anos para conseguir realizar seu segundo longa, aguardado com ansiedade por todos que queriam ver a confirmação do seu talento.
Night and Day, o novo filme do cineasta coreano oferece muito daquilo que esperamos dele: homens que se colocam em situações embaraçosas por causa de mulheres, longas cenas de consumo de alcóol, jogos de duplos, zooms. Mas logo percebemos que este não é um filme habitual de Hong Sang-soo, a mudança de locação - o filme se passa no meio de coreanos expatriados em Paris - parece ter sido acompanhada de uma redimensão de diversas de suas preocupações. Uma das melhores cenas de Night and Day, por exemplo, envolve o protagonista fazendo uso de uma biblia para se livrar de ter que fazer sexo com uma ex-namorada (algo inimaginavel nos filmes anteriores). Nosso herói é um quase fantasma perambulando pelas ruas de Paris - a relação de Hong com o lugar é especialmente interessante, tirando muita força das locações, mas ao mesmo tempo excluindo quase que por completo os franceses do filme -, um pintor que se encontra lá fugindo de uma possível acusação de porte de maconha, e acaba se envolvendo com uma série de mulheres coreanas que por uma razão ou outra residem por lá (e à noite ele sempre liga para a esposa que ficou em Seoul).
Ele não tem dinheiro e não fala uma palavra de francês, restando-lhe passar os dias vadiando por Paris. Poucas vezes o cinema de Hong Sang-soo foi tão preciso como na maneira que registra os efeitos deste deslocamento emocional, geográfico e social sobre este homem e nunca um de seus protagonistas se apresentou tão nu diante do espectador. Night and Day é um filme longo (tem cerca de 2h30), apresentado como um diário em que as seqüências são sempre procedidas por cartões que apontam a progressão dos dias, muitas são quase vinhetas, outras se alongam como uma viagem à praia acompanhado de duas artistas com os resultados desastrosos que podemos supor num filme de Hong. É também um filme muito seco, apesar de cheio de momentos de riso nervoso, de cumplicidade com a plateia, onde mais que nunca fica pronunciada a influência de Jean Eutasche sobre Hong.
Unas Semanas Solos, de Celina Murga, trabalha numa outra chave de deslocamento: um grupo de crianças e adolescentes (entre os 7 e os 14 anos) passa uma semana sozinhos num condomínio classe alta de Buenos Aires por conta de uma viagem dos pais. O filme de Murga nos impressiona pelo pacto que é capaz de formar com seus jovens atores e a forma como se lançam juntos para delinear este universo de fim de infância, começo de adolescência. Murga tem um olhar muito atento para o movimento, pequenas alterações de comportamento e ritmo de fala dos seus protagonistas. Unas Semana Solos constrói com imenso cuidado este pequeno universo e depois deixa que ele siga sozinho com direção e ritmo próprio. Murga tem outras ambições visiveis: o pouco de trama que o filme tem deriva da entrada em cena do irmão mais novo da empregada na casa e das tensões geradas por conta da sua presença, e ela retira o máximo do condominio fechado como locação. Mas o filme nos fascina mesmo na maneira autêntica que capta este mundo. Apesar de com freqüência ser um filme adorável (não me surpreenderia se fizesse sucesso no circuitinho), é também muito honesto com a crueldade e a falta de limites que fazem parte dele.Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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